Sylvia Jarrus/The New York Times
Sylvia Jarrus/The New York Times

Novos casais decidem fortalecer relacionamento passando a quarentena juntos

Para alguns casais que se conhecem há pouco tempo, a decisão de morar junto parece o passo correto em uma época em que criar um relacionamento assumiu uma urgência singular

Joanne Kaufman, The New York Times – Life-Style

27 de outubro de 2020 | 05h00

No final de fevereiro, Jordan Tyler assistia a um comercial na TV para o aplicativo de encontros Match e, embora “não gostasse muito disso”, decidiu tentar por uma vez. No final de fevereiro, Brittany Swoboda também viu um comercial do Match na TV – quem sabe até, especulou mais tarde Tyler, exatamente o mesmo que o inspirara.

Os dois se conheceram no site, e em meados de março, Brittany, de 33 anos, analista do comportamento para um programa de autismo, divorciada, e Tyler, com a mesma idade, professor assistente de comunicação na Universidade Western Michigan, divorciado, já haviam trocado diversos e-mails.

Uma semana mais tarde, o estado de Michigan recebeu a ordem de lockdown para ajudar a conter o coronavírus. Com bares e restaurantes fechados, o casal que acabara de se conhecer, marcou o seu primeiro encontro: um jantar (bife e salada de macarrão) preparado por Tyler em sua casa.

“Jordan encheu totalmente os copos de vinho, e eu gostei”, disse Brittany, que também gostou da proposta de Tyler de fornecer-lhe um produto que de repente se tornara escasso: papel higiênico. Logo, ele virou o Príncipe Encantado. Um mês mais tarde, os dois estavam morando juntos, alternando-se entre a casa em estilo de fazenda de Tyler, a nordeste da Kalamazoo, em Allegan, e a casa de Brittany a 25 quilômetros de distância, em Shelbyville.

De dia, eles trabalhavam lado a lado em seus laptops. De noite, viam filmes e conversavam. E conversavam.

Eles se casaram em julho, e Brittany se mudou em tempo integral para a casa do marido e vendeu a sua.

A pandemia devastava todos os níveis da sociedade. Pessoas morreram, estavam ameaçadas, vidas foram interrompidas. Negócios fecharam as portas. Edifícios de escritórios ficaram vazios. Jantar fora em geral passou a significar apenas jantar no terraço. Algumas escolas foram reabertas, mas a maioria adotou o ensino à distância. Os pais talvez sobrevivam (ou não) ao estresse. Mas o amor ainda brilha com força.

“A imaginação de uma mulher é muito rápida; ela salta da admiração para o amor, do amor para o casamento em um instante”, escreveu Jane Austen em Orgulho e Preconceito. Atualizando Austen nestes tempos de covid: os casais saltam de “vamos jantar” para “vamos tomar o café da manhã”, para “Vamos nos proteger juntos” em pouquíssimo tempo. As circunstâncias e as motivações variam.

Para alguns casais, a decisão de morar junto depois de um período relativamente breve de namoro parece o passo seguinte perfeitamente lógico em uma época em que criar um relacionamento assumiu uma urgência singular, quase como em tempos de guerra, do tipo carpe diem. (E ninguém ligará para os comentários de “prematuro” de observadores externos.) Para alguns, é algo não planejado, acima de tudo, uma peculiaridade da época.

Para outros, é uma conveniência ou talvez uma tentativa de aumentar as probabilidades de sobrevivência de um relacionamento. Dadas as dificuldades de uma viagem durante a pandemia, se os casais não decidirem ver-se pela manhã, ao meio-dia e à noite, como dizem, isto se tornará quase impossível. Marc Pinaud e sua namorada, Stephanie Matthias, conheciam histórias como “vamos morar juntos” com final feliz.

Como muitas coisas durante a pandemia, a sua veio pela Amazon. Em janeiro, Pinaud foi contratado como gerente de produtos sênior pelos serviços on-line da empresa. Esta foi a boa notícia. A má notícia, pelo menos do ponto de vista de Stephanie, foi que o emprego era em Vancouver, na Colúmbia Britânica.

O casal, que se conhecera pelo aplicativo de encontros Bumble e morava em Toronto, passou algum tempo junto visto que Pinaud ainda estava na cidade. Mas a covid foi crescendo, e um dia antes da partida para Vancouver, no final de março, ele aceitou a opção de permanecer temporariamente e trabalhar em casa até as coisas se resolverem.

Ele já tinha desistido do apartamento, então se mudou naquela noite, por três meses para o de Stephanie, diretora de desenvolvimento em uma organização filantrópica. Ela transformou um dos dois quartos em um escritório para Pinaud. “Ter Marc perto para passarmos o tempo juntos, tê-lo perto para conversarmos durante a montanha russa da pandemia foi maravilhoso”, afirmou. “Estamos muito em sintonia. Nós nos compreendemos sem que nenhum dos dois precise falar”.

Por isso, quando Pinaud finalmente se mudou para Vancouver em agosto, Stephanie, depois de um mês de aviso prévio dado ao dono, deixou o apartamento e se mudou com ele. O casal agora se esconde em um apartamento de dois quartos perto da praia.

Obviamente, ficar em casa com o parceiro nem sempre faz as coisas saltarem para o patamar seguinte. “Quando não há outras distrações, é fácil apaixonar-se loucamente por alguém”, falou Lily Evans, estudante de enfermagem que conheceu Kevin Karl, especialista em estatística ambiental na ONU, no início de março. Como eles tinham apartamentos no mesmo bairro, o Upper West Side , quando a pandemia atacou, eles começaram a morar juntos, alternando os endereços de acordo com a vontade. Lily tem a certeza de que ela e Karl têm os mesmos interesses – e, pelo menos o que é igualmente importante, uma visão de mundo semelhante.

“Não nos aborrecemos juntos apesar da falta de estímulos externos”, ela disse. “Acho que um relacionamento só pode melhorar quando o casal pode fazer coisas como ir a restaurantes, a museus e encontrar-se com amigos. Só pode ficar melhor, mas é claro, não há nenhuma garantia. Perguntei para ele: ‘E se esta for apenas uma coisa da covid?’” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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