Sentindo-se socialmente estranho? Até os extrovertidos estão um pouco enferrujados

Sentindo-se socialmente estranho? Até os extrovertidos estão um pouco enferrujados

Meses de encontros limitados deixaram até os mais extrovertidos se sentindo inconfortáveis tentando socializar novamente

Bob Morris, The New York Times - Life/Style

17 de janeiro de 2021 | 05h00

Cece Cord, socialite e designer que gosta de falar bastante, ofereceu um pequeno almoço em sua cabana localizada na encosta de um morro em Millbrook, no estado de Nova York. Mas, quando os convidados chegaram, sua desenvoltura social estava um pouco fora de sintonia. "Você se sente tão ingênua. Às vezes, mal consegue ter uma conversa", disse Cord, que se descreveu como "de certa idade".

Marz Lovejoy, cantora de hip-hop e editora do "The Black Utopia", fanzine sobre estilo e cultura, estava em um restaurante do SoHo com um colega e demorou uma eternidade para fazer o pedido. "Simplesmente não conseguíamos juntar nossos pensamentos e palavras. Acho que perdemos a habilidade de fazer um pedido", comentou Lovejoy, de 29 anos.

Enfrentei algo similar outro dia quando esbarrei com Hamish Bowles, o editor geral da Vogue, no Washington Square Park, em Manhattan. Nosso encontro foi agradável, mas percebi, depois que já tínhamos nos separado, que não o havia apresentado ao amigo que estava ao meu lado, falha que normalmente eu não cometeria.

Felizmente, meu amigo, que em geral fica irritado quando é desprezado, tinha acabado de voltar de um período isolado no Canadá, seu país natal, e mal percebeu minha impensada gafe.

Seja bem-vindo à província pandêmica das pessoas que estão socialmente enferrujadas e que recentemente se tornaram estranhas, onde uma simples interação, até mesmo entre pessoas extrovertidas, tornou-se algo incomum e desconfortável. Voltar a ter interações agradáveis parece algo como retornar de um ano no deserto, de um retiro para meditação ou do espaço sideral.

"Mesmo as pessoas mais sociáveis agora se sentem como um aluno estranho da oitava série assistindo a um baile da escola pela primeira vez", explicou Samantha Boardman, psiquiatra de Manhattan que dirige um site chamado Positive Prescription. Recentemente, ela aconselhou uma paciente que desfez uma amizade depois de recusar um abraço. "O desafio é que as regras de cada pessoa são diferentes", completou.

Conversas que antes eram fáceis e prazerosas agora podem parecer forçadas e irritantes. Lizzie Tisch recentemente abriu uma loja, a LTD, na Madison Avenue, mas, quando os clientes perguntaram sobre as mercadorias, incluindo um kit de máscara para presente, ela ficou desconcertada. "Era como se eu tivesse de reaprender as habilidades sociais básicas. Levei alguns dias para relembrar como falar com pessoas que estavam tão ansiosas quanto eu sobre como se comportar em uma loja", disse Tisch, de 48 anos.

Na verdade, as sutilezas das civilidades mais simples podem sufocar até os mais cautelosos.

"Perdemos a capacidade de falar sobre muitas coisas porque não estamos fazendo muitas delas. Quanto dá para falar de Donald Trump e do que assistimos na Netflix? E agora Trump está de saída", observou Fern Mallis, de 72 anos, a consultora de moda conhecida por transformar a New York Fashion Week em um grande evento social. Ela ficou muda em um desfile ao ar livre de prêt-à-porter de Alvin Valley, em Southampton, em outubro, uma rara saída e um retorno momentâneo à passarela.

Isaac Mizrahi, o estilista e performer de cabaré, está tendo dificuldade em se divertir com sua mãe. "Ela costumava falar de coisas fabulosas, incluindo as compras que fazia na Loehmann's. Agora me conta que a planta de casa cresceu um pouco", contou Mizrahi, de 59 anos.

Não muito tempo atrás, ele estava gravando um de seus shows de cabaré virtual para transmitir no Broadway World a partir do Café Carlyle quando notou que seu texto estava totalmente sem brilho. "Falei da omelete de clara de ovo que comi no almoço como se fosse a Primavera Árabe. Também fiquei parecendo uma pessoa de 93 anos", prosseguiu o estilista.

Jeanne Martinet, autora de "Mingling With the Enemy" (Misturando-se com o inimigo, em tradução literal) e outros livros sobre interação social, atribui parcialmente o lapso na conversa ao excesso de Zoom, no qual não é possível praticar a sutil e divertida arte de atropelar a fala de outra pessoa. Afinal, é preciso certa habilidade para entrar em uma conversa animada ou quente. E, quando estamos atrás de uma máscara facial, isso torna as nuances de humor e empatia difíceis de expressar, o que pode explicar por que usamos emojis quando enviamos textos.

Pode haver razões biológicas também. Sam Von Reiche, psicólogo clínico em Nova Jersey e autor de "Rethink Your Shrink" (Repense seu terapeuta, em tradução livre), acredita que certos tipos de conversas podem estimular o cérebro a produzir hormônios, incluindo a dopamina e a serotonina, e gerar uma sensação de bem-estar. O distanciamento social e a ansiedade de estar muito perto fizeram com que eles desaparecessem por hora, resultando em interações hesitantes e desajeitadas. "A linguagem corporal é muito importante na conversa verbal. Olhar para um rosto perto de você estimula a produção de oxitocina, o hormônio responsável pelos sentimentos que provêm do afeto e do vínculo, e isso pode melhorar a experiência da conversa", explicou Von Reiche.

A atrofia social também entrou no campo profissional. Deborah Hughes, dona de uma empresa de relações públicas que representou Donna Karan e Carolina Herrera, viu-se em uma reunião presencial e não reconheceu a própria voz: "Eu estava respirando de um jeito superficial. Soei tão estranha."

E quando Alina Cho, correspondente de televisão, teve de entrevistar Leonard Lauder para o "Sunday Morning" da CBS em outubro, ela achou tudo estranho, principalmente o vestuário. "Fazia tanto tempo que eu não usava salto alto que os pés começaram a doer e a me deixar tensa. Além de ter de entrar em meu vestido Gabriela Hearst", relembrou Cho, de 49 anos.

A vida urbana nas ruas, com o prazer dos encontros casuais, talvez tenha sofrido mais. "Perdemos as sutilezas básicas da vida de pedestre", analisou Euan Rellie, o sociável banqueiro de investimentos que mora com Lucy Sykes Rellie em um apartamento no West Village.

Outro dia, uma mulher no saguão de seu prédio passou por ele para entrar no elevador, dizendo que preferia subir sozinha. Na loja de café expresso do bairro, onde não está claro quantas pessoas podem entrar por vez, ele teve de abrir passagem com os cotovelos, pois uma mulher mascarada bloqueava a porta. E, segundo ele, deixar o filho mais novo na escola não é mais "uma sensação alegre da vida estudantil" que promove uma conversa divertida, mas sim uma fila burocrática de checagem de temperatura e de preenchimento de questionários de saúde.

Para Rellie, de 52 anos, "estamos todos desesperados por um bate-papo e uma mão no ombro neste momento. Sem isso, estamos perdendo o senso de quem somos e não sabemos mais se ofendemos alguém por termos sido muito cautelosos ou muito casuais".

O que fazer com esta época esquisita que faz a estranheza das festas de fim de ano parecer uma era de ouro de camaradagem?

Algumas pessoas aconselham tirar o moletom para nos lembrarmos de que já nos importamos com a aparência e com uma interação humana alegre. Outros sugerem fazer um esforço extra para ouvir com empatia ativa a conversa com um amigo de máscara ou com um estranho. Boardman, o psiquiatra, usa a calma reverência "namastê" para gentilmente evitar abraços e apertos de mão. Outros usam o humor para preencher saudações estranhas e lacunas sociais complicadas.

"Gosto de fazer uma pequena dança com os cotovelos, os quadris e as pernas para que as pessoas saibam como é difícil não abraçar e beijar duas vezes, como fazemos no Brasil", comentou Jayma Cardoso, de 43 anos, proprietária das lojas Surf Lodge, em Aspen e em Montauk.

Pessoalmente, preciso de um pouco de Xanax. Em um dos primeiros jantares de amigos em Long Island de que participei, depois de meses de bloqueio, eu me vi em uma discussão desnecessária e brutal sobre os acontecimentos atuais.

Sempre fui bom em lidar com conversas complicadas, chegando mesmo a transformá-las em trocas positivas. Mas aquela situação ficou fora de controle e comecei a gritar coisas tão impublicáveis que deveriam ter me cancelado ou me excomungado.

Mais tarde, eu me perguntei por que ninguém interveio para jogar panos quentes na situação. Em vez disso, todos apenas ficaram vendo o sangue e as penas voarem. Talvez estivessem socialmente enferrujados também? Ou talvez estivessem simplesmente sedentos por algum entretenimento que não estivesse na Netflix.

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