Kathryn Gamble/The New York Times
Kathryn Gamble/The New York Times

Usar óculos protege você do novo coronavírus?

Após pesquisadores notarem um número pequeno de míopes em hospital da China, eles começaram a se perguntar se os óculos oferecem algum tipo de proteção contra a covid-19  

Tara Parker-Pope, The New York Times

29 de setembro de 2020 | 05h00

Quando pesquisadores na China estavam analisando dados hospitalares de pacientes com covid-19, eles notaram uma tendência estranha: pouquíssimos dos pacientes doentes usavam óculos regularmente.

Em um hospital em Suizhou, China, 276 pacientes foram internados em um período de 47 dias, mas apenas 16 pacientes - menos de 6% - tinham miopia ou outro problema de visão que exigia o uso de óculos por mais de oito horas por dia. Em comparação, mais de 30% das pessoas com idades semelhantes na região precisavam de óculos para miopia, segundo pesquisas anteriores.

Dado que a taxa de miopia parecia ser muito maior na população em geral do que na enfermaria de covid-19, os cientistas se perguntaram: o uso de óculos poderia proteger uma pessoa contra a infecção pelo novo coronavírus?

“O uso de óculos é comum entre chineses de todas as idades”, escreveram os autores do estudo. “No entanto, desde o surto de covid-19 em Wuhan em dezembro de 2019, observamos que poucos pacientes com óculos foram admitidos na enfermaria do hospital.”

A observação “pode ser uma evidência preliminar de que as pessoas  que usam óculos diariamente são menos suscetíveis à covid-19”, especularam os autores.

Especialistas dizem que é muito cedo para tirar conclusões da pesquisa - ou recomendar que as pessoas comecem a usar proteção para os olhos, além de máscaras, na esperança de reduzir o risco de infecção.

Pode ser que os óculos funcionem como uma barreira parcial, protegendo os olhos dos respingos de tosse ou espirro. Outra explicação para a descoberta pode ser que as pessoas que usam óculos têm menos probabilidade de esfregar os olhos com as mãos contaminadas. Um relatório de 2015 acerca do toque facial descobriu que, ao longo de uma hora, os alunos que assistiam a uma palestra tocaram seus olhos, nariz ou boca, em média, cerca de 10 vezes, embora os pesquisadores não tenham investigado se o uso de óculos fazia diferença.

O estudo atual, publicado no JAMA Ophthalmology, foi acompanhado por um comentário de Lisa Maragakis, especialista em doenças infecciosas e professora de medicina na Escola de Medicina Johns Hopkins, que pediu cautela na interpretação dos resultados.

O estudo foi pequeno, envolvendo menos de 300 casos de covid-19, uma pequena fração dos casos relatados de infecção pelo novo coronavírus em todo o mundo. Outra preocupação é que os dados em relação a miopia no grupo de comparação foram coletados de um estudo realizado décadas antes.

E Lisa observou que vários fatores podem confundir os dados, e pode ser que o uso de óculos esteja simplesmente associado a outra variável que afeta o risco de covid-19. Por exemplo, pode ser que as pessoas que usam óculos tendam a ser mais velhas, mais cuidadosas e mais propensas a ficar em casa durante um surto viral do que aquelas que não usam óculos. Ou talvez as pessoas que podem comprar óculos tenham menos probabilidade de contrair o vírus por outros motivos, como ter meios de viver em espaços menos lotados.

“É apena um estudo”, disse Lisa. “Tem alguma plausibilidade biológica, visto que nos estabelecimentos de saúde usamos proteção para os olhos”, como protetores faciais ou óculos de proteção. “Mas o que falta investigar é se a proteção para os olhos em um ambiente público acrescentaria alguma proteção além das máscaras e do distanciamento físico. Acho que ainda não está claro.”

Os profissionais de saúde usam equipamentos de proteção sobre os olhos para protegê-los de gotículas que podem voar de tosses e de espirros, bem como de partículas aerossolizadas que se formam quando os pacientes são submetidos a procedimentos médicos, como a entubação. Mas para a grande maioria das pessoas, esse nível extra de proteção provavelmente não é necessário se uma pessoa estiver usando uma máscara e mantendo distância física em espaços públicos. Também existe a possibilidade de introduzir riscos ao usar óculos - algumas pessoas podem tocar mais em seus rostos quando colocam os óculos, ao invés de menos, observou Lisa.

Dito isso, mais estudos são necessários para ver se a tendência se mantém em outras populações de estudo, disse Thomas Steinemann, porta-voz da Academia Americana de Oftalmologia e professor de Oftalmologia do MetroHealth Medical Center, em Cleveland.

“Acho isso provocativo e é extremamente interessante”, disse Steinemann.

Mas Steinemann disse que o estudo não deve causar preocupação entre as pessoas que não usam óculos. “Provavelmente não custa nada usar óculos, mas será que todo mundo precisa fazer isso? Provavelmente não”, disse ele. “Eu acho que você deve considerar a praticidade de usar proteção para os olhos ou uma máscara facial. Pessoas em certas ocupações, como socorristas e cuidadores de alguém que está doente, são pessoas que talvez devam ter esse cuidado extra. ”

As descobertas também levantam questões interessantes quanto a frequência com que os olhos podem ser a porta de entrada para o vírus. Há muito está estabelecido que vírus e outros germes podem entrar no corpo por meio das membranas mucosas nos olhos, nariz e boca. Contudo, o nariz parece ser a principal porta de entrada para o novo coronavírus, pois possui um grande número de receptores que criam um ambiente amigável no qual o vírus pode se replicar e descer pelo trato respiratório.

Mas os médicos estão atendendo uma pequena porcentagem de pacientes com sintomas oculares, incluindo conjuntivite, o que sugere que o vírus também pode estar entrando no corpo por meio dos olhos. Embora os sintomas oculares sejam menos comuns do que outros sintomas, como tosse ou febre, vários estudos relataram que as queixas oculares podem ser um sinal de infecção por covid-19.

No mês passado, os pesquisadores relataram um estudo com 216 crianças hospitalizadas com covid-19 em Wuhan. Entre esses pacientes, 49 crianças, ou quase 23% dos casos, apresentaram sintomas oculares, incluindo secreção conjuntival, esfregar os olhos e congestão conjuntival. Além da conjuntivite, coceira nos olhos, lacrimejamento excessivo, visão turva e sensação de que algo está no olho foram descritos por pacientes com covid-19. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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