Calla Kessler/The New York Times
Calla Kessler/The New York Times

Técnico de laboratório transforma rótulos de risco biológico em peças de arte

'Recorro às artes para metabolizar o trauma e a luta. Porque é uma maneira de converter algo intangível em alguma coisa que tenha forma', disse Ansel Oommen

Emily S. Rueb, The New York Times - Life/Style

28 de novembro de 2020 | 05h00

NOVA YORK – No início do surto da covid-19, Ansel Oommen, artista e técnico de laboratório médico, ofereceu-se para analisar cotonetes nasais de pacientes no grande hospital da cidade de Nova York em que trabalha. Muitos dos testes deram resultado positivo para o novo coronavírus. "Fui a primeira pessoa a ver os resultados. Era uma sensação estranha ficar sozinho em um laboratório silencioso e, mesmo assim, sentir a imensa gravidade de uma tempestade prestes a desabar", disse Oommen.

Naquela época, ainda não se sabia quão contagioso era o vírus. Por isso, para a segurança de todos, Oommen trabalhava em um andar separado de seus colegas. Os especialistas fechavam os tubos de amostra com tanta força que seus dedos doíam ao tentar abri-los. Certa noite, sozinho no laboratório, com um pressentimento ruim, ele teve a epifania de fazer arte usando as etiquetas pegajosas de risco biológico que o cercavam. "Recorro às artes para metabolizar o trauma e a luta. Porque é uma maneira de converter algo intangível em alguma coisa que tenha forma", analisou.

Oommen, de 29 anos, sobreviveu a um trauma de infância e também viveu com um dos pais gravemente doente por 19 anos. Para ele, a criatividade tem sido um componente fundamental de cura. Desde abril, ele tem desconstruído etiquetas brilhantes de risco biológico com tesouras, para em seguida reconstruí-las com precisão cirúrgica no chão de seu apartamento em Manhattan.

Enquanto caminhava do laboratório para casa em uma manhã estranhamente tranquila, ele se lembrou de um livro que havia lido enquanto estudava para se formar em Toxicologia: Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, sobre os perigos dos pesticidas. A obra se transformou em inspiração para uma colagem chamada "Primavera Silenciosa", que apresenta um relevo em forma humana contra um campo de flores do coronavírus e de borboletas de anticorpos, tudo feito com as etiquetas de risco biológico. "A primavera está silenciosa, mas é por causa da ausência de pessoas, e não de pesticidas", comentou ele.

Os alarmantes vermelhos e alaranjados dos rótulos o atraíram. Na natureza, as cores podem sinalizar toxicidade e perigo para potenciais predadores, um fenômeno conhecido como apossematismo. Também capturaram a toxidade dos próprios sentimentos. "Não que a dor e o trauma em si sejam tóxicos. Mas podem levar a situações tóxicas se você não for capaz de processá-los de maneira saudável", afirmou Oommen.

A maioria das pessoas reconhece que os médicos e os técnicos de emergência médica estão na linha de frente da pandemia. No entanto, os técnicos da área médica também estão, observou Oommen. "Você se lembra dos paramédicos e dos cadáveres nos necrotérios quando pensa na pandemia. Mas o laboratório também está caótico. Se você entrar lá, não vai sentir isso, mas a vida de todas aquelas pessoas está em jogo. Temos processado milhares de amostras. Vemos isso em grande volume."

Ele disse que o ato de criar cada obra – cortar os rótulos, segurar os pedaços na mão, decidir onde devem se conectar – lhe permitiu transferir seus sentimentos negativos para o papel e finalmente reconstruir o significado de sua experiência pandêmica. Oommen, naturalista urbano, também está trabalhando para se tornar terapeuta de horticultura, com o objetivo de ajudar os pacientes a se envolver em jardinagem ou em outras atividades baseadas em plantas para seu bem-estar físico e psicológico.

Também acredita que a criação de borboletas e de mariposas pode ter efeitos terapêuticos. (A psiquiatria moderna e a psicologia são derivadas da antiga palavra grega "psique", cuja deusa homônima é representada por uma borboleta.) "No processo de cuidar de algo pequeno, você cuida de si mesmo. Transcender uma experiência traumática é como ser uma lagarta presa à terra que se torna uma borboleta no ar. É libertação. É liberdade", declarou.

Ao longo da pandemia, amigos que estavam tendo dificuldades para lidar com as incertezas e com novos problemas mentais recorreram a ele em busca de apoio emocional. "Em algum lugar do sofrimento, existe um entendimento profundo do que significa ser mortal", disse. Até agora, Oommen fez uma dezena de obras para a "The Biohazard Collection" (Coleção de etiquetas de risco biológico), que ele planeja doar à Sociedade Histórica de Nova York.

Seu último trabalho em andamento é Anaplylaxis (Anafilaxia), termo clínico para uma reação alérgica com risco à vida que causa dificuldade para respirar. A obra mostra o contorno de uma figura humana; em seu interior, os pulmões se assemelham a ninhos de vespas, e uma delas está enclausurada no crânio faturado. "Grande parte da minha vida girou em torno de viver em um estado de crise, sempre à procura da próxima tempestade no horizonte. Nunca esperei por essa e, ainda assim, estou estranhamente preparado", afirmou Oommen.

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