Lam Yik Fei/The New York Times
Lam Yik Fei/The New York Times

O coronavírus é transmitido pelo ar em ambientes fechados. Mas ainda desinfetamos as superfícies

Cientistas dizem que há pouca ou nenhuma evidência de que a limpeza profunda mitiga a ameaça em ambientes fechados

Mike Ives e Apoorva Mandavilli, The New York Times - Life/Style

23 de janeiro de 2021 | 05h00

HONG KONG - No aeroporto deserto de Hong Kong, as equipes de limpeza borrifam soluções antimicrobianas constantemente em carrinhos de bagagem, botões de elevador e balcões de check-in. Na cidade de Nova York, os trabalhadores desinfetam continuamente as superfícies dos ônibus e metrôs. Em Londres, muitos pubs gastaram muito dinheiro em limpeza intensiva de superfícies para reabrir após o lockdown - antes de fecharem novamente em novembro.

Em todo o mundo, trabalhadores estão ensaboando, limpando e desinfetando superfícies com um objetivo urgente: combater o novo coronavírus. Mas os cientistas dizem cada vez mais que há pouca ou nenhuma evidência de que superfícies contaminadas possam espalhar o vírus. Em espaços fechados lotados como aeroportos, dizem eles, o vírus que é exalado por pessoas infectadas e que permanece no ar é uma ameaça muito maior.

Lavar as mãos com água e sabão por 20 segundos - ou passar álcool na ausência de sabão - ainda é incentivado para impedir a propagação do vírus. Mas limpar as superfícies faz pouco para mitigar a ameaça do vírus em ambientes fechados, dizem os especialistas, e as autoridades de saúde estão sendo incentivadas a se concentrar em melhorar a ventilação e a filtragem do ar em ambientes fechados.

“Na minha opinião, muito tempo, energia e dinheiro estão sendo desperdiçados na desinfecção de superfícies e, mais importante, desviando a atenção e os recursos da prevenção da transmissão pelo ar”, disse Kevin P. Fennelly, especialista em infecções respiratórias no Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos.

Falsa sensação de segurança

Alguns especialistas sugerem que Hong Kong, uma cidade populosa de 7,5 milhões de habitantes e uma longa história de surtos de doenças infecciosas, é um estudo de caso para o tipo de limpeza extravagante de superfície que dá às pessoas comuns uma falsa sensação de segurança em relação ao novo coronavírus.

A Autoridade Aeroportuária de Hong Kong usou uma "cabine para desinfecção de corpo inteiro" semelhante a uma cabine telefônica para funcionários do aeroporto nas áreas de quarentena. A cabine - que o aeroporto diz ser a primeira do mundo - faz parte de um esforço máximo para tornar a instalação um “ambiente seguro para todos os usuários”.

Essas demonstrações podem ser reconfortantes para o público porque parecem indicar que as autoridades locais estão se envolvendo na luta contra a covid-19. Mas Shelly Miller, especialista em aerossóis da Universidade do Colorado em Boulder, disse que a cabine não fazia sentido prático do ponto de vista do controle de infecções.

‘Teatro da higiene’

Uma série de doenças respiratórias, incluindo o resfriado comum e a gripe, são causadas por germes que podem se espalhar a partir de superfícies contaminadas. Portanto, quando o surto do novo coronavírus surgiu na China, parecia lógico supor que esses chamados fômites fossem o principal meio de disseminação do patógeno.

Em julho, um ensaio na revista médica The Lancet argumentou que alguns cientistas tinham exagerado quanto ao risco de infecção pelo novo coronavírus por contato com superfícies sem considerar as evidências de estudos de seus primos próximos, incluindo o SARS-CoV, o causador da epidemia de SARS de 2002-2003.

“Esta é uma evidência extremamente forte de que, pelo menos para o vírus SARS original, a transmissão por fômite foi muito pequena”, disse o autor do ensaio, o microbiologista Emanuel Goldman, da Universidade Rutgers, por e-mail. “Não há razão para esperar que o parente próximo SARS-CoV-2 se comporte significativamente diferente neste tipo de experimento”, acrescentou ele, referindo-se ao novo coronavírus.

Poucos dias após o ensaio na Lancet de Goldman, mais de 200 cientistas pediram à Organização Mundial da Saúde (OMS) que reconhecesse que o novo coronavírus poderia ser propagado pelo ar em qualquer ambiente fechado. Curvando-se à enorme pressão pública sobre o assunto, a agência reconheceu que a transmissão por aerossol em ambientes fechados pode levar a surtos em locais fechados e mal ventilados, como restaurantes, boates, escritórios e locais de culto.

Em outubro, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, que tinham dito desde maio que as superfícies "não são a principal forma de propagação do vírus", estavam afirmando que a transmissão de gotículas respiratórias infecciosas era o "principal modo" de transmissão.

Mas a essa altura, a paranoia em relação a tocar qualquer coisa, desde corrimãos até sacolas de compras, havia tomado conta. E o instinto de desinfetar superfícies como uma precaução contra a covid-19 - “teatro da higiene”, como a revista The Atlantic chamou - já estava profundamente enraizado.

“Meu parceiro de tênis e eu abandonamos o aperto de mãos no final da partida - mas, uma vez que toquei nas bolas de tênis que ele tocou, qual é o sentido disso?”. Geoff Dyer escreveu em um ensaio em março para a revista The New Yorker que capturou o espírito germofóbico do momento.

E quanto ao ar?

O ônus da covid-19 em Hong Kong é relativamente baixo para qualquer cidade. Mesmo assim, alguns especialistas afirmam que ela tem sido lenta em responder aos riscos da transmissão por aerossóis em ambientes fechados.

No início, as autoridades exigiram que os restaurantes de Hong Kong instalassem divisórias entre as mesas - o mesmo tipo de proteção frágil e essencialmente inútil usada no debate da vice-presidência dos EUA em outubro.

Mas, à medida que as autoridades de Hong Kong diminuíram gradualmente as restrições às aglomerações em ambientes fechados, inclusive a permissão para festas de casamento de até 50 pessoas, existe o temor de novos surtos potenciais dentro de ambientes fechados.

Alguns especialistas dizem estar especialmente preocupados com a possibilidade de as gotículas infectadas pelo novo coronavírus se espalharem pelas saídas de ar dos escritórios, que estão lotados porque a cidade ainda não desenvolveu uma cultura robusta de trabalho remoto. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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