Mike Belleme/The New York Times
Mike Belleme/The New York Times

Jovens devem receber prioridade no tratamento contra o coronavírus?

Políticas adotadas nos EUA para designar recursos médicos, como equipamentos e leitos, mencionam a idade como parte da equação

Paula Span, The New York Times - Life/Style

18 de agosto de 2020 | 05h00

Em abril, enquanto o coronavírus devastava o nordeste dos Estados Unidos, Larry Churchill pensou no que deveria fazer se a pandemia provocasse escassez de suprimentos médicos. Caso adoecesse, será que, aos 75 anos, ele deveria pensar primeiro em garantir o atendimento dos mais jovens?

Ele se encontrava em boa posição para fazer essa pergunta. Especialista em bioética aposentado pela Universidade Vanderbilt, ele publicou um ensaio no fórum de bioética do Centro Hastings dizendo que pretendia evitar hospitais caso estes ficassem lotados, e abriria mão do respirador caso o equipamento se tornasse escasso. Quando uma vacina for desenvolvida, ele iria para o fim da fila.

Felizmente, Churchill não teve que enfrentar tais decisões. Continua saudável, escrevendo e lecionando, e fazendo suas caminhadas pelas Montanhas Blue Ridge. E foram produzidos respiradores em número suficiente para atender à demanda.

Mas conforme o número de casos aumenta nos EUA e a temporada da gripe se aproxima, a perspectiva de um racionamento voltou à tona. Algumas políticas adotadas pelos estados ou sistemas de saúde para designar recursos médicos - equipamento, medicamentos, leitos nas alas intensiva e semi-intensiva - mencionam especificamente a idade como parte da equação. Outros parâmetros parecem mais neutros, mas ainda assim incorporam fatores que desfavorecem os mais velhos, como a pré-existência de outras condições de saúde ou a expectativa de vida.

Depois de muito debater o que os mais jovens devem aos mais velhos, expostos a um maior risco diante da covid-19, alguns adultos mais velhos estão contemplando suas responsabilidades perante os jovens.

“Parte do significado moral do envelhecimento está em um sentido de reciprocidade entre as gerações", escreveu Churchill no seu ensaio.

Ele não acredita que os mais velhos sejam menos merecedores de atendimento, e disse nem desejar que sua filosofia seja tomada como política pública; outros adultos mais velhos chegarão a conclusões diferentes.

Mas, em questões de ética, ele defende uma “abordagem da expectativa de vida”, às vezes chamada de “oportunidade justa”: ele já teve sua oportunidade de vivenciar certas coisas. Os jovens tiveram menos tempo para desfrutar dos prazeres da vida e aproveitar suas oportunidades.

“É por isso que a morte de alguém de 40 anos é tão trágica - o potencial desperdiçado é imenso", disse ele em entrevista. “Se eu morresse, com 75 anos, isso seria triste para aqueles que me amam, mas não seria trágico.”

A posição dele é minoritária entre aqueles que pensam nas questões da ética na medicina e as proteções jurídicas em meio a uma pandemia. Associações profissionais, como a Sociedade Americana de Geriatria e grupos de defesa dos direitos como Justice in Aging se concentraram mais na possibilidade oposta: querem evitar que os mais velhos e debilitados sejam empurrados arbitrariamente para o fim da fila.

“Pode haver um indivíduo relativamente jovem e frágil que se comporta como alguém de 85 anos, e alguém de 85 anos que participa de maratonas", disse o Dr. Timothy Farrell, vice-presidente da comissão de ética da Sociedade Americana de Geriatria e geriatra do departamento de saúde da Universidade de Utah. “Assim, parece injusto dizer que os mais velhos têm menos direito aos recursos.”

Em junho, a sociedade publicou um comunicado de sua posição voltado para governantes e administradores hospitalares. O documento alertava que a categorização etária, aplicada por alguns estados para determinar o acesso ao atendimento durante um surto de doença, um desastre natural e outras crises, jamais deveria ser usada para negar atendimento aos pacientes.

A sociedade não se manifestou quanto ao uso da idade como “critério de desempate", como permitem alguns parâmetros de ética em casos nos quais as chances de sobrevivência de dois pacientes são comparáveis. Mas, “para nós, isso seria uma abordagem parcial", disse Regan Bailey, diretora de litígio da Justice in Aging.

A organização dela e outras que representam pessoas com deficiência e adultos mais velhos apresentaram numerosas queixas ao Gabinete de Direitos Civis do departamento federal de saúde e serviços humanos, acusando as políticas estaduais de alocação de recursos de saúde de violarem as leis federais de direitos civis.

Em março, o Gabinete de Direitos Civis reafirmou que a Lei de Atendimento Acessível e outros estatutos federais proíbem a discriminação nas instalações de saúde que recebem recursos federais com base na idade, deficiência e outras características.

Independentemente disso, a coalizão argumentou que os parâmetros no Oregon, Arizona e norte do Texas ainda são discriminatórios. No Arizona, por exemplo, onde os parâmetros de crise entraram em vigor em junho, a mortalidade no longo prazo é levada em consideração, bem como a capacidade de vivenciar as “fases da vida". Enquanto esses casos são processados, outras queixas de direitos civis provocaram mudanças no Tennessee, na Pensilvânia e no Alabama.

Mas nenhuma dessas iniciativas impede indivíduos como Churchill de recusarem o tratamento em benefício dos mais jovens, seja qual for o motivo. Durante uma pandemia, especificar as próprias escolhas usando um testamento vital é mais importante do que nunca.

Para aqueles que desejam ceder o lugar na fila do atendimento de saúde, uma organização chamada Save Other Souls (Salve Outras Almas, em tradução livre) desenvolveu um documento que entra em vigor durante uma declaração de estado de emergência decorrente da covid-19. Supervisionada por advogados, ele permite a pessoas de qualquer idade cederem equipamento médico, medicamentos ou atendimento hospitalar a outros. A diretiva perde o efeito quando o estado de emergência é revogado, ou após um período de 18 meses.

“É como uma pessoa que corre para dentro de um edifício em chamas ou que cede o último lugar no bote salva-vidas", disse a Dra. Andrea Kittrell, otorrinolaringologista de Lynchburg, Virgínia, que criou a organização em março. “Há pessoas altruístas e generosas que valorizam a vida dos outros tanto quanto a própria vida, ou ainda mais.”

Winnona Merritt, por exemplo, trabalha diariamente em seu canteiro de legumes em High Point, Carolina do Norte, compartilhando pepinos e abóboras com os vizinhos. Saudável aos 82 anos, Winnona disse que gostaria de viver mais. Mas, em meio a uma pandemia, “Não quero receber mais atenção do que alguém mais jovem, com família para criar", disse ela. “Não preciso disso. Tive uma vida maravilhosa.”

Com o apoio da família, ela assinou um testamento vital.

Pesquisas indicam que o altruísmo e a generosidade aumentam com a idade. Ao recrutar voluntários para os Experience Corps, que treina os mais velhos para ajudarem nas escolas públicas, as mensagens de recrutamento mais eficazes apelavam ao desejo da pessoa de ajudar a próxima geração, por exemplo.

Programas bem-sucedidos como os Experience Corps também apontam para uma crítica comum feita à filosofia da oportunidade justa: as oportunidades que se apresentam mais tardiamente podem estar entre as mais significativas.

“Podemos perder as contribuições que as pessoas fazem mais tarde na vida", disse o Dr. Farrell.

Além disso, por razões que podem incluir questões de raça, gênero e pobreza, alguns nunca tiveram sua oportunidade justa.

É claro que abrir mão do atendimento de saúde não é a única resposta altruísta à covid-19. Jeffrey Balkind, 73 anos, administrador aposentado do Banco Mundial em Washington, se inscreveu como voluntário para os testes clínicos de uma vacina. Balkind viu a morte de perto duas vezes, quando foi refém durante um sequestro de avião em 1981 e, em 2017, quando teve um acidente com sua lambreta Vespa. Ferido e hospitalizado, ele decidiu que, “se tivesse a oportunidade, faria algo útil na área médica".

Não foi fácil. Para a fase inicial da vacina em desenvolvimento pela empresa de biotecnologia Moderna e os Institutos Nacionais de Saúde, Balkind passou por uma entrevista por telefone e um exame físico de duas horas, assinando em seguida um formulário de consentimento de 23 páginas. Ficou muito desapontado ao ser colocado em uma lista de espera.

Mas ele foi aceito na fase 3 dos testes, muito mais ampla. “Estou animadíssimo", disse ele. “Tenho a sensação de estar em uma aventura fascinante.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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