Andrea Mohin/The New York Times
Andrea Mohin/The New York Times
Gia Kourlas, The New York Times - Life/Style

05 de maio de 2021 | 06h00

Assim como muitas outras dançarinas de balé, Lauren Lovette se fez algumas perguntas durante a pandemia. Uma delas continua subindo para o topo de sua lista. O que é um corpo de balé? E um corolário: o que é ser saudável? “Será que estou trabalhando de verdade para ser uma bailarina melhor?”, Lovette disse. “Ou será que estou só tentando morrer de fome e ficar mais magra, para ter a tal da linha?”.

No balé, a linha não é apenas um atributo da forma do corpo no palco. É algo que tem a ver com um contorno harmonioso: a maneira como, da cabeça aos pés, os membros e o torso criam a ilusão de alcance e comprimento. O peso, com seu volume e protuberâncias – incluindo, sim, os seios – desempenha um papel importante e pode interferir na qualidade escultural do conjunto.

Para Lovette, integrante do New York City Ballet desde 2010, essa pausa nas apresentações trouxe alguma clareza. “Não vou mais dançar com 43 quilos”, disse ela. “Não sou mais essa pessoa”.

Desde que a pandemia começou, quase um ano atrás, questões semelhantes vêm girando na minha cabeça: será que a imagem corporal, um assunto tenso para qualquer dançarina, independentemente de seu tamanho, pode ser uma fonte de força, em vez de agonia? Será que essa pausa nas performances ao vivo pode ser uma abertura para mudanças nas exigências estéticas do balé – especialmente a magreza extrema?

O balé é uma forma de arte de elite. Certos atributos físicos são necessários – boa abertura, além de tornozelos e pés flexíveis – mas não existe um padrão único. Na verdade, tudo se resume à maneira como o corpo se move no espaço: com dinamismo, musicalidade e capacidade atlética.

O balé é subjetivo: o que parece bom, o que se torna uma espécie de padrão, é definido pelo diretor da companhia – geralmente homem e, ainda por cima, branco. Muitos pensam que a mudança já vem tarde. Benjamin Millepied, ex-diretor artístico do Paris Opera Ballet que agora dirige a companhia contemporânea L.A. Dance Project, disse que “nós vivemos uma tendência de longa data dessa ideia do corpo magro, e eu sou realmente contra. Eu quero ver bailarinos que tenham sua individualidade”.

Antes da pandemia, as dançarinas estavam se dedicando a seu atletismo, incorporando o treinamento de força a seu regime. Embora parecessem menos frágeis – o que é uma coisa boa – a aparência típica numa companhia de balé continuava sendo a magérrima.

Agora, muitas dançarinas – assim como todas nós – estão vivendo com corpos ligeiramente diferentes. Marika Molnar, fisioterapeuta e diretora de saúde e bem-estar do New York City Ballet, disse que acha que as dançarinas com quem trabalha estão ótimas. “Talvez elas tenham ganhado uns dois quilos, mas estão fantásticas”, disse ela. “Não sei como isso vai se traduzir no palco e dentro de um tutu, mas todas elas estão fantásticas agora, muito saudáveis”.

Com o mundo da dança em suspenso, as bailarinas tiveram quase um ano para refletir sobre o lado desconfortável e traumatizante de sua forma de arte e sua cultura. Falar o que se pensa não é a norma no balé, mas, em outubro, uma dançarina trouxe à baila o assunto da imagem corporal. Para ela, assim como para muitas outras, tinha a ver com seu tamanho.

Kathryn Morgan, 32 anos, bailarina com muitos seguidores no YouTube, postou um vídeo chamado “Por que saí do Miami City Ballet”, descrevendo sua experiência com a companhia, que durou apenas uma temporada. Morgan, que veste tamanho 2, já tinha passado anos lidando com uma doença autoimune, que quase 11 anos antes a forçara a deixar o New York City Ballet. Seu contrato de solista com Miami, a partir de maio de 2019, era para ser seu retorno aos palcos.

“Eu entrei – totalmente franca e aberta – dizendo que tenho essa condição particular”, disse ela numa entrevista. “Meu corpo é assim. Eu nunca vou ser a menor bailarina no palco”.

Assim que chegou, seu corpo foi constantemente criticado, disse ela: papéis foram prometidos e, depois, retirados. Ela subiu ao palco apenas quatro vezes – três delas no papel decididamente não clássico da Stripper em ‘Slaughter on Denth Avenue’, de George Balanchine, em que a personagem usa salto, não sapatilhas de ponta. Nesse papel, notou ela, sua personagem estava “seminua”. (O traje adequado para o papel seria um vestido acanhado).

Morgan disse que achava que suas apresentações tinham sido um sucesso – os aplausos lhe davam a sensação de estar num show de rock. Mais tarde, porém, ela disse que foi informada de que “não estava em forma” e que seu corpo “não estava onde deveria estar”. Ninguém nunca mencionou o peso, especificamente.

Ela começou a regredir. Seu exame de sangue estava tão ruim quanto no início da doença, em Nova York. Seu cabelo começou a cair. Ela contou que seu médico lhe dissera que não sabia em que situação ela estava, mas era preciso sair. Ela encerrou o contrato e decidiu não o renovar. Para Morgan, pequena para os padrões, encolher ainda mais e se manter saudável era simplesmente impossível.

Quando uma bailarina é criticada por seu corpo, não se trata apenas de uma crítica cosmética. “Nosso corpo é a arte”, disse Chloe Freytag, ex-dançarina do Miami City Ballet que disse que rescindiu seu contrato no meio da temporada devido à exigência de perder peso.

O mundo está cheio de dançarinas de balé com o coração partido, de hoje e de ontem, e Morgan sabe disso. E com sua constante presença no YouTube, onde regularmente dá aulas, tutoriais e conselhos a jovens dançarinas, ela está em posição de falar sobre tudo isso. “O motivo pelo qual as pessoas ficam em silêncio é porque seus empregos estão em jogo e elas sabem que podem ser substituídas”, disse ela. “Eu não tinha nada a perder”.

O Miami City Ballet tem como política não discutir casos de seus ex-dançarinos. Mas, ao falar sobre a exigência estética da magreza em geral, Lourdes Lopez, a diretora artística da companhia, disse que esperava que esse padrão mudasse. “Para mim, essa coisa da covid foi um verdadeiro tipo de mudança de paradigma”, disse ela. “Foi uma grande reinicialização”. E deve abranger tudo, disse ela, “desde o que vemos como um tipo de corpo” até “a cor da pele de alguém no palco”.

Outra coisa que os corpos femininos no balé têm sido historicamente é branco. Para as bailarinas negras, imagem corporal e racismo estão inextricavelmente ligados: é mais do que magreza. As mulheres negras, especialmente, há muito enfrentam estereótipos de que são muito musculosas, muito atléticas.

“Aceitamos que o corpo branco pode ser toda e qualquer coisa”, disse Theresa Ruth Howard, ex-bailarina que escreve e fala sobre igualdade no balé. “Para a bailarina branca, defeitos físicos – pés ruins, um pouco rígidos, um pouco dobrados – não têm muito problema, podem ser como quiserem”.

No passado do balé, as academias eram tabus por causa do medo de ganhar massa corporal. Os dançarinos não deviam ser atléticos, mas belos, longilíneos e etéreos. Ainda assim, as bailarinas, especialmente até a década de 1950, tinham mais curvas. Essa moda mudou – e a pessoa que muitos gostam de culpar é George Balanchine, coreógrafo fundador do New York City Ballet, que teve uma influência descomunal no balé do pós-guerra nos Estados Unidos.

Alguns acreditavam – e ainda acreditam – que a preferência de Balanchine era por dançarinas com pernas longas e cabeças minúsculas. A noção de um corpo Balanchine pegou, criando o modelo de como as pessoas acham que uma bailarina deve ser. Mas Balanchine coreografou – e escolheu para sua companhia – dançarinos com uma variedade de tipos de corpo. “Acho que sua maior medida de aceitabilidade era a irreverência”, disse a historiadora da dança Elizabeth Kendall, “que, traduzida na personalidade, é mais forte do que o passo”.

Numa entrevista conjunta, a atual direção do New York City Ballet, o diretor artístico Jonathan Stafford e a diretora artística associada Wendy Whelan, disseram que o mundo da dança está se movendo para uma direção melhor. “Veja os primórdios do balé na Europa branca”, disse Stafford. “O balé levou muito tempo para superar essa imagem ‘ideal’ – qualquer que seja o ideal para aquela pessoa – fosse alguém muito alto, muito magro ou muito pálido. Obviamente, as companhias de balé demoraram muito para superar essa estética”.

Stafford e Whelan representam uma mudança geracional que está explorando uma nova visão de como a cultura do balé poderia ser. Ambos foram primeiros-bailarinos e têm uma longa relação com a companhia; Whelan foi uma estrela cuja carreira durou trinta anos. Eles foram nomeados para suas novas funções em 2019, depois que o New York City Ballet se viu abalado pela perda de seu veterano diretor Peter Martins, que se aposentou em meio a uma investigação sobre denúncias de abuso físico e emocional (ele negou as acusações) e um escândalo no qual bailarinos compartilhavam fotos de bailarinas.

Millepied, membro do New York City Ballet de 1995 a 2011, disse que, quando estava na companhia, os dançarinos eram tratados como crianças, o que infelizmente não é exceção no balé. Às vezes eram chamados de meninos e meninas. Millepied achava isso desumano. “Quando a cortina baixava no City Ballet, ficávamos parados, esperando para ver se Peter iria dizer ‘bom trabalho’, ‘parabéns’ ou algo assim, ou pelo menos olharia para nós”, disse ele. “Este é o nível de controle que existia, e nos apresentávamos com muita intensidade, mas tudo isso também tinha a ver com magreza”.

Há muito a ser consertado na cultura, e essas mudanças exigem tempo e comprometimento. Stafford e Whelan instituíram uma nova regra: nenhum membro da equipe tem permissão para falar com uma dançarina sobre uma questão corporal sem protocolos para garantir sensibilidade e confidencialidade. “Esse tipo de coisa não pode acontecer assim de passagem”, disse Stafford. “Não pode acontecer num espaço que talvez seja um pouco público demais. Tem que ser um ambiente saudável”.

No passado, disse Whelan, as coisas “eram mais instáveis em termos emocionais”. Stafford disse: “Não havia uma definição clara de, Ok, quem lida com isso quando vemos um dançarino que pode estar sofrendo e não tão saudável quanto precisamos?”.

Whelan disse que nunca lhe disseram para perder peso quando estava na companhia, mas que ouviu histórias de outras bailarinas. “Sempre acontecia de maneiras diferentes, e às vezes elas ficavam muito chateadas com a maneira como as coisas eram ditas”, disse ela. “Nunca era um assunto legal e provavelmente era feito com um pouco menos de cuidado do que o necessário”.

Na opinião de Stafford e Whelan, um corpo saudável é um corpo forte, e o corpo de balé de hoje tem músculos. Será que os ganhos emocionais e físicos – uns 2 quilos e pouco – da pandemia vão conseguir sobreviver quando os espetáculos voltarem aos palcos? Existem alguns obstáculos – e nem todos se referem a formas de pensar arraigadas. São de ordem prática.

“Acho que a estética do balé provavelmente voltará a ser como era, porque elas precisam caber nos figurinos”, disse Molnar. “Essas roupas são caras”. No balé, é uma preocupação séria; e muitas vezes acontece de determinados bailarinos ficarem com os papéis simplesmente pelo fato de se ajustarem bem ao traje. “Mas eu realmente não sei”, disse Molnar. “Acho que seria divertido ver se eles conseguem manter o nível de atividade física sem precisarem perder tanto peso e parecer emaciados”.

Quando entrevistei Lovette, em janeiro, ela falou que estava esgotada e se perguntou se estava cuidando bem de si mesma nos últimos anos. Ela jurou ser honesta consigo mesma. “Há certas coisas sobre as quais precisamos conversar”, disse ela. “Não estou sempre livre ou certa quando se trata do jeito como me senti e tratei meu corpo”.

Um mês depois, ela decidiu se aposentar do New York City Ballet ao fim da próxima temporada de outono. Ela tem apenas 29 anos. “Quero ter mais controle e dizer o que vou fazer e com quem vou trabalhar”, disse ela no início deste mês. “E quero fazer coisas e ser capaz de me concentrar em realmente fazê-las – e não que isso fique tão espremido no meio de todas as coisas que são necessárias para ser uma bailarina profissional. Porque muitas coisas são necessárias”.

Lovette também entende que pode ajudar a melhorar o balé. Nos últimos anos, ela começou a fazer seu nome como coreógrafa. Isso a coloca numa rara posição para promover a mudança.

“É por isso que eu queria ser coreógrafa”, disse ela. “O coreógrafo tem ainda mais poder do que qualquer outra pessoa, porque podemos escolher quem está no balé. Na maioria dos lugares aonde vou, posso levar qualquer pessoa para a companhia. Talvez os outros cutuquem e digam: ‘Oh, não, não, não, você não deve escolher essa pessoa. Deve escolher aquela, ela está melhor’. Mas eu posso responder: ‘Não. Eu quero a outra’. Sempre! E isso é muito poderoso”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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