Monica Jorge para The New York Times
Monica Jorge para The New York Times

Com base na confiança, correio informal leva mercadorias dos EUA para o Senegal

Transportadoras nem sempre podem fazer a entrega em domicílio na África Ocidental. Muitos preferem uma rede clandestina porque o sistema permite usar pessoas de confiança

Sarah Maslin Nir, The New York Times

14 de janeiro de 2020 | 06h00

Em um edifício de Nova York, os correios conhecem o apartamento 1A. As caixas chegam do mundo inteiro a todas as horas. Travesseiros, peças de automóvel, sapatos de salto e fones de ouvidos sem fios AirPods, as caixas vão se empilhando no hall de entrada, mas nenhum dos itens foi comprado pela pessoa à qual estão endereçados: Arame Wade.

Os verdadeiros destinatários estão a 6,1 mil quilômetros de distância. A cada duas ou três semanas, Arame enche as suas malas de produtos e os transporta através do Atlântico até as pessoas que fizeram realmente as compras: clientes de Dakar, no Senegal, e pagam uma taxa para ela.

Arame, anteriormente vendedora de automóveis, faz parte da solução de baixa tecnologia de um enorme problema para as compras de produtos de alta tecnologia em lugares onde o correio não é confiável: isto é, fazer com que as pessoas recebam o que encomendaram. Despachar mercadorias até o Senegal pode até ser fácil, mas o trecho final, a última milha, é onde as coisas ficam preocupantes. 

Os correios informais como a própria Arame, 34, são conhecidos no Senegal e em outros países de língua francesa como GPs. O termo se origina de uma política da Air France que oferecia aos familiares dos funcionários da companhia uma passagem reduzida chamada gratuité partielle, ou parcialmente grátis. Os GPs muitas vezes traziam para os amigos produtos difíceis de encontrar.

Hoje, os GPs formam um setor à parte, cobram taxas - apenas US$ 17 o quilo para alguns produtos volumosos; uma tarifa mais elevada para celulares ou computadores - o que costuma ser bem abaixo do que a maioria das varejistas online cobraria para despachá-los.

Apesar da corrida para capitalizar o crescente emprego da internet em lugares com dificuldades de infraestrutura, competir com o e-commerce não é fácil. A Amazon envia produtos para o Senegal e outros 128 países, onde assume a responsabilidade das entregas. Mas as transportadoras que ela utiliza nem sempre podem fazer a entrega em domicílio. Na África Ocidental, muitos preferem uma rede clandestina porque o sistema permite usar pessoas de confiança.

A casa de Marietou Seck, como várias na capital senegalesa, não tem número na rua. Por isso, Marietou criou um grupo de GPs. Na hora da remessa, ela escreve os endereços que os correios fornecem nos seus países de origem. Quando chegam a Dakar, telefonam e marcam um encontro. “A gente não entrega a mercadoria do cliente a qualquer GP”, disse Marietou, e explicou que ela verifica antes as referências e os comentários online.

A irmã de Alioune Sine entrega há vinte anos produtos americanos a clientes senegaleses. Alioune a ajuda, e diz que tiveram de contratar amigos e primos para poderem transportar um número maior de malas. Frequentemente os GPs operam com pequenas margens de lucro. Eles procuram as passagens mais baratas: até US$ 1,3 mil é considerado um preço aceitável para uma viagem de ida e volta de Nova York ao Senegal

Mas para conservar os clientes, muitos voam até mesmo quando os preços são mais altos. As companhias aéreas costumam permitir que um passageiro leve duas malas. Em um voo da Delta Air Lines para a África Ocidental, cada bagagem extra com menos de 32 quilogramas paga US$ 200. Segundo Marietou, suas transportadoras aceitam até dez bagagens, no máximo.

Muitos senegaleses não têm cartões de crédito, então alguns correios como Alioune compram os produtos e aceitam dinheiro vivo na entrega. A maioria dos clientes de sua irmã são amigos ou parentes distantes. “Todo mundo precisa confiar em todo mundo neste negócio”, ele disse. “É assim que trabalhamos”.

Depois de perder uma mala com produtos eletrônicos caros, agora Arame leva apenas um ou dois iPhones de cada vez. Os riscos e o preço elevado das passagens aéreas reduziram os seus lucros, explicou aliás, ela ganhava mais na concessionária de automóveis, mas o seu trabalho oferece outras vantagens, como a possibilidade de visitar a sua tia-avó em Dakar.

Aly Thioye, que tem uma franquia da pizzaria Domino’s em Rhode Island, disse que começou a trabalhar como correio há dois anos para poder pagar as visitas ao Senegal, onde nasceu. Agora, a demanda é tão grande que frequentemente ele faz a viagem do Aeroporto Internacional Logan em Boston até o Blaise Diagne no Senegal a cada duas semanas “parar a esta altura, adoraria, mas a verdade é que não posso”, disse Thioye. O seu grupo de cerca de 50 clientes é formado por amigos e parentes. “Eles confiam em mim”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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