Brian L. Frank para The New York Times
Brian L. Frank para The New York Times

Correr para deixar os obstáculos (e problemas) para trás

Corredores explicam como o hábito ajuda a manter o foco e serve até como orientação terapêutica

Alan Mattingly, The New York Times

01 de setembro de 2019 | 06h00

Forrest Gump, o personagem que dá título ao filme de 1994, enxergava a vida em termos simples. Ao explicar os anos que passou cruzando os Estados Unidos a pé, ele disse: “Senti vontade de correr". Markelle Taylor também corre longas distâncias, mas sua motivação é mais complexa. “É algo que me ajuda a manter o foco e seguir o rumo, quase como uma orientação terapêutica", disse ele ao Times. “O aspecto mental e físico está ligado aos desafios da vida e às diferentes adversidades que enfrentamos. É algo que me ajuda a manter a humildade.”

Em abril, Taylor correu a maratona de Boston em três horas, três minutos e 52 segundos, mas os desafios e os adversários que ele estava enfrentando eram diferentes daqueles encarados pelos demais corredores. Foi a sua quinta maratona, mas a primeira fora da prisão estadual San Quentin, na Califórnia, onde passou quase 18 anos por agredir a namorada, provocando o nascimento prematuro e morte do bebê do casal. “Na época, eu pensava que era um homem, mas não era", disse ele.

Taylor, que também foi vítima de violência doméstica na infância, foi um astro do atletismo na época do ensino médio. Na prisão, onde se tornaria conhecido como a Gazela de San Quentin, ele voltou a correr para afastar o desespero após o suicídio de um colega que teve a liberdade condicional negada. “A corrida era uma forma de liberdade", disse ele.

Se não pensam em termos de liberdade, as empregadas domésticas de Hong Kong ao menos enxergam a corrida em termos de igualdade. Há 380 mil domésticas estrangeiras na cidade, e um número cada vez maior delas passa o dia de folga - além das madrugadas - treinando e participando de ultramaratonas em trilhas. O esporte apresenta a elas “a oportunidade de serem tratadas como iguais em uma sociedade que frequentemente as discrimina", escreveu Mary Hui no Times.

Fredelyn Alberto é uma dessas domésticas. Fredelyn, 30 anos, vinda das Filipinas, está escrevendo seu nome nas pistas, e já venceu uma ultramaratona de 45 quilômetros em janeiro. “Durante a semana, as pessoas dizem, ‘Ah, você é uma doméstica’”, disse ela. “Nos fins de semana, na pista de corrida, dizem, ‘Uau, você é boa corredora’.” Jaybie Pagarigan, 39 anos, também das Filipinas, diz que seus feitos dão outro recado às pessoas: “Não somos apenas domésticas. Não somos apenas pobres".

A trabalhadora Dolly Vargas Salles, 40 anos, das Filipinas, disse: “É triste, mas é a realidade - quando dizemos que somos domésticas, somos vistos como pequenas. Mas não é assim que me sinto. Vivo de cabeça erguida. Foi isso que a corrida me ensinou". Para Tom McGrath, a importância da corrida de longa distância chegou a um patamar ainda superior. Para ele, é uma questão de sobrevivência.

McGrath, 69 anos, já foi chamado de Forrest Gump irlandês, um astro das ultramaratonas de distâncias extremamente longas. Quando tinha 27 anos, atravessou os EUA correndo em 53 dias, um recorde. Recentemente, concluiu aquela que diz ter sido sua última corrida de longa distância, entre Belfast e Dublin. Mas o caminho percorrido entre esses momentos foi mais traiçoeiro. Quando não estava correndo, estava bebendo. E isso quase o matou.

Depois de ouvir do médico que o fígado não aquentaria muito mais, ele seguiu sua inclinação natural: começou a correr mais. Já está sóbrio há quase 10 anos. Ainda pensa arrependido nos anos de alcoolismo. “Se eu pudesse fazer o relógio voltar, mudaria muitas coisas", disse ele ao Times. É claro que isso é impossível. Mas, ao menos, ele encontrou uma forma de seguir adiante. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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