Mladen Antonov/Agence France-Presse
Mladen Antonov/Agence France-Presse

Cresce a ameaça de uma corrida armamentista nuclear global

Segundo especialistas, a consequência será um ambiente mais perigoso e instável, precipitando conflitos indesejados e exigindo gastos militares entre potências do mundo

Steven Erlanger, The New York Times

15 de agosto de 2019 | 07h13

BRUXELAS - Depois do recente fim do tratado que limitava os mísseis de médio alcance, uma nova corrida armamentista parece tomar forma, atraindo mais participantes, mais dinheiro e mais armamento. A arquitetura de controle de armas da Guerra Fria, envolvendo dezenas de milhares de armas nucleares, foi pensada ao longo de anos de negociações envolvendo duas superpotências - os Estados Unidos e a União Soviética. Os elaborados tratados ajudaram a afastar o mundo da aniquilação nuclear.

Hoje, esses tratados são abandonados por EUA e Rússia justamente quando participantes não envolvidos nos acordos da Guerra Fria - como China, Coreia do Norte e Irã - se afirmam como potências regionais e desafiam a hegemonia americana.

O desmantelamento do “controle de armamentos", um verdadeiro mantra da Guerra Fria, eleva agora o risco de uma nova era em que potências nucleares como Índia e Paquistão se enfrentam por causa da Caxemira, e Israel, dona de arsenal próprio, se sente ameaçada pelo Irã. A Coreia do Norte testa novos mísseis, e acredita-se que outros países, como a Arábia Saudita, tenham acesso a armas nucleares ou à capacidade de desenvolvê-las.

De acordo com especialistas, a consequência será um ambiente mais perigoso e instável, mesmo no curto prazo, possivelmente precipitando conflitos indesejados e exigindo vastos gastos militares entre as maiores potências do mundo. “Se não houver desarmamento nuclear, haverá proliferação", diz Joseph Cirincione, analista de estratégia nuclear e presidente da fundação de segurança global Ploughshares Fund. “Se as grandes potências começarem a ampliar seu arsenal, as potências menores seguirão a tendência".

Armamento estratégico

O conselheiro de segurança nacional do presidente Donald J. Trump, John R. Bolton, falou em deixar que o último tratado de controle de armamento estratégico, Novo START, chegue ao fim em fevereiro de 2021. Na ausência de limites para o armamento nuclear, e sem nenhum sistema de verificação local e troca de informações, uma corrida armamentista com Moscou seria praticamente inevitável - o que provavelmente aceleraria outra corrida com Pequim.

Livre das limitações do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), o governo Trump vai testar uma nova geração de mísseis terrestres, que pretende mobilizar na Ásia. Com isso, o desejo de Trump de atrair a China para uma negociação de armamentos tripartite parece mais distante do que nunca. “Estamos no limiar de um ambiente no qual não haverá limites nem verificações mútuas entre russos e americanos", explica Lynn Rusten, que trabalhou no controle de armamentos durante o governo Obama. “Na Guerra Fria, ao menos os dois lados conversavam".

Richard J. Burt ajudou a negociar o tratado INF e o amplo Tratado de Redução do Armamento Estratégico, conhecido como START I, durante o governo do presidente George Bush. De acordo com ele, sem o Novo START, “não haverá mais transparência nem inspeções locais, de modo que todos voltam a supor o pior a respeito de seus adversários".

Uma corrida mais cara

EUA e Rússia ainda são donos de mais de 90% das armas nucleares do mundo - mais de oito mil ogivas, o suficiente para destruir o mundo várias vezes. O Novo START limitava a cerca de 1.550 o número de ogivas mobilizadas por cada lado.

Em junho, Bolton disse que uma prorrogação do Novo START seria improvável, em parte porque o tratado não cobre o armamento nuclear tático. Mas, em se tratando de questões nucleares, a busca pela perfeição pode atrapalhar os resultados práticos, avaliou Jon Wolfsthal, que foi diretor sênior de controle de armamentos no Conselho de Segurança Nacional do presidente Barack Obama. Segundo Wolfsthal, o desejo de Trump de envolver a China em negociações é positivo. “Mas é loucura pensar que a China participaria de um acordo com EUA e Rússia controlando os armamentos no ponto atual e consolidando seu status inferior", acrescenta.

Thomas M. Countryman, ex-secretário-assistente dos EUA para segurança internacional e não proliferação, disse que a China, com seu arsenal menor de aproximadamente 300 ogivas, teria pouco incentivo para se envolver em negociações. O arsenal chinês é pequeno o bastante a ponto de não representar a ameaça de um ataque supresa contra Washington ou Moscou, mas é grande o bastante - e suficientemente bem escondido - para garantir uma capacidade de retaliação crível.

Enquanto os tratados de controle de armamentos entre Washington e Moscou dependiam de inspeções e transparência, “para a China essas duas coisas enfraquecem suas poucas vantagens", pontua Countryman. Mas, se o Novo START chegar ao fim, os arsenais nucleares de Moscou e Washington se tornarão tão grandes e desconhecidos que “a China seria praticamente convidada a ampliar seu arsenal",  completa Mark Fitzpatrick, especialista no controle de armamentos.

Burt propõe uma prorrogação do Novo START seguida pela negociação de uma redução adicional com Moscou, chegando a mil ogivas mobilizáveis para cada, “e então poderíamos pensar em convidar os chineses a aceitar um limite ao seu arsenal existente". Ele disse que, caso contrário, “estamos nos encaminhando para uma corrida armamentista muito mais cara". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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