Mustafa Saeed para The New York Times
Mustafa Saeed para The New York Times

Corrida ganha adeptas entre as mulheres da Somália

Ex-ministra disse que a corrida era para lembrar as meninas de que seu gênero ou nacionalidade não eram "uma desvantagem"

Abdi Latif Dahir, The New York Times

27 de março de 2020 | 06h00

HARGEISA, SOMÁLIA - "Por que vocês não podem simplesmente ficar em casa?", gritou um homem para as duas jovens que passavam correndo no hipódromo - vestindo saias longas, camisetas para os braços e calças justas no calor de 32°C. Ele não era a única pessoa que zombava das mulheres que participavam dessa corrida de 10 quilômetros, parte de um evento anual que inclui uma maratona, onde mais de 250 dos 320 participantes deste ano eram homens.

Mas alguns espectadores tinham palavras mais gentis. "Corram e acabem com esses meninos de pernas finas!", encorajou uma mulher vestida com um jilbab marrom, uma túnica tradicional folgada, enquanto as mulheres passavam correndo. Todas as corredoras estavam vestidas de acordo com a prática muçulmana na região, que exige que a maior parte do corpo de uma mulher seja coberta.

A maratona começou há dois anos como uma forma de arrecadar fundos para a educação na Somailândia, que declarou independência da Somália em 1991, embora não seja reconhecida internacionalmente. Em contraste com as áreas do sul, que são atormentadas pelas brigas de clãs e pelo terrorismo, a Somalilândia é um oásis - atraindo turistas e multinacionais e sediando um festival literário de destaque.

Os eventos de corrida fazem parte dessa campanha de divulgação, com a participação de atletas de todo o mundo. A cada ano, mais mulheres somalis estão competindo no evento de 10 quilômetros, e o aumento da participação reflete como a vida está mudando, ainda que lentamente, para as mulheres daqui. Hanna Mukhtar, de 17 anos, corre todas as manhãs ao amanhecer nos arredores de Hargeisa, capital da região, geralmente com um amigo.

"Quando corro, sinto-me forte e livre", disse Hanna, que venceu a corrida de 10 quilômetros neste ano e no ano passado. Em 2018, o primeiro ano do evento, apenas cinco mulheres somalis competiram na corrida de 10 quilômetros. Este ano, 55 mulheres somalis participaram da competição. Edna Adan, de 82 anos, ex-ministra das Relações Exteriores da Somalilândia e ex-corredora, disse que a corrida era para lembrar as meninas de que seu gênero ou nacionalidade não eram "uma desvantagem".

Durante a competição deste ano, as mulheres competiram em pares, às vezes se puxando pela mão e incentivando uma à outra a continuar. Mulheres em Hargeisa interessadas em esportes estão encontrando saídas além da corrida. Espaços dedicados à natação feminina, ioga, basquete e taekwondo também surgiram nos últimos dois anos.

E muitas jovens se exercitam antes de ir para o trabalho ou depois de deixar a universidade, disse Marwa Mawliid, treinadora de futebol do centro de saúde e bem-estar Ubah Inspire. Quando o centro foi fundado em 2017, "as pessoas pensavam que éramos loucas", disse Marwa.

“Eles perguntavam: ‘Por que você precisa estar em forma? Por que você precisa correr? Vocês são homens? '”, ela disse. "Muitas pessoas não entendem que uma mente saudável está em um corpo saudável." Muitos dizem que levará tempo até que uma mudança cultural completa de apoio à corrida feminina se enraíze.

Mas Hanna, a atleta de 17 anos, não quer esperar até que isso aconteça. No próximo ano, ela pretende se tornar a primeira mulher somali a competir e terminar a maratona completa.  E tem ambições depois disso. "Quero concorrer pelo meu país", disse ela. "Quero competir no cenário global." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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