Randall Munroe
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Por que não corremos na mesma velocidade de um quadrúpede

Pesquisador em biomecânica, Peter G. Weyand afirmou que a velocidade da nossa corrida é limitada porque ficamos suspensos no ar durante a maior parte da passada

Randall Munroe, The New York Times

01 de fevereiro de 2020 | 06h00

Qual é o limite físico da velocidade de corrida de um humano? Até o momento, a maior velocidade já alcançada por um corredor foi aproximadamente 44,3 quilômetros por hora, marca do velocista Usain Bolt quando estabeleceu o recorde mundial dos 100 metros rasos em 2009.

Esse limite de velocidade não deve ser imposto pela força dos ossos, músculos e tendões. Em vez disso, um estudo de 2010 indicou que o limite de velocidade é inerente à forma bípede de se locomover, mais especificamente a nossa rapidez em reposicionar as pernas enquanto sobra tempo para dar impulso no chão.

O fisiologista e pesquisador em biomecânica Peter G. Weyand, da Universidade Metodista do Sul, no Texas, e um dos autores do estudo de 2010, disse que a velocidade da nossa corrida é limitada porque ficamos suspensos no ar durante a maior parte da passada. Durante os breves momentos em que nossos pés tocam o chão, temos que fazer muita força.

“Se tivesse que apontar um limite mecânico para os corredores bípedes, a partir de todo o trabalho que desenvolvemos, este seria o período demasiadamente curto de contato entre os pés e o chão", disse ele. E explicou: “Um humano muito rápido, como Usain Bolt, permanece em contato com o chão durante aproximadamente 42% ou 43% do tempo total da passada. Mas, no caso de um quadrúpede rápido — uma onça ou um cavalo — “esse tempo equivale a dois terços da duração da passada".

Durante o breve período em que mantemos contato com o chão, nossas pernas precisam nos empurrar para frente e para cima, sustentando o peso do corpo. É muita força para um período curto — e é por isso que os humanos andam mais rápido de skate do que correndo, argumentou Weyand: “No skate, estamos em contato com o chão durante a maior parte do tempo, como os quadrúpedes, em vez de ficarmos suspensos no ar".

Manter o skate em contato com o chão por mais tempo ajuda a sustentar o corpo durante o ganho de velocidade, aliviando parte da carga suportada pela perna que empurra o skatista. Perguntei a Weyand como ele redesenharia os humanos para que corressem mais rápido. Sugeri quatro alternativas: pernas mais longas, quadris muito largos, pernas adicionais ou joelhos adicionais. “Acrescentar joelhos deve ser o mais difícil", destacou.

Joelhos adicionais poderiam permitir que estendêssemos as pernas para manter contato com o chão por mais tempo. Mas, se os pés se afastarem muito do corpo, será difícil alavancá-lo com força suficiente empurrando o chão. “Se estivéssemos projetando robôs ou algo do tipo, creio que esta seria a menos provável das opções sugeridas", disse. “E também os quadris mais largos.”

Ele disse que pernas mais compridas poderiam ajudar; é uma das razões que fazem com que o avestruz corra mais rápido do que nós. Mas a melhor opção seria aumentar o número de pernas, de modo que uma ou duas delas estivessem sempre em contato com o chão. Ou seja, os interessados em correr muito rápido precisam convencer um mago a transformá-los em centauros.

É claro que os humanos conseguem correr usando os quatro membros sem ajuda da magia. Um estudo de 2016 realizado por Ryuta Kinugasa e Yoshiyuki Usami destacou que o tempo no Livro dos Recordes Mundiais Guinness para um humano correndo 100 metros apoiado nos quatro membros melhorou de 18,58 segundos em 2008 (primeiro ano em que esse tempo foi medido) para 15,71 segundos em 2015. A partir disso, os pesquisadores fizeram uma das previsões mais estranhas já publicadas em um estudo científico: até 2048, uma pessoa apoiada nos quatro membros poderia correr mais rápido que uma pessoa de pé. É uma previsão ousada. Mas, na ausência de um mago, só nos resta tentar a corrida quadrúpede para ver o resultado. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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