Agence-France-Presse-Getty Images
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Denúncia de exilado da corrupção do governo egípcio gera protestos

Mohammad Ali, ex-empreiteiro do Exército egípcio, divulgou vídeos com informações sobre a corrupção do governo Abdel Fattah el-Sisi

Raphael Minder, The New York Times

30 de outubro de 2019 | 06h00

BARCELONA, ESPANHA - No exílio voluntário que Mohammad Ali escolheu, em um lugar a cerca de 40 quilômetros de Barcelona, o ex-empreiteiro do Exército egípcio afirma dispor de informações sobre a corrupção do governo do seu país. Desde setembro, quando começou a postar vídeos denunciando a corrupção online, Ali conseguiu desencadear raros protestos contra o regime repressivo do presidente Abdel Fattah el-Sisi.

Mas o seu inesperado sucesso também gerou especulações a respeito de sua personalidade - qual seria a sua verdadeira identidade, quem poderia estar por trás dele, por acaso não seria ele um instrumento nas mãos dos militares, de alguma ramificação dos serviços secretos, que gostariam de ver a queda de el-Sisi, ou da Irmandade Muçulmana? Os protestos evidentemente abalaram o regime de el-Sisi, que decretou uma cruel repressão.

“Ninguém pode derrubar o presidente em um mês, mas em três ou quatro meses, com certeza, é possível”, afirmou Ali. “Quando um governo começa a se abalar, significa que enfraqueceu.” Ele diz não ter ambições políticas pessoais, e nega receber apoio das forças da posição. “Para que o Egito melhore, é preciso que el-Sisi seja tirado do cargo,” afirmou. “Entretanto, não quero que o Exército ou a Irmandade Muçulmana tomem o seu lugar, mas um cidadão, uma pessoa do povo”.

Ali divulgou mais de 50 vídeos online. Neles, fornece informações detalhadas sobre a corrupção e a malversação de recursos do Estado, segundo ele empreendida sob a rigorosa vigilância de el-Sisi e dos seus aliados. Ali afirma que el-Sisi gastou milhões de dólares na construção de novos palácios em uma época em que muitos egípcios lutam sob a politica de austeridade imposta por seu governo.

As acusações de corrupção não são novidade no Egito, observou Dalia Fahmy, professora de política da Universidade de Long Island, em Nova York. Mas o tipo de corrupção alegado por Ali é diferente. “Para o egípcio médio, ver o roubo de recursos para financiar a construção de casas luxuosas destinadas ao presidente e aos seus familiares em tempos de austeridade, é algo que fere mais do que a revelação da corrupção do governo”, afirmou. Ali disse que tinha conhecimento de que as empreiteiras envolvidas “pagavam por baixo do pano”, mas não na escala que descobriu no governo de el-Sisi.

“Quando comecei, não tinha ideia de quão corrupto fosse este sistema”, afirmou. “Sisi age como um pedinte feliz por receber dinheiro de todos os lados”. Em um discurso recente, el-Sisi defendeu a construção de palácios, alegando: “Nada está no meu nome. Tudo está no nome do Egito”.

Ibrahim Halawi, pesquisador que leciona na cadeira de relações internacionais no Royal Holloway na Universidade de Londres, disse que é “muito difícil saber quais são as verdadeiras intenções de Ali, por outro lado é difícil ignorar a sua longa participação em empresas que tinham um amplo relacionamento com os militares”.

“Não acredito que ele tenha alguma ambição política”, disse Halawi. “É mais provável que se trate de  vingança pessoal, considerando sua ênfase no próprio el-Sisi, e também pela apologia do Exército”. Ali insistiu que não é motivado por vingança, embora afirme que as autoridades egípcias lhe devem cerca de US$ 13,5 milhões em obras que não foram pagas.

Os vídeos desencadearam ameaças de morte diretas, segundo Ali, e até mesmo a oferta de um prêmio em dinheiro de um magnata saudita a quem o matar. “Acho que a polícia e o governo da Espanha são bons e ninguém aqui me entregará ao meu país, mas tenho pavor da máfia, de alguém que aceite dinheiro para me matar", afirmou. Nada Rashwan contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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