Celia Talbot Tobin / The New York Times
Celia Talbot Tobin / The New York Times

Costa Rica deve abandonar uso de combustíveis fósseis até 2050

Quase um terço dos ônibus seria formado por veículos elétricos já em 2035, e quase todos os carros e ônibus nas ruas devem ser elétricos até os 15 anos seguintes

Somini Sengupta e Alexander Villegas, The New York Times

30 de março de 2019 | 21h06

SAN JOSÉ, COSTA RICA - Trata-se de uma proposta ecológica ambiciosa para um país pequeno. A Costa Rica, com população de cinco milhões de habitantes, quer abandonar o uso de combustíveis fósseis até 2050, e a principal defensora da ideia é uma urbanista de 38 anos chamada Claudia Dobles, que por acaso é também a primeira-dama do país.

Todos os países terão de adotar algo semelhante, dizem cientistas, para que o mundo possa evitar as consequências mais graves do aquecimento global. E ainda que a pegada de carbono da Costa Rica seja mínima se comparada à de outros países, Claudia tem em mente um objetivo maior: livrar-se dos combustíveis fósseis mostraria ao mundo que um país pequeno pode ser líder na solução de um grande problema e, no processo, melhorar a saúde e o bem-estar de sua própria população.

Seria algo capaz de combater a “sensação de negatividade e caos” diante do aquecimento global. “Temos que começar a oferecer algumas respostas", acrescentou.

A aposta verde da Costa Rica, mesmo diante de consideráveis desafios, larga com alguma vantagem. A eletricidade no país já é produzida principalmente a partir de fontes renováveis - especialmente a hidrelétrica, mas também a eólica, solar e geotérmica. O país dobrou sua área florestal nos 30 anos mais recentes, após décadas de desmatamento, de modo que metade de sua superfície é agora coberta por árvores.

Agora, se a estratégia de descarbonização tiver sucesso, ela pode servir para orientar outros, especialmente nos países em desenvolvimento, mostrando como líderes eleitos democraticamente podem fazer crescer suas economias sem depender de fontes de energia poluentes. Mas, se fracassar, as consequências podem ser igualmente profundas. “Se não conseguirmos cumprir a meta até 2050, é improvável que outro país consiga", disse o economista Francisco Alpízar e assessor do governo para questões climáticas.“Seria algo muito ruim”.

Para Claudia, a prioridade é resolver a questão dos transportes. O setor é o principal responsável pelas emissões de gases-estufa na Costa Rica. O número de carros e motocicletas nas ruas está aumentando rapidamente, de acordo com levantamento de um grupo não afiliado ao governo. Os congestionamentos são um problema imenso; o tráfego matinal na região metropolitana de San José se move a uma velocidade média de aproximadamente 15 quilômetros por hora. À tarde, a situação é ainda pior.

O Plano Nacional de Descarbonização, como é chamado, prevê trens de passageiros e de carga em funcionamento já em 2022, quando o marido de Claudia, o presidente Carlos Alvarado, termina seu mandato. De acordo com o plano, quase um terço dos ônibus seria formado por veículos elétricos já em 2035, e quase todos os carros e ônibus nas ruas serão elétricos até 2050.

A reforma do sistema de transporte é cara, e para tanto será necessário lidar com questões pouco ligadas à mudança climática - melhorar a saúde fiscal do país para, com isso, obter vultosos empréstimos no exterior para financiar projetos tão ambiciosos, e reduzir o desemprego, uma demanda política relativamente urgente. Significa também lidar com as aspirações de mobilidade social ascendente da sua população.

Stephanie Abarca é uma dessas pessoas. Segurando a bolsa e a marmita, indo para o trabalho pela manhã, a mulher de 32 anos defendia 100% das metas ecológicas da primeira-dama. Mas ela enfrenta problemas mais imediatos. Para chegar ao trabalho a tempo, ela precisa acordar às 4 da madrugada para tomar banho e se aprontar, andar de ônibus por uma hora, andar alguns quarteirões (ou correr, quando o ônibus está atrasado), e embarcar em um trem movido a diesel por mais 20 minutos até finalmente chegar no escritório. Quando a semana acaba, ela fica esgotada.

Ela está poupando para comprar um carro usado. É algo que facilitaria sua jornada diária ao trabalho, disse, plenamente consciente que isso significaria injetar mais carbono na atmosfera. “Todo mundo quer ter um carro", afirmou Stephanie, gerente de uma empresa de móveis. 

Depois do transporte, agricultura e lixo respondem pela maior parte das emissões da Costa Rica. Para limitar as emissões provenientes de aterros sanitários, o plano propõe novas usinas de tratamento do esgoto, bem como sistemas de reciclagem e compostagem, virtualmente inexistentes no momento. Os produtores de abacaxi e bananas teriam de reduzir suas emissões. O mesmo vale para os pecuaristas, o que pode significar usar menos terras.

Ainda não se sabe como será pago o custo das ambições ecológicas da Costa Rica. Uma iniciativa inicial calcula um valor aproximado de US$ 6,5 bilhões somente nos próximos 11 anos, soma que o governo diz que seria dividida entre os setores público e privado.

Ainda assim, a arrecadação fiscal é insuficiente, indústrias poderosas recebem isenção de impostos, e o endividamento do governo aumentou muito. O crescimento do déficit levou recentemente as agências de classificação a rebaixarem a nota da Costa Rica. E uma reforma fiscal promovida por Alvarado no ano passado levou a manifestações nas ruas e a uma paralisante greve de professores que durou meses.

Alvarado, de 39 anos, que escreveu um romance histórico antes de se tornar presidente em 2018, gosta de evocar o passado. Ele lembrou que líderes que o antecederam também fizeram coisas improváveis, como abolir o exército na década de 1940. Ele descreveu a mudança climática como “a maior tarefa da nossa geração". Disse não ver sentido em esperar que países maiores e mais poderosos tomem a iniciativa.

No último domingo de fevereiro, em um palco erguido atrás do Museu de Arte da Costa Rica, o governo dele buscou unir o país em torno do plano de descarbonização. Os convidados formaram fila. Todos trajavam peças tropicais e casuais: estampas florais, tecidos de linho, chapéus Panamá. Os sons da floresta tropical ecoavam pelo espaço. Artistas vestidos como animais circulavam entre o público. “Green is the New Black” (O verde está na moda), dizia o slogan na camiseta da primeira-dama.

“O que temos diante de nós é uma grande transformação", declarou o presidente. “Temos de conquistá-la com dados, com inteligência, mas, acima de tudo, temos de nos encher de coragem para seguir adiante”, completou. Nem todos serão beneficiados. Um grupo de industriais que representa os proprietários da frota de ônibus disse que, se for necessário modernizar os veículos com motores elétricos, o governo terá de mandar-lhes dinheiro para evitar a cobrança de passagens mais caras, o que provavelmente resultaria em dificuldades políticas.

As importadoras de carros querem que o governo fiscalize os veículos usados, que tendem a poluir mais (a média de idade dos carros no país é de 17 anos). E Guillermo Constenla, líder do partido que detém a maioria no congresso, se mostrou contrário à ideia de aumentar o imposto sobre o combustível.

Há outra complicação. Um número menor de carros novos significaria menos dinheiro para o governo num momento em que a Costa Rica já carece de recursos. Os impostos ligados aos combustíveis fósseis, incluindo a carga tributária dos carros novos, respondem por mais de 20% da receita pública. O governo fala na possibilidade de uma ampla reforma fiscal, o que seria uma empreitada politicamente arriscada.

Claudia tem certeza de que os hábitos vão mudar. Ela lembrou de uma visita a Paris quando era universitária e de como descobriu os prazeres da vida sem carro. A primeira-dama quer que os costarriquenhos possam desfrutar dessa sensação em casa.

Para tanto, ela disse, a vasta área metropolitana de San José terá de ser fundamentalmente redesenhada: mais apartamentos, mais comércio, mais calçadas, mais espaços públicos de socialização. E transporte público rápido, moderno e seguro. Claudia quer que os compatriotas percebam que não se trata apenas de emissões de gases-estufa. “Estamos falando também de qualidade de vida", pontuou.

É claro que seria problemático para a Costa Rica se todos no mundo optassem pela descarbonização. No ano passado, a maioria dos três milhões de turistas chegou ao país de avião, deixando no céu uma imensa pegada de carbono.

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