Couve-flor ganha mais espaço no mercado

Especialistas dizem que consumo cresce porque hortaliça atende a ampla gama de consumidores

Anahad O'Connor, The New York Times

22 Julho 2018 | 11h00

Para Gail Becker, ex-executiva de marketing que tem dois filhos com doença celíaca, encontrar a pizza sem glúten que seus filhos podem comer sempre foi um desafio.

Assim, alguns anos atrás, Gail começou a fazer suas próprias pizzas, usando uma massa que contém couve-flor em lugar da farinha branca. Os filhos gostaram tanto da invenção dela que, em 2016, Gail largou o trabalho e fundou sua própria empresa, Caulipower, que vende pizzas congeladas de couve-flor e mistura para assar com couve-flor.

Mas Gail não poderia imaginar o quanto o sucesso chegaria rápido. A Caulipower se tornou uma marca de milhões de dólares, com pizzas de couve-flor vendidas em 9 mil lojas nos Estados Unidos.

“Uma coisa na qual insistimos quando fundamos nossa marca era que a couve-flor [cauliflower em inglês] fosse mencionada no nome", disse Gail, que vive em Los Angeles. “Queremos celebrar a hortaliça.  Não tentamos escondê-la nem incluí-la de maneira oculta.”

Conforme um número cada vez maior de pessoas adota uma dieta sem glúten, que reduz os carboidratos e favorece hortaliças, legumes e verduras, um número maior de empresas de alimentos está embarcando nessa tendência para substituir farinha, arroz e outros carboidratos simples. 

Os consumidores estão procurando a couve-flor em especial por causa do seu sabor e versatilidade, usando a horta para uma série de receitas que se espalharam pelas redes sociais, de bolinhos e purês até nhoques, caçarolas, pizzas e até brownies de chocolate.

Uma das maneiras mais populares de preparar esta hortaliça consiste em picá-la ou triturá-la em partículas do tamanho de grãos, que muitas pessoas usam como substitutos para o arroz. De acordo com a firma de pesquisa de mercado Nielsen, as vendas de produtos embalados como "arroz" de couve-flor, macarrão de abobrinha e outros legumes usados como substitutos para a massa e outros carboidratos simples chegaram a 47 milhões de dólares este ano, com a venda de substitutos à base de couve-flor aumentando 100% no ano passado, alcançando um total de 17 milhões de dólares.

A especialista em nutrição Heather Smith disse que um dos motivos pelos quais a couve-flor adquiriu fama é seu perfil nutricional. Uma porção de 100 gramas de arroz branco contém 150 calorias, 34 gramas de carboidratos e uma grama de fibras, enquanto uma porção comparável de couve-flor em forma de arroz contém apenas 25 calorias, cinco gramas de carboidratos e três vezes mais fibras.

Alix Turoff, nutricionista de Nova York, recomenda aos pacientes que misturem a couve-flor em forma de arroz com pratos que usem muito molho, de sabor mais forte, como curry, frituras e Chili.

Especialistas da indústria de alimentos dizem que a tendência de consumo da couve-flor está crescendo porque esta hortaliça atende a uma ampla gama de consumidores que seguem diferentes dietas, dos vegetarianos até a dieta do paleolítico. Muitos são atraídos por este tipo de alimento e buscam opções que não usem aditivos como açúcar, sal, adoçantes artificiais e ingredientes demasiadamente refinados, sintéticos ou geneticamente modificados.

A couve-flor em forma de arroz pode ser feita com um processador de alimentos ou com uma ferramenta manual. Há também uma ferramenta para transformar abobrinhas, pimentas e abóboras em macarrão. Mas o procedimento pode ser demorado e demandar muito tempo, o que leva algumas marcas a oferecerem variedades embaladas pré-prontas.

Quando a Green Giant, centenária marca americana de alimentos, lançou o primeiro produto de arroz de couve-flor no final de 2016, eram colhidos semanalmente 5 acres de couve-flor para a sua produção. 

Atualmente, essa colheita chega a 30 acres, o equivalente a mais de 100 mil pés de couve-flor por dia, de acordo com Jordan Greenberg, vice-presidente e diretor-geral da Green Giant.

Mas os produtos também atraíram a ira da indústria americana do arroz, que movimenta 34 bilhões de dólares por ano, para quem a concorrência oferece “imitações de arroz".

Em maio, um grupo da indústria americana se queixou dizendo que “produtos" de legumes vendidos como arroz seriam propaganda enganosa. O consumidor poderia confundir um pacote de "arroz frito de couve-flor” com arroz de verdade, disse Michael Klein, porta-voz do grupo.

“Se eles quiserem chamar isso de couve-flor em grãos, couve-flor picada, ou seja o que for, não há problema", disse ele. “Mas que não chamem isso de arroz. Há uma definição científica para o arroz, e esse produto não corresponde à ela.”

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