Rebecca Conway/The New York Times
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O mundo necessita de seringas. Eles fabricam 5,9 mil por minuto

A empresa da família de Rajiv Nath, Hindustan Syringes, aposta que suprirá a necessidade de bilhões de seringas e agulhas

Karan Deep Singh, The New York Times - Life/Style

17 de março de 2021 | 05h00

BALLABGARH, ÍNDIA – No final de novembro do ano passado, um e-mail urgente chegou nos computadores da Hindustan Syringes & Medical Devices, uma das maiores produtoras de seringas do mundo.

O e-mail era da Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância –, numa busca desesperada por seringas. Não qualquer uma. Elas tinham de ser menores que o normal. Tinham de quebrar se usadas uma segunda vez para impedir contágios no caso de  uma possível reciclagem.

E mais importante, a Unicef necessitava de uma enorme quantidade. E para já!

“Eu pensei, 'Não teremos problemas’”, disse Rajiv Nath, diretor gerente da empresa, que injetou milhões de dólares em suas fábricas de seringas para atender a uma vacinação em massa. “Nós conseguiríamos fornecer o material possivelmente mais rápido do que qualquer outra companhia”.

“À medida que os países se atropelam para garantir doses suficientes de vacina e colocar um fim na pandemia, uma segunda disputa vem se desenrolando pelas seringas. As vacinas não são tão úteis se os profissionais da saúde não tiverem como injetá-las nas pessoas.

Autoridades nos Estados Unidos e da União Europeia declararam não ter uma quantidade suficiente de seringas. Em janeiro, o Brasil limitou as exportações de seringas e agulhas quando seus esforços de vacinação ficaram aquém do esperado.

E para complicar as coisas, essas seringas têm de ser do tipo certo. No mês passado, o Japão revelou que talvez precisasse se desfazer de milhões de doses da vacina da Pfizer BioNTech se não conseguisse uma quantidade suficiente de seringas especiais que extraíssem uma sexta dose das ampolas. Em janeiro, a Food and Drugs Administration (FDA), agência regulatória de medicamentos e alimentos americana, avisou aos provedores de assistência médica nos Estados Unidos que podem ser extraídas mais doses dos frascos da Pfizer uma vez que os hospitais verificaram que alguns continham uma dose de vacina suficiente para inocular uma sexta, ou até uma sétima pessoa.

“Muitos países foram pegos de surpresa”, disse Ingrid Katz, diretora do Harvard Global Health Institute. “É uma ironia que os países em todo o mundo não estejam totalmente preparados para ter esse tipo de seringa”.

O mundo necessita entre oito e 10 bilhões de seringas somente para a vacinação contra a covid-19, dizem especialistas. Em anos anteriores, apenas 5% a 10% dos 16 milhões estimados de seringas usadas em todo o mundo eram destinadas à vacinação e imunização, afirmou Prashant Yadav, membro do grupo de estudos Center for Global Development, em Washington e especialista em logística de produtos médicos e hospitalares.

Nações mais ricas, como Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Alemanha, injetaram bilhões de dólares do dinheiro do contribuinte no desenvolvimento de vacinas, mas pouco foi aplicado na expansão da manufatura por seringas, disse Yadav.

“Estou preocupado não só com a capacidade de manufatura no geral, mas com a capacidade de produção de tipos específicos de seringa e se elas chegarão aos locais onde são necessárias”.

Nem todas as seringas são adequadas à tarefa.

Para maximizar o conteúdo de um frasco da vacina da Pfizer, por exemplo, uma seringa tem de comportar uma dose exata de 0,3 milímetros, e deve também ter um espaço residual baixo – a distância infinitesimal entre o êmbolo e a agulha - depois de a dose ser inteiramente injetada, para diminuir sobras de vacina.

O setor redobrou os esforços para atender à demanda. A companhia Becton Dickinson, com sede em Nova Jersey e uma importante produtora de seringas, anunciou um gasto de US$ 1,2 bilhão durante quatro anos para expandir sua capacidade de produção, em parte para fazer frente à covid-19.

Os Estados Unidos são os maiores fornecedores de seringas do mundo em termos de vendas, de acordo com a Fitch Solutions, empresa de pesquisa. Estados Unidos e China estão empatados nas exportações, com fornecimentos anuais combinados num valor equivalente a US$ 1,7 bilhão. Embora a Índia seja um player menos importante globalmente, com apenas US$ 32 milhões em exportações em 2019, Nath, da Hindustan Syringes, vê agora uma grande oportunidade.

Ele vende suas seringas e três centavos de dólar cada uma, mas seu investimento total é considerável. Foram quase US$ 15 milhões para a fabricação em massa de seringas, o equivalente a um sexto das suas vendas anuais. Em maio, ele encomendou novos moldes de fornecedores na Itália, Alemanha e Japão para produzir uma variedade de êmbolos e corpos de seringas.

Nath contratou mais 500 funcionários para suas linhas de produção, produzindo mais de 5.900 seringas por minuto em suas fábricas no distrito industrial de Nova Délhi. Tirando os domingos e feriados, a companhia produz quase 2,5 bilhões de seringas por ano, e o plano é chegar a três bilhões em julho.

A Hindustan Syringes há muito tempo fornece o produto para os programas de imunização da Unicef em alguns dos países mais pobres do mundo, onde a reutilização de seringas é comum e uma das principais fontes de infecções letais, caso da Aids e hepatite.

No final de dezembro, quando a OMS autorizou a vacina da Pfizer para uso emergencial, Robert Matthews, encarregado dos contratos da Unicef em Copenhague, e sua equipe, partiram em busca de um fabricante que conseguisse produzir milhões de seringas.

E, segundo Matthews, eles necessitavam de uma seringa que atendesse às especificações da OMS e fosse compacta para ser transportada. O produto da Hindustan Syringes foi o primeiro.

A companhia começará a enviar 3.2 milhões de seringas em breve, segundo a Unicef, desde que aprovadas num outro teste de qualidade.

A companhia indiana vendeu 15 milhões de seringas para o governo japonês, e mais de 400 milhões para a Índia para a vacinação contra a covid-19. Mais pedidos estão na fila, incluindo os da Unicef, de mais 240 milhões, e também do Brasil.

Segundo Rajiv Nath, os negócios com seringas “sugam o sangue”, uma vez que os custos são astronômicos e os lucros marginais. Se a demanda cair até à metade nos próximos anos, ele perderá boa parte dos US$ 15 milhões investidos.

Claramente, é uma operação comedida. O tapete azul do escritório de Nath parece tão velho quanto sua mesa ou o lustre de vidro nas escadas, que seu pai instalou em 1984, antes de transferir a empresa para ele e sua família. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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