Mike Kai Chen/The New York Times
Mike Kai Chen/The New York Times

Planeja se desfazer da máscara após a vacinação? Não é tão simples assim

Não está claro como as pessoas vacinadas podem propagar o vírus, mas a resposta a esta questão virá logo; cientistas insistem na cautela

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18 de março de 2021 | 05h00

Com dezenas de milhões de americanos imunizados contra o coronavírus e milhões sendo vacinados diariamente, a pergunta premente é: quando vou me desfazer da minha máscara?

A pergunta é mais complexa do que parece - quando retornaremos à normalidade, o quão breve os americanos vacinados poderão se abraçar com os entes queridos, reunir-se com os amigos e ir a concertos, shopping-centers e restaurantes sem se sentirem ameaçados pelo coronavírus?

Certamente muitas autoridades estaduais já se dizem prontas. No começo do mês, o Texas suspendeu a ordem de uso de máscaras, e todas as restrições para as empresas. E o Mississipi rapidamente seguiu o exemplo. Os governadores de ambos os Estados citaram como motivo a queda nas infecções e o número crescente de cidadãos sendo vacinados.

Mas a pandemia não acabou e os cientistas aconselham paciência.

Parece claro que pequenos grupos de pessoas vacinadas podem se reunir sem muita preocupação de infectar um ao outro. O CDC (Centros de Prevenção e Controle de Doenças) deverá em breve emitir novas diretrizes liberando pequenas reuniões de americanos inoculados.

Mas quando os vacinados poderão se desfazer das suas máscaras vai depender do quão rapidamente os contágios cairão e qual a porcentagem de pessoas que continuam sem vacinar dentro de uma comunidade.

Por quê? O fato é que os cientistas não sabem se as pessoas vacinadas disseminam o vírus para aquelas que não receberam a vacina. Embora todas as vacinas contra a covid-19 sejam espetacularmente boas na proteção de pessoas contra doenças graves e morte, a pesquisa não respondeu ainda claramente o quão bem elas impedem o vírus de se instalar no nariz de uma pessoa imunizada e depois se propagar para outras.

E agora as variantes do coronavírus que conseguem fugir do sistema imune também estão mudando os cálculos. Algumas vacinas são menos eficazes na prevenção de infecções causadas por algumas variantes e, em teoria, permitem que mais vírus se propaguem.

A pesquisa disponível até agora sobre o quão bem as vacinas impedem a transmissão é preliminar, mas promissora. “Estamos confiantes de que há uma redução”, disse Natalie Dean, bioestatística da Universidade da Flórida. “Não sabemos a magnitude exata, mas não é 100%”.

Mas mesmo uma redução de 80% da taxa de transmissibilidade é suficiente para as pessoas imunizadas deixarem de lado suas máscaras, afirmam especialistas. Especialmente quando a maior parte da população estiver inoculada e o número de casos, hospitalizações e óbitos despencar.

Mas muitos americanos ainda não foram vacinados e muitas pessoas ainda morrem a cada dia. Assim, diante da incerteza quanto à transmissão, mesmo as pessoas já imunizadas devem continuar a proteger as outras usando máscaras, dizem os especialistas.

“Elas devem usar as máscaras até provarmos de fato que as vacinas impedem a transmissão”, afirmou o Dr. Anthony Fauci, diretor do National Institute for Allergy and Infectious Diseases.

A prova ainda não está à mão porque os ensaios clínicos das vacinas foram realizados para testar se elas previnem contra doenças graves e morte, que normalmente é o efeito do vírus sobre os pulmões. A transmissão, por outro lado, é causada pelo crescimento do vírus no nariz e na garganta.

Armados com a vacina, os combatentes imunológicos do corpo coíbem o vírus logo após a infecção, encurtando o período de infecção e eliminando as quantidades de vírus no nariz e na garganta. Isto deve reduzir significativamente as chances de uma pessoa vacinada infectar outras.

Estudos em animais respaldam a teoria. Em um estudo realizado com macacos imunizados e depois expostos ao vírus, sete dos oito animais não apresentaram nenhum vírus detectável nos fluidos nasais e pulmonares, observou Juliet Morrison, especialista em virologia na Universidade da Califórnia, em Riverside.

Similarmente, dados obtidos a partir de um estudo com dezenas de participantes no ensaio clínico da Moderna, que foram testados depois da segunda dose da vacina, sugerem que a primeira dose reduziu em dois terços os casos de infecção.

Outro pequeno conjunto de dados foi divulgado recentemente envolvendo o ensaio da Johnson & Johnson. Os pesquisadores examinaram sinais possíveis de infecção em 3 mil participantes durante 71 dias depois de eles tomarem a primeira dose da vacina. O risco de infecção, nesse estudo, parece ter caído 74%.

Mas os ensaios clínicos podem ter superestimado o poder de uma vacina, porque o tipo de pessoas que participaram deles já era cuidadosa e orientada quanto às precauções a tomar durante o ensaio.

Alguns pesquisadores vêm monitorando as infecções entre pessoas imunizadas em ambientes reais. Por exemplo, um estudo na Escócia envolveu testes realizados a cada duas semanas, independente de sintomas, em trabalhadores da saúde que receberam a vacina da Pfizer e BioNTech. Eles concluíram que a eficácia da vacina na prevenção de uma infecção era de 70% após a primeira dose e 85% após a segunda.

Mas que precauções as pessoas imunizadas devem tomar até que os resultados desses estudos estejam disponíveis? No momento, muitos especialistas acreditam que o que será permitido vai depender em grande medida do número de casos na comunidade circunjacente.

Quanto maior o número de casos, maior a probabilidade de transmissão e a necessidade de mais vacinas eficazes para conter o contágio.

“Se o número de casos cair para zero, não importa se a eficácia é de 70% ou 100%, disse Zoe McLaren, especialista em políticas públicas na universidade de Maryland, referindo-se às vacinas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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