Ilona Szwarc / The New York Times
Ilona Szwarc / The New York Times

Coworking para profissionais de Hollywood: sim, você não leu errado

Roteiristas e produtores dividem espaço comunitário, o Rideback, a fim de acelerar processos criativos

Brooks Barnes, The New York Times

09 de janeiro de 2020 | 06h00

LOS ANGELES — Um enrugado couro de búfalo pende da parede interna do “celeiro", uma sala cavernosa mobiliada com sofás e mesas longas. Uma passagem secreta leva a um antigo saloon do Velho Oeste onde garrafas de uísque enchem as prateleiras e os bancos do bar são selas de verdade. Nas paredes, chifres e espingardas antigas.

Esse é o Rideback Ranch e, sob certos aspectos, o lugar parece um set de filmagem. Mas o complexo, construído há dois anos em uma região de Los Angeles chamada Filipinotown, em processo de gentrificação, é na verdade uma iniciativa de Dan Lin, um dos principais produtores da indústria do entretenimento, na tentativa de encontrar uma nova forma de desenvolver ideias para filmes e programas de TV.

O Rideback é um espaço de trabalho comunitário para roteiristas e produtores de Hollywood. Lin o descreve como “novo tipo de pólo de produção — uma comunidade a serviço da criatividade".

Entre os trabalhos de Lin estão sucessos como Aladdin, It e The Lego Movie. Ele é o produtor responsável por Dois Papas, drama cômico da Netflix a respeito da sucessão no Vaticano, produzido com US$ 40 milhões. 

Lin aposta que o Rideback vai reforçar e acelerar o processo criativo. É uma abordagem de Hollywood para a lógica da WeWork, empresa de compartilhamento de escritórios. Lin disse também ter se inspirado nas sessões de “aceleração cerebral” da Pixar, nas quais diretores e roteiristas criticam informalmente o trabalho uns dos outros, e no livro The Medici Effect (2004), de Frans Johansson, a respeito do início do Renascimento.

“Se reunirmos no mesmo espaço pessoas criativas de diferentes perfis, algo mágico vai acontecer", justificou ele. “Os estúdios de cinema seguiam esse modelo. Ao caminhar pelas instalações, encontrávamos os mais talentosos ali. Mas esses ambientes perderam muito do que os tornava divertidos. Hoje, são lugares de perfil mais corporativo.”

Rideback

Lin tem 15 funcionários seus trabalhando no campus. Outros habitantes do Rideback incluem o roteirista e diretor de Esquadrão Suicida, David Ayer, duas empresas de animação e uma agência literária. Ao todo, cerca de 100 pessoas trabalham no Rideback. O complexo conta com “artistas residentes” como Adam Ward, criador de esculturas feitas de Lego

O Rideback também tem três cursos de desenvolvimento de roteiro. Uma “incubadora" funciona no celeiro e tem patrocínio da MRC, empresa de entretenimento envolvida em produções como Knives Out e Ozark. Cinco roteiristas aspirantes pagaram US$ 200 mil cada por uma residência de seis meses. Eles se ajudam na criação de programas que podem ser oferecidos a redes de TV a cabo e serviços de transmissão via streaming.  “As melhores contribuições vêm de colegas de criação", disse Lin. “Queremos reunir profissionais e ideias para elevar o potencial de ambos.”

Ele apontou para o exemplo de um programa que chama de Rideback Collective. Trata-se de um grupo exclusivo para 25 roteiristas de cinema convidados. Duas vezes ao mês, um integrante apresenta um corte inacabado de um filme ou um roteiro em fase de desenvolvimento para o encontro, e o grupo passa cerca de três horas trocando ideias a respeito do que poderia melhorar.

A roteirista Meg LeFauve, conhecida pelo trabalho nos filmes da Pixar, comanda as atividades da Rideback Collective. “Escrever roteiros pode ser um trabalho muito solitário e individual", pontuou ela. “Saímos de cada sessão entendendo melhor como funciona o cérebro dos grandes contadores de histórias.”

A abordagem comunitária do Rideback vai além do trabalho para Hollywood. Lin conta animado que o Rideback manda roteiristas a uma escola das imediações; eles ajudam crianças de famílias de imigrantes a escreverem peças de teatro. Outro programa espaço gira em torno de um abrigo para mulheres sem-teto e seus filhos.

Lin, de 46 anos, filho de imigrantes taiwaneses, começou a carreira como executivo da Warner Bros e se tornou produtor em 2008. Seus primeiros trabalhos nessa capacidade incluem sucessos, como Sherlock Holmes, e fracassos, como Gangster Squad.

Em 2010, Lin começou a tirar férias na comunidade rural de Bigfork, Montana. Ele disse que foi ali onde ouviu pela primeira vez alguém falar em “rideback". “É um termo dos vaqueiros", explicou. “Quando um deles cai, os outros voltam para garantir que ninguém fique para trás. Cavalgam de volta [“ride back”, em inglês] para ajudar o companheiro.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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