Oriana Koren para The New York Times
Oriana Koren para The New York Times

Cozinhando para fugir dos afazeres

Procrastinadores mostram que a culinária pode ser mais interessante do que finalizar suas obrigações

Julia Moskin, The New York Times

10 Junho 2018 | 11h00

“Procrastiassar" (do inglês “Procrastibaking”: a prática de assar algo completamente desnecessário, com o objetivo de evitar o trabalho “de verdade”) é um hábito surpreendentemente comum que só recentemente ganhou nome.

Estudantes de medicina, romancistas, web designers freelancers: quase todos que trabalham em casa e têm uma assadeira no armário da cozinha podem tentar.

“Comecei a procrastiassar na faculdade, como maneira de me sentir produtiva e evitar os trabalhos do curso", disse Wesley Straton, estudante de pós-graduação de Nova York. “Assar é como dar vazão a uma veia criativa de pouca importância”.

Alguns procrastinadores do forno gostam de se enredar em receitas lentas e demoradas que interrompem o ritmo do dia, voltando para as planilhas ou livros didáticos nos intervalos entre etapas como provar, deixar a massa assentar ou esperar o bolo crescer.

“Meu desperdício de tempo favorito é preparar macarons", disse a autora Jessica Cale.

Procrastiassar também se converteu num hashtag do Instagram, com publicações marcadas com #procrastibaking aparentemente proliferando antes de rituais anuais de ansiedade, como semanas de provas, o dia de entregar o imposto de renda ou o dia das votações.

“A cozinha é muito usada em março e abril", disse Renee Kohlman, autora freelancer de Saskatoon, Saskatchewan (no Canadá, o imposto de renda é entregue até o dia 30 de abril). “Eu sei que deveria estar no escritório, calculando quanto gastei com gasolina, internet e compras no mercado, mas, de alguma maneira, me descubro no balcão da cozinha, às voltas com a medida de farinha e fermento para fazer rolinhos de canela", disse ela.

As práticas mais recomendadas ainda estão em fase de definição, mas qualquer receita que envolva sair da casa para comprar ingredientes foge ao espírito do procrastiassar. Uma saída para compras destrói a fantasia segundo a qual a culinária não é uma interrupção do trabalho. É por isso que receitas como “biscoitos da despensa”, usando quaisquer ingredientes que estejam à mão, são ideais.

A romancista Mia Hopkins, de Los Angeles, disse que procrastiassar é sua maneira de escapar do bloqueio criativo (especialmente as tortas, pois estimulam os sentidos). “Podemos assar um belo bolo sem tocar nada", disse ela. “No caso das tortas, apertamos a massa, fatiamos as frutas, preparamos a crosta", disse ela.

Muitos confeiteiros profissionais também procrastiassam. “Eu me criticava muito por agir assim, mas aprendi a relaxar", contou Erin Gardner, decoradora de bolos de Nova Hampshire. “Acho que é algo que faz parte do meu processo criativo, algo que é melhor aceitar”.

Inventar novas e incríveis maneiras de moldar flores de chocolate e bolos de camadas é um imperativo para Erin, que escreve para o The Cake Blog e, ocasionalmente, participa das acirradas disputas do universo das mostras de bolos.

Quando está procrastiassando, ela se atém a receitas que consegue fazer sem pensar, como biscoitos ou brownies.

“Talvez eu seja como uma atleta profissional", disse ela. “Não podemos simplesmente entrar em campo e dar o melhor de nós. É necessário um aquecimento, alongamentos, um pouco de treino”.

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