Andrea Mantovani para The New York Tiems
Andrea Mantovani para The New York Tiems

Cracolândia no norte de Paris vira inferno para moradores

Autoridades prometeram abrir um “centro de repouso e de saúde” até o fim do ano

Elian Peltier, The New York Times

22 de agosto de 2019 | 06h00

A terra nua, coberta de pó, está repleta de lâminas enferrujadas e cachimbos de crack. O local fede a urina e lixo. Pelo menos três vezes por dia, Charly Roué se dirige para este sórdido bairro de Paris. Depois de pedir comida nos cafés, ele vai para a periferia ao norte da cidade, onde pode comprar cocaína e crack em La Colline, o maior mercado ao ar livre de crack da França.

Muitos usuários de drogas que vêm aqui diariamente “comparam La Colline ao inferno”, disse Roué, 27, que usa drogas desde os 14 anos. “Os moradores que vivem nas proximidades e sofrem com o caos que nós trazemos para cá devem achá-lo um inferno também”. Isto mesmo. Nos últimos anos, La Colline, cerca de dois hectares de terra espremida entre três rodovias, tornou-se o símbolo de uma crise da droga que assola o norte de Paris, enquanto o aburguesamento empurra parte da população mais desesperada da capital para as suas margens mais distantes.

“Tivemos nossa cota de carros incendiados, tráfico de maconha e prostituição”, disse Rafia Bibi, uma tunisiana de 59 anos que mora há 15 anos nesta região. “Mas a violência e a miséria entre os imigrantes e os viciados tornaram o bairro praticamente impossível de se viver”.

Centenas de pessoas vêm todos os dias para La Colline para comprar uma pedra, por 15 euros, cerca de US$ 17. Dezenas de viciados moram ali em barracas improvisadas, misturando-se aos imigrantes sem teto, que também povoam a área. As brigas são diárias. Toda semana, a polícia limpa o lugar e derruba a favela. Mas horas mais tarde, ela volta a surgir.

Emmanuelle Oster, a nova chefe de polícia, disse que fez da luta contra o crack sua prioridade desde que assumiu o cargo em novembro. Calcula-se que de 5 mil a 8,5 mil fumem crack na região de Paris, embora o problema da droga venha sendo ocultado há muito tempo. Explodiu aos olhos do público, disse Oster, quando o recente projeto de construção de novas habitações derrubou antigos imóveis ocupados por sem teto, tornando “um fenômeno invisível, uma situação apocalíptica”.

As autoridades prometeram abrir um “centro de repouso e de saúde” até o fim do ano, no âmbito de um plano de combate ao crack de três anos de duração. Com uma verba de 9 milhões de euros, cerca de US$ 10 milhões, o plano financiou organizações de ajuda e ofereceu opções temporárias de moradia aos usuários. 

Estes provavelmente também poderão fumar crack legalmente no centro, o que seria uma inovação na França. As autoridades afirmam que o bairro irá mudar para melhor e se tornará mais seguro. Entretanto, os moradores continuam revoltados pelo fato de os seus representantes não terem agido mais rapidamente.

“Depois de tudo o que passamos, as autoridades querem permitir que os usuários de drogas fiquem e criam uma sala das drogas bem aqui”, disse Toufik Aouchiche, garçom. “Por acaso, perguntaram para nós o que achamos disso?” Roué, o viciado, não pretende usar o centro. “A única maneira de parar de fumar crack é sair de Paris”, afirmou. “Nós deveríamos ficar longe de La Colline”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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