Nasa/The New York Times
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Quantas crateras lunares receberam nomes de mulheres? Menos do que você imagina

Desenhando o pequeno número de crateras lunares designadas com nomes de mulheres, uma artista espera mostrar as contribuições femininas para as ciências

Katherine Kornei, The New York Times - Life/Style

23 de maio de 2021 | 05h00

A superfície da Lua é marcada por inúmeras crateras, as relíquias de impactos violentos ocorridos ao longo do tempo cósmico. Algumas das maiores são visíveis a olho nu, e um telescópio caseiro revela centenas de outras. Mas basta virar os observatórios astronômicos ou mesmo uma sonda espacial no nosso vizinho celeste mais próximo, e de repente aparecerão milhões.

Bettina Forget, artista e pesquisadora da Concordia University em Montreal, desenha há anos crateras lunares. Forget é uma astrônoma amadora, e a prática combina os seus interesses na arte e na ciência. “Venho de uma família de artistas”, ela explica. “Eu tive de lutar para conseguir um conjunto de aparelhos de química”.

As crateras da Lua recebem nomes segundo a convenção de cientistas, engenheiros e exploradores. Alguns que Forget desenha têm nomes familiares: Newton, Copernicus, Einstein. Mas muitas não. O desenho de crateras com nomes não familiares levou Forget a indagar: Quem eram estas pessoas? E quantas eram mulheres?

“Uma vez que a pergunta entra na sua cabeça, você precisa saber a todo custo”, ela disse.

Forget se debruçou sobre os registros da União Astronômica Internacional, a organização encarregada de atribuir os nomes às crateras e a outras características nos mundos que se encontram no sistema solar. E começou a sublinhar as crateras que têm nomes femininos.

“Não houve muito para sublinhar”, disse Forget.

Das 1.578 crateras da Lua que receberam nomes até aquele momento , só 32 honraram mulheres. (A 33ª foi nomeada em fevereiro).

“Eu não esperava 50%. Eu não sou tão otimista”, ela disse: “Mas 2%? Fiquei realmente chocada”.

Ter tão poucas crateras lunares com nomes femininos emite uma mensagem de peso, ela disse. “Isto cria uma atmosfera em que você acha que as mulheres não estão contribuindo”.

Em 2016, Forget embarcou em um projeto chamado “Women With Impact” (Mulheres de impacto), desenhando cada cratera com o nome de uma mulher. Ela desenha em um grande álbum usando grafite para detalhar e tinta acrílica preta. E capta a semelhança das crateras do lado visível da Terra, como Cannon e Mitchell, homônimos de mulheres astrônomas dos séculos 19 e 20, observando-as com o seu telescópio de oito polegadas. Para as crateras como Resnik e Chawla, ambas com o nome de astronautas mulheres e localizadas no lado distante da Lua, que não é visível da Terra, ela baseia os seus desenhos em imagens tiradas pelo Observatório de Reconhecimento Lunar da Nasa.

Forget completou até o momento todos os 32 desenhos. As peças, todas emolduradas individualmente, exibidas em uma galeria de arte da Bishop’s University em Sherbrooke, Quebec, e no Rio Tinto Alcan Planetarium de Montreal. “Women With Impact”, destinam-se a denunciar a escassa representação das mulheres nos campos da ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês), explicou Forget. “Uma cratera é uma ausência de matéria, um vazio. Este é um paralelo com um vazio de mulheres no STEM”.

 

Trabalhar com crateras em duas dimensões levou Forget a acrescentar uma terceira. “Gostei desta ideia de ter uma cratera da Lua na minha mão”, afirmou. Em 2019, ela começou com modelos de impressão em 3D, de cada cratera apresentada em “Women With Impact”. Forget agora está criando uma versão invertida de cada uma, essencialmente um carimbo que conserva o formato da cratera.

Forget está experimentando com diferentes maneiras de afixar os carimbos às solas dos sapatos. Ela pretende enviar os carimbos a cientistas mulheres do mundo todo e pedir que elas gravem as suas experiências criando suas próprias crateras em um projeto chamado “One Small Step” (Um pequeno passo). Como diretora do programa SETI Institute’s Artists in Residence, Forget pretende buscar inicialmente mulheres cuja obra versa sobre a astrobiologia e os exoplanetas.

É importante celebrar as contribuições de cientistas vivas, disse Forget. “A série ‘Women With Impact’ homenageia mulheres históricas e mulheres de destaque que neste momento são ativas nos campos do STEM”, afirmou.

Ao passo que mais crateras sejam batizados com nomes femininos na Lua, Forget planeja ciar desenhos adicionais, modelos em 3D e carimbos. Ela já tem trabalho para fazer neste sentido – uma cratera, Easley, foi batizada em fevereiro com o nome da cientistas em computação Annie Easley.

Catherine Neish, cientista planetária da Universidade de Ontario Ocidental, propôs o nome Easley à União Astronômica Internacional em janeiro. (Seu marido pediu para considerar não apenas o nome de uma mulher, mas também o nome de uma mulher não branca.) Neish propôs com sucesso as crateras Pierazzo e Tharp em 2015, de Elisabetta Pierazzo e Marie Tharp. Ela sabia que há apenas uma pequena fração de crateras lunares que homenageiam mulheres. “Eu estava determinada a, aos poucos, mudar este número”, ela disse.

Neish já tem outro nome em mente para uma cratera da Lua. “Poucas pessoas podem dar nomes às crateras porque elas não têm uma razão científica válida para fazê-lo” afirmou. “Quero usar o meu privilégio para reconhecer algumas destas mulheres que vieram antes de mim”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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