Kim Raff / The New York Times
Kim Raff / The New York Times

Creche online? Pais recorrem à alternativa devido à lotação dos espaços 

Curso na internet oferece a crianças de 4 anos aulas com cantigas infantis; especialistas criticam falta de interação humana 

Adrienne Harris, The New York Times

13 de julho de 2019 | 06h00

A substância gosmenta conhecida como slime, feita a partir de materiais encontrados facilmente em casa, pode proporcionar um bem-vindo alívio para quem passa muito tempo online. David Cardenas, prefeito de Fowler, Califórnia, sabe que os moradores da cidade querem creches de alta qualidade, gratuitas e em período integral. Mas há poucas opções. O programa subsidiado pelo governo logo fica lotado. E as creches particulares são inacessíveis para a maioria dos 6.500 moradores de Fowler, comunidade formada principalmente por latinos que trabalham nos campos da região de Central Valley.

Assim, Cardenas apresentou recentemente na internet um “curso de preparo para o jardim da infância” para crianças de 4 anos. Batizado de Waterford Upstart, a proposta é que as crianças passem 15 minutos por dia, cinco dias por semana durante nove meses recebendo aulas com cantigas infantis e sons de letras. Muitos especialistas em pedagogia infantil recusam a ideia de uma creche online, o que não surpreende. 

Steve Barnett, especialista em ensino pré-escolar da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, disse que um bom curso pré-escolar desenvolve as capacidades sociais e emocionais de uma criança, além de transmitir noções como a de pensar antes de agir. “Nada disso pode ser feito na internet", afirmou.

Mas os defensores da proposta e os envolvidos com o Waterford dizem que sua alternativa é melhor do que nada. Para pais e mães como Toni Butler, que cria sozinha os quatro filhos em Indiana e não tem como pagar US$ 164 por semana pela creche, o Waterford foi uma revelação. O filho dela concluiu o curso esse mês. “Todas as aulas eram animadas, tornando tudo engraçado e interessante e retendo a atenção dele", compartilhou Toni.

O curso traz a questão de quem tem direito à interação humana, algo que está se tornando um fator que separa ricos e pobres. Alguns pais mais ricos tentam criar os filhos sem celulares ou tablets, e contratam profissionais para orientá-los. Para atender a essa demanda, surgiu uma indústria da consultoria da vida sem telas.

Rhonda Moskowitz, coach de criação de filhos em Columbus, Ohio, disse que suas alternativas são bastante simples. Entre as sugestões: “Você teria em casa algum material velho que possa ser usado como capa? Ótimo!”. “Tem algum tipo de bola em casa? Jogue a bola", sugeriu. “Chute a bola”.

Alternativas 

Outras sugestões de coaches de criação de filhos, que cobram até US$ 250 por hora em grupos de oito a doze sessões, incluem pular corda, pintar ou adotar um cachorro. Outra solução é o slime, uma substância popular entre as crianças feita a partir de materiais encontrados no lar - detergente, cola. Ainda que essa bolha seja uma estrela da internet visual, ela pede para ser tocada, esticada, esmagada e torcida. O slime é inspirado pelas imagens na tela, mas é também uma fuga delas - não se pode mexer no celular quando as mãos estão cobertas de cola.

Anaiya Shirodkar e Lily Lokoff, que estudam no sexto ano na Filadélfia, misturam grandes quantidades da substância como passatempo e vendem porções menores na calçada.  Mas brincar com o slime simplesmente transmite uma sensação boa. Indagadas a respeito de como descreveriam a sensação causada pelo slime, Anaiya e Lily responderam: “gratificante".

O slime pode ser a redenção da internet pelos fatores estressantes criados por ela, uma espécie de detox. “Não podemos ser máquinas", disse a também coach de criação de filhos Gloria DeGaetano, de Seattle. “Estamos pensando como máquinas porque vivemos em uma sociedade mecânica. Não podemos criar filhos de maneira otimizada a partir de princípios aplicando uma mentalidade mecânica”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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