Chad Blakley/Lightsoverlapland
Chad Blakley/Lightsoverlapland

Cresce procura por viagens para apreciar a aurora boreal

Fenômeno natural tem atraído visitantes ao Alasca e a países como Noruega e Suécia

Ingrid K. Williams, The New York Times

03 de março de 2019 | 06h00

Numa noite de tempo limpo em janeiro, no norte da Suécia, depois de passar horas apertando os olhos e imaginando se alguma daquelas pequenas nuvens poderia ser a aurora boreal, uma faixa verde reluzente e alienígena se estendeu pelo céu. Aqui, nas margens do congelado Rio Torne, perto do vilarejo de Kurravaara, não se ouvia as misteriosas palmas e estalos registrados por cientistas finlandeses acompanhando o espetáculo conhecido como aurora boreal. Em vez disso, o único som eram os gritinhos de alegria de um casal de Xangai que saiu saltitante do chalé, filmando tudo com a câmera do celular Huawei.

Embora a era digital encurte nossa capacidade de concentração, a aurora boreal ainda exige presença e paciência, uma jornada até distantes latitudes do extremo norte e a resistência física para suportar as condições polares. Apesar desses desafios, imagens em cores fortes da aurora boreal vistas nas redes sociais e revistas de turismo continuam a inspirar um número cada vez maior de viajantes.

“A aurora boreal se tornou uma atração imperdível", disse Arne Bergh, proprietário e diretor de criação do Icehotel, em Kiruna, Suécia, onde a cada inverno turistas chegam na esperança de serem contemplados com o fenômeno que ele descreveu como “fogos de artifício da natureza” antes de se recolherem nos aposentos com temperaturas congelantes.

No Alasca, o número de visitantes no inverno passado ultrapassou a marca de 320 mil, alta de 33% em relação a dez anos antes, de acordo com a Associação da Indústria do Turismo do Alasca. Para a associação, a aurora boreal é a grande responsável por esse aumento na procura. 

Nos Territórios do Noroeste, Canadá, a remota capital de Yellowknife tem se apresentado como um dos melhores destinos para os interessados em ver a aurora boreal, especialmente entre os turistas da Ásia. De acordo com um relatório do governo dos territórios, o número de turistas interessados em ver a aurora boreal aumentou mais de quatro vezes nos seis anos mais recentes.

De acordo com estimativa do relatório do governo, esses turistas gastaram mais de US$ 40 milhões na temporada passada. O interesse no turismo em torno da aurora boreal incentivou a construção de uma infraestrutura turística aprimorada no norte da Rússia, Finlândia, Suécia, Noruega, Islândia e Groenlândia.

“É muito difícil relatar o profundo impacto emocional que o fenômeno provoca", disse Trond Trondsen, especialista em aurora boreal de Calgary. “Eu as descreveria como luzes dançantes no céu. Elas têm uma espécie de ritmo. Têm uma coloração distinta. É como uma música celestial em forma de luz.”

Trondsen explicou que, conforme o campo magnético do sol se torna mais forte ou mais fraco, isso produz uma instabilidade, resultando em erupções solares e no que chamamos de ejeção de massa coronal. “Basicamente, o sol cospe uma parte de si no espaço", disse ele. “Estamos falando de partículas - elétrons, e também uma parte do seu próprio campo magnético.”

Algumas dessas partículas chegam à Terra, onde o campo magnético as acaba atraindo para os pólos Norte e Sul, trazendo-as para a atmosfera. “A aurora boreal surge quando esses elétrons atingem a atmosfera", prosseguiu Trondsen. O pesquisador Urban Braendstroem, que estuda a aurora boreal no Instituto Sueco de Física Espacial, em Kiruna, disse que Abisko, com o maior número de noites de tempo limpo na Suécia, é um ótimo lugar para se ver a aurora boreal. Abisko é um vilarejo localizado 200 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico, com uma população que varia em torno de 125 pessoas.

Chad e Linnea Blakley chegaram a Abisko em 2008 para trabalhar na pousada local, STF Abisko Fjallstation. Blakley começou a fotografar a aurora boreal e reuniu muitos seguidores online com suas imagens dramáticas. Em 2010, o casal fundou a empresa Lights over Lapland, dedicada ao turismo fotográfico, e agora contam com 21 funcionários em Abisko. Em 2017, a pousada contabilizou 30 mil diárias de visitantes estrangeiros.

“Em dez anos, passamos de um lugar esquecido sem nenhuma infraestrutura de turismo a um dos destinos mais procurados para ver a aurora boreal", disse ele. Todos os operadores de companhias de turismo dizem que seu local é o melhor para ver a aurora boreal, e o guia Torsten Aslaksen, de Tromso, Noruega, não é diferente.

Ele destaca a proximidade de Tromso ao pólo magnético, sua infraestrutura consolidada e a paisagem variada. “Quando temos nebulosidade no litoral, basta viajar de carro para encontrar céu limpo no interior", disse ele. Então, basta esperar o início do espetáculo cósmico. “A luz pode ser tão brilhante a ponto de formar sombras no chão", disse ele.

Mas, em geral, os tipos mais brilhantes e intensos de aurora boreal se tornaram menos comuns agora. “O sol tem um ciclo de maior e menor atividade que dura aproximadamente 11 anos", disse Trondsen. “E, no momento, estamos numa curva de atividade decrescente.”

Mas isso não significa que os turistas devem adiar sua viagem até o auge do ciclo solar, que não deve ocorrer tão cedo. “Enquanto isso, temos as ejeções de massa coronal, temos as erupções solares, e isso garante que a aurora boreal será visível", disse ele, “ainda que menos frequentemente". “Mas espero que, daqui quatro ou cinco anos, o espetáculo seja inesquecível", acrescentou ele. “Vamos manter os dedos cruzados.”

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