Ian Willms para The New York Times
Ian Willms para The New York Times

Crescem as esperanças para a cura da hemofilia

Breves perfusões intravenosas podem substituir uma vida inteira de injeções

Gina Kolata, The New York Times

28 Agosto 2018 | 10h15

Os cientistas estão perto de derrotar uma inimiga de longa data da saúde do ser humano: a hemofilia, a incapacidade de formar coágulos sanguíneos.

Depois de tentarem por dezenas de anos criar uma terapia genética para tratar esta doença, os pesquisadores começam a ter algum sucesso. Nas experiências mais recentes, breves perfusões intravenosas de novos tratamentos livraram os pacientes, pelo menos por enquanto, de uma enfermidade que é uma sombra ameaçadora em sua vida. 

Porém, não faltaram problemas: uma companhia de biotecnologia informou recentemente que a terapia genética parou de funcionar em dois dos 12 pacientes submetidos a um teste. Mas novos tratamentos deverão surgir dentro de alguns anos.

Ninguém pode afirmar ainda que a hemofilia será curada. Atualmente, a terapia genética, que utiliza um vírus para levar um novo gene até as células, só pode ser usada uma vez. Se ela parar de funcionar, os pacientes perderão os benefícios.

Há 20 mil hemofílicos nos Estados Unidos, e cerca de 185 mil no mundo todo, que carecem de uma das duas proteínas necessárias para o sangue coagular. Trata-se de uma doença genética, e o gene da coagulação do sangue se encontra no cromossomo X. Praticamente todos os pacientes com hemofilia são homens.

Os mais afetados precisam injetar a cada dois dias as proteínas que estão faltando, o fator de coagulação VIII ou o fator IX. Mesmo com injeções regulares, eles correm o risco de sofrer hemorragias incontroláveis em um músculo ou uma articulação, ou mesmo no cérebro. 

Os hemofílicos muitas vezes aprendem desde crianças a evitar os esportes. Muitos se mudam para as cidades para ter acesso mais fácil ao tratamento. Mudam até de emprego a fim de obter o seguro saúde necessário para cobrir as despesas médicas de hospitalização e cirurgias, além de uma média de US$ 250 mil a US$ 300 mil para as proteínas da coagulação. (Somente as injeções podem custar US$ 1 milhão ao ano.)

Apesar da vigilância, as pessoas com hemofilia grave poderão apresentar danos permanentes nas articulações por causa dos sangramentos. A maioria vive com dores crônicas. Os pacientes mais velhos têm uma complicação maior. As proteínas que favorecem a coagulação usadas nos anos 80 estavam contaminadas com HIV e hepatite C, então quase todos os pacientes com hemofilia foram infectados.

O objetivo da terapia genética é reduzir ou eliminar a necessidade de injeções dos pacientes e diminuir os sangramentos. O gene a ser introduzido depende da possibilidade de o paciente ter hemofilia tipo A, causada por uma mutação do gene do fator VIII, ou hemofilia tipo B, causada por uma mutação do gene do fator de coagulação IX. A hemofilia A é a mais comum.

Várias companhias de biotecnologia trabalham sem cessar para colocar as terapias no mercado. A Spark Therapeutics, com a terapia genética para a hemofilia B, e a BioMarin, com um tratamento semelhante para a hemofilia A, estão começando grandes testes clínicos em sua fase final.

Os pacientes do teste para a hemofilia A, da BioMarin, tinham em média níveis normais ou acima do normal do fator VIII no sangue, mas, no segundo ano, estes níveis caíram para uma média de 46%. Os pacientes do teste da hemofilia B da Spark só alcançaram em média 35% dos níveis normais do fator IX no sangue. Mas estes níveis, suficientes para a coagulação, permaneceram estáveis por dois anos.

A hemofilia parecia ideal para a terapia genética. Os níveis normais de proteínas de coagulação no sangue variam consideravelmente, e a terapia não precisaria de muito para ser eficiente. Além disso, os pesquisadores sabiam exatamente quais genes deveriam introduzir nos pacientes. Mas o primeiro resultado positivo só foi alcançado há poucos anos por cientistas do University College de Londres e do St. Jude Children’s Research Hospital, sediado em Memphis, Tennessee.

Eles trataram dez pacientes com hemofilia B e conseguiram aumentar os seus níveis sanguíneos do fator IX de 2% a 6% do normal.

Então os cientistas descobriram um homem em Pádua, na Itália, que tinha uma mutação genética que  fazia com que as células produzissem 12 vezes a quantidade normal do fator IX. Eles perceberam que poderiam introduzir o gene da mutação em um vírus e inseri-lo nas células de pacientes com hemofilia B. A vantagem foi que não precisariam usar muito vírus, de modo que o sistema imunológico teria menos probabilidade de atacar.

Bill Konduros, 59, proprietário de uma oficina em Mississauga, Ontário, e seu irmão, Jay Konduros, 54, padeiro, de Cambridge, Ontário, imaginavam que a hemofilia seria “uma coisa que deveriam suportar a vida toda”, disse Jay. Então decidiram ingressar no grupo de teste da Spark da hemofilia B.

Jay Konduros se submeteu a uma perfusão de meia hora. Agora os níveis do fator IX em seu sangue estão por volta de 50%. Bill, que também participou do teste, apresenta níveis próximos de 75%. Nenhum dos dois precisou do fator IX desde a sua terapia genética.

Um dia, em maio último, Jay caiu. Na queda, bateu fortemente ambos os pulsos no cimento, e machucou o lado esquerdo da coxa, já danificada com sangramentos anteriores. Ele previu um desastre. Naquela noite, fez um exame cuidadoso do corpo. Aparentemente, não apresentava nenhum hematoma. Esperou três dias para falar com o irmão e contar a ele que agora era um homem normal que sofrera uma queda insignificante.

“A gente ouve falar muito de milagres ou coisas milagrosas”, disse Bill. “Acho que posso dizer que tudo isto é verdade”.

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