Alyssa Schuka / The New York Times
Alyssa Schuka / The New York Times

Crescendo em uma cidade dilacerada pelo abuso de drogas

Após cerca de 400 mil mortes por overdose, gerações estão presas em um interminável ciclo de vício, reabilitação e detenção

Dan Levin, The New York Times

28 de junho de 2019 | 06h00

PORTSMOUTH, OHIO - Voltando para casa depois de passar três semanas desaparecida, a mãe de Layla Kegg se diz farta da heroína, anuncia estar pronta para a reabilitação e quer fazer parte da vida da filha. Mas Layla já ouviu tudo isso antes, e não acredita em uma só palavra.

Nada resta da confiança de Layla depois de acompanhar durante anos os ciclos de reabilitação e recaída da mãe. E, agora, a mais recente descoberta: “Encontrei uma agulha na sua bolsa outro dia", lembrou Layla, sentada à mesa da cozinha da avó. “E Mamaw encontrou outras duas na secadora”. Uma pausa, seguida por uma enxurrada de desculpas da mãe. Layla, de 17 anos, ergue os olhos e suspira. Cinco dias mais tarde, a mãe de Layla, Nikki Horr, desaparece novamente. 

Mais de 20 anos após o lançamento do OxyContin - e depois de quase 400 mil mortes por overdose de opioides - uma geração está crescendo em meio a uma epidemia histórica: filhos de famílias presas em um interminável ciclo de vício, reabilitação e detenção.

No Condado de Scioto, no extremo sul de Ohio, onde todos parecem conhecer alguém que luta contra a dependência, 51 pessoas morreram de overdose em 2017. Em uma escola, os administradores disseram que quatro alunos do jardim da infância perderam os pais por causa das drogas, e outro em um homicídio ligado às drogas.

Quase duas dúzias de jovens de todo o condado descreveram vidas caóticas em lares repletos e abusos e abandono. Relataram ter implorado aos pais (que frequentemente gastavam mais na próxima dose do que em comida) para que deixassem de usar drogas. E descreveram ocasiões em que encontraram parentes desmaiados ou espumando pela boca após uma overdose.

Sob muitos aspectos, a escola Portsmouth High é como um lar para muitos desses estudantes. É ali que tomam o café da manhã e almoçam, e salas de aula modernas e laboratórios de informática convivem com o notável contraste da lavanderia. Com frequência, muitos estudantes aparecem vestindo as mesmas roupas sujas por dias seguidos, e as prateleiras oferecem peças limpas, além de shampoo, sabonete e desodorante.

Mas alguns dos adolescentes voltam a usar as próprias roupas antes de voltarem para casa, “pois os pais tomam as roupas novas e as vendem para comprar drogas", alertou Drew Applegate, diretor-assistente.

“Não estamos em um país de terceiro mundo, mas alguns desses jovens vivem em condições de terceiro mundo", comparou.

Como muitas cidades americanas dilaceradas pelos opioides, Portsmouth já foi uma potência econômica. Há quase um século, a cidade abrigava prósperas indústrias de sapatos, siderúrgicas e uma equipe de futebol americano profissional. Partes da cidade são bem organizadas e cuidadas, mas a maioria das áreas de Portsmouth está abandonada. O centro está repleto de edifícios de tijolos desocupados, com as janelas fechadas com tábuas.

No Condado de Scioto, há muito considerado o marco zero da epidemia de opioides em Ohio, quase 9,7 milhões de comprimidos foram receitados em 2010 - o suficiente para distribuir 123 a cada morador, de acordo com as estatísticas oficiais. Conforme o número de receitas de opioides diminuiu, muitos usuários de drogas migraram para a heroína e o fentanyl.

Terríveis histórias de jovens e crianças vivendo em meio ao vício são narradas durante sessões de terapia nas escolas ou nas conversas com o técnico de basquete. Em uma tarde recente, Christian Robinson, de 18 anos, que espera entrar para os Fuzileiros Navais depois de se formar, disse que a mãe entrou na reabilitação quando ele tinha 11 anos, mas teve uma recaída no ano passado, usando heroína e metanfetamina. Hoje ela vive a várias horas de distância. “Mamãe disse que nem mesmo nós, seus filhos, éramos motivo suficiente para ficar sóbria", lamentou Christian. Ele disse que uma de suas irmãs nasceu viciada em crack, e um irmão nasceu dependente de Oxycodone.

Mais da metade dos membros da equipe de beisebol da escola Portsmouth High tem algum parente próximo que usa drogas, e muitos vivem com os avós ou os vizinhos, disse Kristen Bradshaw, técnica do time, que frequentemente oferece o café da manhã antes das partidas no fim de semana.

Kristen ficou maravilhada com a força interior de Layla e sua capacidade de concentração em campo. Mas, ultimamente, com a família ausente e sem ninguém para levá-la aos jogos, o estresse foi demais para Layla, disse Kristen.

Layla vive com a avó (o pai saiu de cena faz tempo). Além de ser uma das melhores rebatedoras do time de beisebol, ela também joga no time de basquete da escola. Sonha em se tornar enfermeira, e conseguiu manter média ponderada de 3,8 na escola (o máximo é 4).

Quase uma semana depois de desaparecer, Nikki enviou a Layla uma mensagem de texto durante a aula de matemática. A jovem implorou a ela que voltasse para casa e se internasse na reabilitação. A mãe não aceitou, dizendo que estava sóbria, mas passaria algum tempo longe. “Quero deixar de existir", escreveu. “Você é doente e não consegue admitir", respondeu a filha. “Procure ajuda e volte a ser minha mãe". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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