David Gray/Reuters
David Gray/Reuters

Crescente influência da China representa desafio para a Austrália

Governo chinês tem se envolvido diretamente em atividades políticas do país australiano para conquistar apoio em pautas comerciais e impulsionar sua posição geopolítica

Damien Cave, The New York Times

29 de junho de 2019 | 06h00

SYDNEY, AUSTRÁLIA - Em uma sala de reuniões decorada com cortinas douradas em Sydney, o cônsul-geral da China fez um apelo a um público de aproximadamente 100 pessoas, todas elas moradoras da Austrália e cidadãs de antepassados chineses. Ele pediu ao grupo que ajudasse a moldar a opinião pública durante a futura visita do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, ao denunciar os críticos ao consulado. Comícios de apoio à China deveriam ser organizados com cartazes de apoio bloqueando as imagens de protestos contra Pequim.

“Não somos soldados, mas essa tarefa é um pouco do tipo que se pede aos soldados", disse o diplomata, Gu Xiaojie, de acordo com um registro do encontro obtido pelo New York Times e confirmado por uma testemunha. “Trata-se de uma guerra com muitas batalhas", destacou.

A reunião, realizada extraoficialmente em março de 2017, é um exemplo de como o governo chinês se envolve diretamente - e, com frequência, secretamente - em atividades políticas na Austrália, fazendo do país um laboratório para testar até que ponto os chineses conseguem manobrar o debate e influenciar a política em um parceiro comercial democrático.

Trata-se de uma campanha calculada diferente de qualquer outra que a Austrália já tenha enfrentado - aproveitando-se da abertura do país, da crescente população de ascendência chinesa e dos laços econômicos com a China -, suscitando um debate a respeito de como a Austrália deveria responder. 

Em outros lugares, a China foi acusada de destinar recursos às campanhas dos candidatos de sua preferência na Malásia e no Sri Lanka. Nos Estados Unidos, os esforços de Pequim para sufocar a dissidência nos campi universitários despertou preocupação. E, na Europa, organizações ligadas ao Partido Comunista que governa a China realizaram eventos para líderes políticos e doaram milhões de dólares a universidades.

A China antes buscava difundir a revolução marxista pelo mundo, mas sua meta é hoje mais sutil: conquistar o apoio a uma pauta de comércio e relações estrangeiras cujo objetivo é impulsionar sua posição geopolítica e manter seu monopólio do poder doméstico. Os contornos desse manual de operações são especialmente visíveis na Austrália, onde o comércio com a China produziu o mais longo período de prosperidade do mundo. As agências australianas de espionagem alertaram para os esforços de Pequim, e o assunto promete muita dor de cabeça para o conservador primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, eleito em maio.

Representantes de Pequim fazem lobby junto a políticos australianos atrás de portas fechadas ameaçando com castigos econômicos e convencendo líderes acadêmicos e empresariais australianos a entregar seu recado. Pequim buscou melhorar a própria imagem na mídia jornalística australiana ao processar jornalistas por difamação, financiando institutos de pesquisa e usando anunciantes para pressionar os veículos em mandarim.

Pequim chegou até a promover candidatos políticos na Austrália usando esses veículos de comunicação, recorrendo também ao Departamento de Trabalho Frente Unida, braço do Partido Comunista para lidar com chineses no exterior, e com contribuições de campanha feitas por intermediários.

A Austrália deve agora decidir o que fazer em um momento em que o público está dividido. Muitos australianos temem, mas defendem as boas relações para a manutenção do crescimento econômico e da estabilidade regional, principalmente porque a China responde por 24% das importações e exportações australianas.

Essa dependência é acompanhada por uma ameaça velada: a China pode levar seu dinheiro a outro mercado. Empresas australianas ligadas à China pressionam políticos sem supervisão do público. “Em nenhum outro país vemos um abismo maior entre a comunidade empresarial e a segurança", comparoue Linda Jakobson, do grupo China Matters, de Sydney.

Para os críticos, a China explorou essa cisão e tentou usar sua influência econômica para castigar a Austrália pela adoção de uma nova lei exigindo que aqueles trabalhando em nome de uma “pessoa ou entidade estrangeira" cadastrassem suas atividades.

Em junho passado, os vinicultores australianos disseram enfrentar problemas nas suas exportações para a China, e um grande acordo para expandir a exportação de carne congelada para a China - negociado durante a visita de Li - empacou. Em janeiro e fevereiro, o país também atrasou a importação do carvão vindo da Austrália em alguns portos. Pequim negou os esforços para castigar a Austrália, e políticos australianos fizeram pouco dessas disputas.

Em 2009, o governo australiano rejeitou a proposta de uma firma chinesa para a compra de 18% da Rio Tinto, gigante anglo-australiana da mineração, depois de as autoridades argumentarem que isso daria a China poder demais para definir os preços. Os investidores e as autoridades chinesas “pressionam os executivos australianos relevantes", afirmou Kevin Rudd, que era primeiro-ministro na época. “Naquele ponto, o plano era maximizar a pressão do lobby empresarial contra o governo”. Um líder empresarial presente na reunião do consulado em 2017 disse: “Não somos mais o homem doente da Ásia Oriental. Nós, chineses, temos orgulho"./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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