Stephen Speranza para The New York Times
Stephen Speranza para The New York Times

Criadores de arrepios misturam teatro e terapia

Um novo tipo de experiência sensorial começa a atrair multidões ao Whisperlodge, em Nova York

Andrea Marks, The New York Times

15 Março 2018 | 10h00

Se a ideia é fazer alguém se arrepiar, os pincéis são a melhor ferramenta. Uma apresentação recente do Whisperlodge começa num cômodo nova-iorquino pouco iluminado, onde um homem e uma mulher vestidos de branco arrastam grossos pincéis de maquiagem em lentos movimentos circulares nas costas nuas de uma mulher. Acordes de sintetizador soam dos falantes enquanto os quatro membros da plateia assistem de poltronas ou de um confortável sofá.

Os envolvidos, então, conduziram os participantes para cômodos privados para experiências sensoriais individuais durante a apresentação de 90 minutos. As cenas incluem sentar-se à mesa enquanto alguém amassa papel perto do nosso ouvido, visitar um "consultório médico", receber carícias no rosto com pincéis de maquiagem, e um encontro de arrepiar os cabelos.

O Whisperlodge é uma mistura de teatro e terapia. Em intervalos de alguns meses, os membros do público comparecem e pagam entre US$ 90 e US$ 120 para vivenciar cenas pensadas para despertar a resposta autônoma do meridiano sensorial, mais conhecida como ASMR, um fenômeno que ganhou popularidade súbita em razão de determinados sons e toques suaves que fazem as pessoas sentirem arrepios relaxantes na base do crânio.

A ASMR é buscada por muitas pessoas na internet, onde centenas de milhares de fãs assistem a vídeos de pessoas desempenhando atividades relaxantes para ajudá-las a dormir, relaxar ou diminuir a ansiedade. O Whisperlodge, fundado pela artista Melinda Lauw, 25 anos, e por Andrew Hoepfner, 35 anos, que cria teatro de imersão, começa a atrair multidões, recebendo o público em sessões para poucos. 

O grupo diz que se esgotaram os ingressos de todas as 16 apresentações feitas desde o lançamento em Nova York, em 2016, incluindo seis eventos na Califórnia e algumas sessões de "sussurros sob demanda", que mais parecem o tratamento de um spa do que uma performance, para as quais as pessoas pagam US$ 150, e para sessões individuais personalizadas. Os criadores esperam levar seu trabalho para o exterior.

Depois que o termo ASMR se tornou mais popular, os fãs criaram canais no YouTube dedicados a despertar essa sensação. Os principais canais do YouTube atraem mais de um milhão de assinantes.

Craig Richard, fisiólogo da Universidade Shenandoah, na Virgínia, compara o comportamento nos vídeos de ASMR ao dos pais que confortam filhos pequenos: uma voz calma e um olhar terno.

O vídeo enquanto suporte para a ASMR pode ser procurado por aqueles que sofrem de ansiedade porque o espectador retém o controle total. "O desconhecido que está no vídeo não pode nos fazer mal", disse Richard.

Para aqueles que não sentem os arrepios, a prática pode parecer bizarra. Mas não se trata de uma alucinação dos aficionados. "É totalmente real", disse o psicólogo Stephen Smith, da Universidade de Winnipeg, que usou máquinas de fMRI para analisar o cérebro de pessoas que têm a sensação. Nas pessoas que sentem a ASMR, Smith encontrou redes neurais que se ativam de maneira diferente em relação à população em geral.

"Isso parece afetar muitas pessoas diferentes", disse. "Mas, na grande maioria dos casos, o efeito é positivo".

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