Jim Lo Scalzo/EPA, via Shutterstock
Jim Lo Scalzo/EPA, via Shutterstock

Excesso de cuidado pelos filhos pode causar baixa autoestima

'Temo que as crianças nunca venham a conhecer a magia de lugares selvagens sem um adulto atrás delas', afirma Cressida Cowell, escritora de 'Como treinar seu dragão'

Tom Brady, The New York Times

16 de fevereiro de 2020 | 06h00

Um administrador do Barnard College em Nova York recebe muitos telefonemas dos pais que “normalmente não telefonariam”, mas precisam fazê-lo porque suas filhas não se saem muito bem na autodefesa. “Estranhamente á verdade”, escreveu no jornal The Times Natalie Friedman, a diretora da área de envolvimento das famílias na escola de elite para meninas. “Os pais e os tutores que me contam isto impedem, sem saber, que as filhas tratem dos próprios assuntos”.

Os pais que querem ajudar podem encorajar as filhas a aproveitarem dos recursos do campus, ou ajudá-las a escrever um “roteiro” se estão ansiosas por terem de falar com um professor. No entanto, às vezes as coisas não funcionam. “Lembrem a elas que isto não é ruim”, indicou Friedman. “A rejeição faz parte da vida”.

Cressida Cowell aprendeu a ser independente bem cedo. Ela descreve a sua infância como “gloriosamente selvagem”, quando visitou uma ilha desabitada ao largo da Escócia com a família. Ela lembra de muitas experiências excitantes, mas assustadoras. “Houve um momento em que meu pai amarrou por acidente o barco a um tambor cheio de lagostas em lugar de uma boia e nós fomos parar em alto mar”, lembrou. “Houve uma viagem em plena tempestade em que as ondas  pareciam montanhas e nós tivemos de tirar a água do barco com baldes”.

Como não havia eletricidade, telefone ou televisão, ela passou muito tempo desenhando e escrevendo contos. Seu pai contou dos vikings que invadiram a ilha 1.200 anos antes, das temíveis tribos britânicas e de dragões que habitavam as cavernas dos rochedos da ilha. Mais tarde, Cressida Cowell transformou todas estas histórias em Como treinar seu dragão, que em 2010 virou um filme de ação fantástico da DreamWorks.

Hoje em dia, as crianças passam muito menos tempo por conta própria. “Temo que elas nunca venham a conhecer a magia de lugares selvagens, o poder das árvores e a excitante sensação de explorar a natureza sem um adulto atrás delas”, afirmou Cowell.

Lydia Denworth se sentiu inspirada a modificar o seu estilo protetor depois de observar os animais selvagens em Porto Rico. Quando ela observou os macacos-rhesus socializando, sentados juntinhos, uns cuidando da higiene do outros, reciprocamente, ela se deu conta de que esta era uma maneira de eles fortalecerem os laços. Os pesquisadores descobriram que os macacos com laços mais fortes têm mais filhos, filhos mais saudáveis, e vivem mais.

Quando Lydia Densworth voltou para casa, ficou aborrecida ao encontrar o filho adolescente sentado no sofá jogando vídeo games com um amigo. “E então me dei conta: eles estavam sentados muito perto e fazendo o equivalente aos cuidados com a higiene – rindo e conversando, fortalecendo os seus laços”, comparou.

As noites de pijama, que a apavoravam, não são mais proibidas. Quando seu filho de 16 anos convida colegas para dormirem em casa, é uma das poucas chances que ele tem de  não cronometrar o seu tempo nestes tempos peripatéticos. “Meu filho ficará cansado no dia seguinte, mas ele e os seus amigos terão satisfeito seu desejo de ficar juntos, terão investido algum tempo na sua amizade, e terão se divertido”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
criança

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.