Andrew Oberstadt/IRC
Andrew Oberstadt/IRC

Crianças e adolescentes detidos encontram refúgio na arte

As obras dos jovens integram a exposição 'Uncaged Art: Tornillo Children’s Detention Camp', montada em museu da Universidade do Texas

Patricia Leigh Brown, The New York Times

26 de julho de 2019 | 06h00

EL PASO, TEXAS - Geralmente, os jovens imigrantes chegavam à noite. Eram adolescentes da América Central e do Sul, trazidos por agentes da fronteira até o Centro de Detenção Tornillo, no Texas, e conduzidos a fileiras de beliches de metal em barracas militares cercadas por arame farpado. Era raro sentir o toque humano dentro dessa cidade de segurança máxima, onde quase três mil menores desacompanhados chegaram a ser confinados simultaneamente entre junho de 2018 e janeiro de 2019.

O reverendo Garcia, padre jesuíta do sul de El Paso, teve sua primeira amostra da criatividade dentro do campo quando reparou em uma cruz com um Sagrado Coração vermelho envolto em lã, feito à mão pelos menores encarcerados. Eles criaram tableaus inspirados em suas terras natais: um campo de futebol em miniatura com jogadores feitos com hastes de limpar cachimbo chutando uma bolinha de algodão, ou uma elegante igreja feita com uma redoma de papel crepom.

As criativas obras das crianças detidas em Tornillo são o objeto de uma impactante exposição, Uncaged Art: Tornillo Children’s Detention Camp, montada no Centennial Museum e nos Chihuahuan Desert Gardens da Universidade do Texas, em El Paso, até 5 de outubro. Criadas a partir da memória, são cenas compostas com materiais como tampas de garrafa e palitos de pirulito como parte de um projeto de estudos sociais no qual professores designados aos campos pediram às crianças que representassem uma lembrança de suas culturas natais. Os pássaros - especialmente o quetzal, de rabo esmeralda, ave nacional da Guatemala e símbolo de liberdade - foram um tema recorrente. “Se cortamos as asas de um pássaro, ele deixa de ser livre", explicou um hondurenho de 17 anos que se identificou apenas como Freddy. 

Tornillo foi aberto para ajudar o governo a lidar com o grande número de crianças detidas sob custódia federal, tanto aquelas que viajaram sozinhas quanto aquelas que se tornaram “desacompanhadas” depois de terem sido separadas dos pais na fronteira. Uma estadia típica no abrigo temporário pode durar entre 60 e 70 dias, mas algumas detenções se arrastam por meses.

Giz de cera e papel “podem servir como uma janela para os pensamentos da criança e tudo que ela viu", disse Holly S. Cooper, codiretora da Clínica de Direito de Imigração da Universidade da Califórnia, em Davis, que usa a arte para obter informações de crianças detidas.

O arranjo da exposição Uncaged lembra o centro de confinamento de Tornillo, incluindo beliches e cercas de metal. As 29 obras da exposição (desenhos, pinturas, roupas e dioramas) foram recuperadas pelo padre Garcia antes do campo ser fechado em janeiro por preocupações de higiene e segurança. “Estamos falando de menores desacompanhados", alertou o padre Garcia. “Mas são também crianças talentosas com o desejo de serem humanos produtivos”.

Apesar das circunstâncias em que se encontram, a obra das crianças era muitas vezes cheia de ânimo, humor e uma afeição orgulhosa aos marcos de seus países natais. “Há algo de alegre e belo na arte que reflete tudo aquilo que é negado a essas crianças no ambiente em que se encontravam", disse Camilo Pérez-Bustillo, que entrevistou crianças em Tornillo. “Uma forma de recuperar sua identidade e não serem reduzidos a números em uma pulseira”.

Desenhos recentes feitos por três crianças no Centro de Alívio Humanitário das Caridades Católicas em McAllen, Texas, mostravam silhuetas em jaulas da vigilância da fronteira, algumas delas de cabeça para baixo. “Os desenhos expressam coisas muito sombrias", pontuou a irmã Norma Pimentel, supervisora do centro. Mas ela também destacou que boa parte da arte produzida pelos menores era repleta de esperança - corações, casas e mensagens de amor". “É algo que mostra a resiliência das crianças”, confirmou.

A arte tem sido uma ferramenta usada no processo de cicatrização para menores que foram soltos pelo departamento americano de alfândega e vigilância da fronteira. Até um giz de cera quebrado pode proporcionar às crianças uma atividade calmante quando seus pais estão conversando com advogados em barracas superlotadas, relatando a violência que os levou a buscar a segurança nos EUA. “São coisas que trazem uma dimensão de normalidade", explicou Anita Ravi, médica da família em Nova York. “Acho que as crianças sentem muita falta disso”.

Em um centro de recepção para famílias em busca de asilo em Phoenix, Arizona, administrado pelo International Rescue Committee, uma guatemalteca de 7 anos pediu algumas notas adesivas coloridas. Em 15 minutos, a garota transformou cinco notas adesivas cor de rosa em pequenas telas com desenhos florais. “Podemos observar o alívio das mães ao verem os filhos se divertindo", disse Ellen Beattie, diretora sênior do comitê.

Em um bairro de El Paso, cartazes com imagens reproduzidas a partir da exposição Uncaged Art foram colocados ao lado de uma cerca metálica. Mas, em junho, autoridades municipais exigiram a remoção dos cartazes. “As crianças de Tornillo queriam mostrar ao mundo como pintar", disse o aposentado Frank Mendez. “São desenhos que saíram da cabeça delas. É o futuro que lhes foi tomado”./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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