Bryan Sheffield The New York Times
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Opinião: Como fiz minhas crianças gostarem de teatro: shows online

Produções envolventes - de uma caça ao tesouro mágica a contos fantásticos por telefone ou e-mail - mantém público jovem entretido e ativo

Alexis Soloski, The New York Times - Life/Style

31 de agosto de 2020 | 05h00

Quero que você saiba que tentei. Quando as escolas fecharam em março, decidi que usaria esse tempo – ou seja, o tempo que não passaria trabalhando, cozinhando, ajudando as crianças com as aulas on-line ou sentada no degrau do closet que passei a chamar de Lugar Especial para a Mamãe Chorar – para transformar meus vícios em uma coisa de família. Forçaria meus filhos a amar o teatro, ou pelo menos os filmes musicais.

É estranho e egoísta querer que nossos filhos amem as coisas que amamos – eles merecem a liberdade de desenvolver seu próprio gosto. Se esse gosto for terrível, bem, isso é a infância para você. Afinal, como explicar a popularidade de Pixy Stix e da "Patrulha Canina"? Mas, com a arrogância inata dos muitos grupos progressistas de bebês do Brooklyn, achei que poderia, de alguma forma, transferir meu entusiasmo. Por isso, solicitei recomendações de filmes aos colegas, pesquisei os catálogos on-line e prestei atenção às novas ofertas de arquivo. E, minha nossa, errei feio.

Meus filhos, de quatro e quase sete anos, aparentemente estragados pelos inúmeros desenhos animados da Nick Jr., desistiram depois de assistir a 25 minutos de Se Minha Cama Voasse, a 20 minutos de José, o Sonhador e Seu Fantástico Casaco Colorido e a 15 minutos de Shrek, o Musical. Conseguimos ver A Noviça Rebelde inteiro, pulando somente a parte dos nazistas, mas eles ainda não me deixam colocar "Mary Poppins".

Também experimentei coisas mais estranhas, como uma adaptação para o teatro de um conto de Herman Hesse e uma peça de Leo Lionni. Sem sucesso. Então parei e desisti do mundo no qual as crianças e eu talvez pudéssemos debater os méritos das várias gravações de elenco do musical Chess. Até que, em julho, recebi vários releases anunciando teatro imersivo para crianças.

A maioria das peças de teatro infantil ao vivo tem um elemento participativo, muitas vezes apenas batendo palmas ou os pés no chão ou tentando fazer mais barulho do que as pessoas na sacada. É o suficiente, porém, para fazer a criança sentir – mesmo que precise de um assento mais alto para conseguir ver – que a peça não poderia ser representada da mesma maneira sem sua participação.

Essa parte se perde na performance arquivada, por isso eu não poderia culpar inteiramente os membros mais baixos da minha família por abandonar o mito de Anansi, a Aranha e preferir os desenhos animados da Disney Plus. Mas esses trabalhos imersivos, conduzidos por telefone, por e-mail e por Zoom, prometiam incluí-los na atividade, exigindo seu envolvimento e sua atenção.

A primeira foi a Mundane Mysteries Playdate (Brincadeira de Mistérios Mundanos, em tradução literal), uma versão infantil de uma peça telefônica improvisada que eu havia curtido em abril. O projeto, todo em áudio, prometia conectar as crianças distantes e as enviar em uma aventura. Escolhemos um amigo da minha filha que havia se mudado de Nova York para Vermont para se juntar a nós, e na manhã de segunda-feira, por teleconferência, usando o minúsculo alto-falante dos celulares, conversamos com o Inspetor Doyle, que rapidamente delegou às crianças o cargo de inspetor júnior e lhes ensinou um código secreto simples.

Em cinco telefonemas bobinhos e cheios de carinho, ao longo de cinco dias, as três crianças desvendaram um mistério envolvendo pizza, um tesouro enterrado, um labirinto subterrâneo e vários unicórnios. Isso é um golpe baixo? Com certeza! Tenho filhos que adoram ser mimados.

Naquela mesma semana, também começamos Madame Kalamazoo's Magical Mail (O Correio Mágico da Madame Kalamazoo, em tradução livre), um projeto baseado em texto do Teatro Nacional da Inglaterra. (Você precisava ser um residente do Reino Unido para participar, mas pesquisei por um código postal de Londres na internet e consegui.) Por 19 dias, os participantes adultos recebem um e-mail personalizado para ser lido em voz alta para qualquer criança da casa. Cada e-mail inclui uma história na qual as crianças vivem aventuras com Madame Kalamazoo, descrita nos contos como uma senhora com cabelos milagrosos e uma queda por calças largas.

As histórias lidam, de forma sutil, com o tédio e o isolamento que muitas crianças estão sentindo, tentando promover a resiliência e estimular a imaginação. Muitas delas se encerram com uma sugestão de atividade doméstica, como fazer um desenho ou uma lista. O trabalho pode ser compartilhado por meio de uma plataforma verificada chamada Whale Pod (Madame tem baleias no cabelo – e essa é uma longa história) e outros e-mails contêm links para obras de arte de amigos desconhecidos.

Os trejeitos britânicos não incomodaram meus filhos (eles assistiram tanto a Peppa Pig que isso afetou legitimamente sua forma de falar), embora as histórias, às vezes, tenham se mostrado muito fantasiosas e elípticas para meus pequenos literalistas. Ainda assim, a emoção de receber um e-mail, especialmente um e-mail que se refere a você pelo nome, os manteve atentos.

Na semana seguinte, durante um curto feriado em uma cabana alugada, assistimos a Alice: A Virtual Theme Park (Alice, um Parque Temático Virtual, em tradução literal), um espetáculo engenhoso e superestimulado das companhias Creation Theatre e Big Telly Theatre Co., em parceria com a charisma.ai. Eu já tinha visto a versão deles para A Tempestade, de Shakespeare, um dos primeiros eventos de pandemia a realmente explorar e aproveitar as possibilidades que o Zoom oferece. Esse novo esforço, uma adaptação interativa de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, é mais ambicioso, mas tem menos da exuberância crua que fez de A Tempestade um programa tão divertido.

Depois de uma introdução, os membros do público – ou seus pais – podem navegar de uma sala de Zoom para outra, interagindo com o Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março e a Rainha Vermelha. (Seus monólogos são, em sua maioria, derivados dos textos de Carroll, com alguns toques contemporâneos.) Você também pode, brevemente, jogar um jogo relacionado ao croqué em seu telefone.

Mas essas possibilidades tecnológicas pareciam desviar a atenção da pequena história que o País das Maravilhas tem. Tive de usar balas de framboesa azul para atrair as crianças confusas de volta ao sofá ("O que é Brexit?"). Isso, no entanto, aconteceu em uma manhã de um dia glorioso em que uma viagem a um lago havia sido prometida e nem mesmo a mais louca festa do chá poderia competir. Por sinal, a rainha ordenou que nossa cabeça fosse cortada.

Além do mais, apenas alguns dias antes, eles tinham visto o absolutamente encantador The Wizards of Oakwood Drive (Os Bruxos de Oakwood Drive, em tradução literal), o cachorro peludo de um evento on-line de Tom Salamon, cortesia do festival La Jolla Playhouse's Without Walls. Depois que os pais participam de um longo tutorial do Zoom, as crianças veem dois irmãos rivais – em nossa apresentação, Jonathan Randell e Edred Utomi – mostrarem sua magia.

Seus feitiços confusos e cheios de referência à cultura pop – "David Beckham, Mandy Moore / Mande-o para fora" – fizeram com que as crianças descobrissem os itens mágicos (balões e doces, mais mimos) escondidos dentro e ao redor de casa. A menina de quatro anos que havia passado a maior parte da manhã vomitando ou deitada no sofá também insistiu em correr. As crianças ainda não sabem como aquilo foi feito, mas aqui vai uma dica: o pai delas ficou acordado até as duas da manhã da noite anterior e quase acabou com um rolo de fita adesiva. A única desvantagem: a decepção com qualquer evento futuro que não inclua doces encantados.

Todos esses programas diferentes insistem, com atrevimento e compaixão, que o encantamento é possível até mesmo dentro de casa, que os amigos ausentes estão mais perto do que você imagina e que o isolamento social não impede a aventura. O que é um ótimo lembrete do que o teatro é capaz de fazer, mesmo que remotamente. Agora, se alguém puder ao menos colocar esses bruxos para trabalhar em algo para os adultos – testes confiáveis e rastreamento dos contatos, digamos. Ou, se não, mais doces.

Informações do evento:

Mundane Mysteries Playdate, até 24 de agosto; mundanemysteries.com

Alice: A Virtual Theme Park, até 30 de agosto; creationtheatre.co.uk

The Wizards of Oakwood Drive, até 30 de agosto; lajollaplayhouse.org

Madame Kalamazoo's Magical Mail, madamekalamazoo.com

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