Jim Huylebroek para The New York Times
Jim Huylebroek para The New York Times

Crianças sofrem a crueldade da guerra no Afeganistão

Onze crianças de uma mesma família foram vítimas da explosão de um artefato; quatro morreram e sete tiveram as pernas amputadas

Rod Nordland, The New York Times

09 Junho 2018 | 10h15

JALALABAD, AFEGANISTÃO - Onze pessoas da família Gul, dez delas crianças, observavam um objeto na frente da sua casa, no dia 29 de abril. Nas proximidades, ocorrera pouco antes um confronto entre o Taleban e soldados afegãos.

Duas das crianças menores pegaram o objeto na mão, e Jalil, de 16 anos, percebeu que se tratava de um foguete que não tinha explodido. Ao tentar arrancá-lo das mãos delas, ele explodiu.

Foi um dia cruel, mesmo para a guerra interminável do Afeganistão. Ao anoitecer, quatro delas estavam mortas, inclusive Jalil. Uma menina de 4 anos, Marwa, perdeu a irmã gêmea, Safwa, e a mãe, Brekhna, que estava nas imediações fazendo bolos de estrume para queimar. Uma das sobrinhas de Brekhna, de seis anos, também morreu na explosão.

Sete sobreviventes - três irmãos e quatro de seus primos - tiveram de carregar o peso de suas perdas, e muito mais: cada um deles perdeu uma perna, e dois perderam ambas. Nos dois dias seguintes, os médicos do Hospital Regional de Nangarhar de Jalalabad tiveram muito trabalho para reparar os membros estraçalhados. Alguns não puderam ser salvos.

“Tive vontade de chorar”, disse o diretor do setor de ortopedia, Sayed Bilal Miakhel, encarregado da sala operatória. “Costumamos ter muitas amputações aqui, mas estas foram em crianças, e todas da mesma família”.

Abdul Rashid, 12, lembrou que recuperou a consciência depois da explosão. “Tentei ficar de pé, mas não tinha mais as minhas pernas”, contou. Seu irmão mais novo, Mangal, 11, disse que procurou chegar até sua casa mancando, mas desmaiou e acordou no hospital.

Quase todos os que sofreram amputações abaixo dos joelhos serão candidatos a usar membros artificiais. Entretanto, nenhum deles estará em condições por vários meses. Enquanto esperam, as crianças passarão por várias operações para tratar das complicações, compartilhando frequentemente quatro leitos no mesmo quarto do hospital. Para distingui-los, os médicos escreveram seus nomes no peito de cada uma.

“Podemos salvar suas vidas, mas para a sua reabilitação e tratamento, seria melhor se pudessem ser transferidas para um centro bem equipado”, disse o médico Najubullah Kamawal, diretor do Departamento de Saúde Pública de Nangarhar. “Provavelmente em outro país. Cada um deles precisa de ajuda especial”.

Shafiqullah, 13, teve de amputar as duas pernas acima do joelho, e pediu aos médicos que o deixassem ir para casa. Eles explicaram que terá de fazer mais duas operações antes que isso seja possível. Shafiqullah estava preocupado com os estudos. E insistiu que a família levasse seus livros e cadernos ao hospital, para não ficar atrasado na escola.

Hamisha Gul, 65, é pai de Jalil, que morreu, e dos três irmãos que sofreram amputações. Brekhna, que morreu na explosão, era sua irmã. Ele se orgulha de Jalil. “Ele estava aprendendo inglês”, contou. “Era muito inteligente, estava sempre ensinando os irmãos menores”.

O futuro dos gêmeos Abdul Rashid e Bashir, de 12 anos, e de Mangal, de 11, está repleto de obstáculos.“Até o momento, as crianças não compreendem que não poderão andar”, disse Gul. “Não querem falar nisso”. Muitos grupos de ajuda reduziram as intervenções cirúrgicas em Jalalabad depois que a sede da organização Save the Children foi alvo de um ataque, em janeiro.

As duas meninas que sobreviveram - Marwa, 4, e a prima Rabia, 7 - se contorciam de dor, tentando encontrar uma  maneira confortável de sentar com seus toquinhos enfaixados. A tia, Lol Pora, que é mãe de Shafiqullah, tentava consolá-las. Quando elas choravam, as outras crianças também começavam a chorar. Algumas queriam ir para casa, outras sentiam muita dor, outras ainda disseram que estavam com fome.

A aldeia da família se encontra na linha de frente do combate entre os rebeldes e o governo. Vivendo entre os dois lados, a família se mostra reticente e prefere não responsabilizar ninguém.

“E isso continua”, lamentou Gul. “Nós não sabemos quem culpar”. / Zabihullah Ghazi e Jawal Sukhanyar contribuíram para a reportagem.

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