Tyler Hicks/The New York Times
Tyler Hicks/The New York Times

Crianças soldados de Darfur combatem na guerra saudita no Iêmen

Arábia Saudita usa riqueza petrolífera para terceirizar a guerra, colocando sobreviventes desesperados, muitos deles crianças, nos campos de batalha

David D. Kirkpatrick, The New York Times

23 de janeiro de 2019 | 06h00

CARTUM, SUDÃO -  A guerra civil em Darfur tirou quase todas as esperanças de Hager Shomo Ahmed. Os invasores roubaram o gado da família, e doze anos de derramamento de sangue deixaram seus pais na miséria. Então, por volta de 2016, a Arábia Saudita acenou com uma ajuda: o reino pagaria US$ 10 mil se Ahmed fosse combater a 1,9 mil quilômetros de distância, no Iêmen.

O menino, na época com 14 anos, não achou o Iêmen no mapa, e sua mãe ficou chocada. Ele era um sobrevivente de uma terrível guerra civil - como poderiam os pais jogá-lo em outra? Mas a família não deu ouvidos a mãe. "As famílias sabem que a única maneira de mudar sua vida é os filhos irem para a guerra e trazerem dinheiro para casa", afirmou Ahmed em dezembro em Cartum, poucos dias depois de completar 16 anos.

A ONU definiu a guerra no Iêmen como a maior crise humanitária mundial. Um bloqueio intermitente imposto pelos sauditas e seus aliados nos Emirados Árabes Unidos levou 12 milhões de pessoas à beira da inanição, matando cerca de 85 mil crianças, segundo organizações internacionais de ajuda.

Governados pelo príncipe Mohammed bin Salman, os sauditas afirmam que estão lutando para resgatar o Iêmen de uma facção hostil que tem o apoio do Irã. Mas para fazer isto, os sauditas usam sua enorme riqueza petrolífera para terceirizar a guerra, principalmente, afirmam os soldados sudaneses, contratando dezenas de milhares de sobreviventes desesperados do conflito em Darfur para combater em seu lugar, muitos deles crianças.

Há quase quatro anos, em qualquer momento, 14 mil milicianos sudaneses lutam no Iêmen ao lado de milícias locais alinhadas com os sauditas, afirmam vários combatentes que regressaram dos campos de batalha e parlamentares sudaneses. Centenas morreram lá. Quase todos os combatentes sudaneses são originários da região de Darfur, arrasada pela guerra e empobrecida, onde cerca de 300 mil pessoas foram mortas e 1,2 milhão tiveram de abandonar as suas casas nos anos do conflito.

A maioria deles pertence às Forças de Rápido Apoio paramilitares, uma milícia tribal. Eles foram acusados do estupro sistemático de mulheres e meninas, de matanças indiscriminadas e de outros crimes de guerra durante o conflito de Darfur, e os veteranos envolvidos nestes horrores agora lideram a ação no Iêmen.

Algumas famílias estão tão ávidas por dinheiro que subornam os oficiais das milícias para que chamem seus filhos para a guerra. Muitos deles têm entre os 14 e 17 anos. Cinco combatentes que voltaram do Iêmen e outro prestes a partir disseram que as crianças constituem pelo menos 20% de suas unidades. Segundo dois deles, as crianças representam mais de 40% das forças.

Para manter uma distância segura das linhas de batalha, seus superiores da Arábia Saudita ou dos Emirados comandam os combatentes sudaneses por controle remoto, orientando-os a atacar ou a retroceder pelo rádio e pelo GPS fornecidos pelos oficiais sudaneses, informaram todos os combatentes.

“Os sauditas nos diziam o que devíamos fazer pelo telefone e por outros aparelhos”, contou Mohamed Suleiman al-Fadil, um  membro da tribo Bani Hussedin, de 28 anos, que retornou do Iêmen no fim do ano passado. “Eles nunca combateram com a gente”.

“Os sauditas nos dão uma ordem por telefone e depois se retiram”, concordou Ahmed, 25, membro da tribo Awlad Zeid, que combateu perto de Hudaydah este ano e não quis dar o nome completo com medo de retaliação. “Eles tratam os sudaneses como lenha para jogar no fogo”.

Um porta-voz da coalizão militar liderada pelos sauditas declarou que estão sendo respeitados todos os direitos humanos e humanitários internacionais, inclusive “não são recrutadas crianças”. Às vezes,  os sudaneses defendem os flancos dos milicianos iemenitas que atuam como pontas de lança nos ataques. 

Mas os combatentes sudaneses insistem que também constituem a principal barreira contra os inimigos iemenitas dos sauditas, os houthis. “Sem a nossa ajuda, os houthis tomariam toda a Arábia Saudita, inclusive a Meca”, disse Fadil. 

Hager, de 16 anos, que regressou do Iêmen no final de 2017, disse que a sua unidade perdeu 180 homens em seis meses. Ele vivia apavorado, afirmou. Mas os seus oficiais sudaneses permitiam que ele telefonasse aos pais de tempos em tempos, e agora eles estão satisfeitos. Além de uma casa, ele comprou dez cabeças de gado para a família./ Declan Walsh e Saeed al-Batati contribuíram para a reportagem

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