Paramount Pictures
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'O Poderoso Chefão' mudou o léxico americano

Pegue os cannoli, mas não o acordo para o seu depoimento

Corey Kilgannon, The New York Times

20 de novembro de 2019 | 06h00

Este mês em Washington, durante o processo de Robert J. Stone Jr., condenado por obstruir as investigações de uma possível conspiração cuja finalidade era influenciar as eleições de 2016, uma das provas apresentadas não teve nada a ver com a Rússia, nem com os e-mails de Hillary Clinton, e tampouco com o WikiLeaks ou o governo Trump.

Foram as referências de Stone a um personagem do filme O Poderoso Chefão II, que presta um falso testemunho em uma audiência do Senado sobre as atividades do crime organizado.

“Faça como Frank Pentangeli”, escreveu Stone em uma mensagem a um parceiro que deveria testemunhar a respeito dele diante do Comitê do Congresso, em 2017.

A mensagem, segundo os promotores, era o conselho de Stone, um agente político republicano, há muito tempo assessor do presidente Donald J. Trump, ao seu parceiro para imitar a estupidez de Pentangeli.

“Não sei de nada”, insiste Pentangeli, interpretado por Michael V. Gazzo, quando é interrogado no filme de 1974 sobre os vínculos de um personagem com a máfia.

Stone, 67, declarou que a sua mensagem não passava de uma brincadeira. No fim, o seu parceiro, Randy Credico, acabou não testemunhando, por invocar o seu direito de não auto-incriminação.

Outras testemunhas há anos procuram agir como Pentangeli, e o emprego do termo no caso de Stone é apenas um exemplo de como elementos dos filmes O Poderoso Chefão penetraram no mundo real.

No início deste ano, um detrator do apresentador da CNN, Chris Cuomo, cujo irmão Andrew é o governador de Nova York, referiu-se a ele como “Fredo”, o irmão atrapalhado do clã Corleone. E quando alguém  ameaça uma pessoa de fazer com que ela “durma com os peixes” (mandar assassinar uma pessoa e ocultar o corpo), usa uma frase que se tornou igualmente popular por causa destes filmes.

Segundo Edward McDonald, o promotor federal que garantiu as condenações dos líderes de quatro das cinco famílias da máfia de Nova York, os promotores não estão imunes a isto. Depois de oferecer a um réu um acordo judicial, disse: “Você poderia dizer: ‘Eu lhe fiz uma proposta que ele não pode recusar: a imunidade em vez de dez anos na cadeia’”

Os próprios mafiosos imitam o comportamento dos personagens de O Poderoso Chefão, como em 1977, quando os promotores disseram a um homem que agia em nome da família de criminosos Colombo que tentara ocultar o dinheiro do suborno em um restaurante. Ele escolheu o mesmo lugar onde Michael Corleone encontra a arma escondida para ele em O Poderoso Chefão  - um banheiro.  “Exatamente como nos filmes”, exclamou  um agente em uma escuta.

Kenneth Dancyger, professor de cinema da New York University, atribuiu o impacto da série de O Poderoso Chefão no léxico americano à combinação de um roteiro de grande qualidade, interpretação e uma direção  apuradas, e também à profunda percepção de um tipo de poder e da corrupção americana. “No cerne de tudo isto”, ele disse, “está a família e a honra, e a tentativa de proteger a família de um mundo corrupto, como Don Corleone procura fazer”.

Os roteiros dos dois primeiros filmes foram uma colaboração do diretor, Francis Ford Coppola, e Mario Puzo, que escreveu o livro com este título com material de pesquisa, como as transcrições dos processos da máfia. “Ele jamais conheceu um gângster, juro por Deus”, insistiu o filho de Puzo, Tony Puzo, 72.

“Meu pai se divertiria com todas essas histórias sobre o “Chefão” agora”, ele disse. “Ele não compreendia por que razão as pessoas gostavam das referências ao personagem, por que elas consideraram o filme quase um evangelho e passaram a citá-lo, como se isto fosse algo relevante, exceto por serem expressões engraçadas. Ele não acreditava na integridade dos mafiosos. Estava apenas contando uma história”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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