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Criminosos usam violência para controlar eleições no México

O país registrou 136 mortes de políticos e assessores desde o segundo semestre do ano passado

The New York Times, Paulina Villegas e Kirk Semple

06 Julho 2018 | 10h00

CHILPANCINGO, MÉXICO - Sua campanha por uma va ga no congresso estadual tinha começado a apenas horas quando ele começou a receber ameaças de morte. Às vezes elas chegavam em mensagens de texto, às vezes, em telefonemas. O recado era sempre o mesmo: abandone a corrida eleitoral se não quiser morrer.

Abel Montúfar não se deixou intimidar, de acordo com seu irmão, respondendo a seus algozes: “Não tenho medo de vocês". Mas no dia 8 de maio, nove dias após o início da campanha no estado mexicano de Guerrero, na costa do Pacífico, o corpo dele foi encontrado em sua van. Foi baleado seis vezes.

O caso do assassinato de Montúfar ainda não foi resolvido, mas seus parentes dizem não ter dúvida em relação a quem seriam os responsáveis: criminosos que defendem um candidato rival.

No dia 1.º de julho, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador foi eleito presidente do México com ampla margem dos votos. Também foram escolhidos os ocupantes de mais de 3.400 vagas nos governos locais, estaduais e federal, fazendo desta a maior eleição geral da história do país. E, provavelmente, foi também a temporada eleitoral mais violenta já vista no México moderno.

Montúfar foi um dos 136 políticos e assessores políticos assassinados no México desde o segundo semestre do ano passado, de acordo com a empresa mexicana de análise de risco Etellekt. Mais de um terço dessas vítimas era composto por candidatos e possíveis candidatos, a maioria tentando se eleger para cargos locais. Outros eram políticos eleitos, membros de partidos e funcionários de campanha.

Boa parte do foco da cobertura nacional e internacional ficou com a corrida presidencial. Mas, para milhões de pessoas que vivem nas partes mais violentas do país, as eleições para cargos do governo local têm mais impacto no seu cotidiano. E grupos do crime organizado praticamente decidiram muitos desses resultados.

Muitos eleitores abandonaram seus candidatos por medo de morrer. Alguns partidos nem mesmo participaram apresentando candidatos próprios.

O conluio entre políticos e organizações criminosas no México não é novidade. Mas, nos dez últimos anos, os criminosos tentaram cooptar políticos locais com a tentativa de interferir no processo eleitoral, usando a violência para escolher os candidatos de sua preferência.

Com funcionários lenientes em cargos fundamentais das estruturas locais de poder, os grupos de criminosos conseguiram proteger melhor seus empreendimentos e fazê-los crescer, exercendo seu controle sobre as forças policiais, garantindo lucrativas licitações do governo e exigindo porcentagens consideráveis dos orçamentos municipais.

Além das mortes, mais de 400 outros casos de agressões contra políticos foram relatados nesta temporada, incluindo tentativas de assassinato, ameaças, intimidação e sequestros, de acordo com a Etellekt.Casos foram relatados em pelo menos 346 municípios de todo o país.

Essa campanha clandestina empreendida pelo crime organizado, que encontrou pouquíssima resistência por parte dos sistemas policial e judicial do país, corruptos e enfraquecidos, se deu em meio a índices de violência nunca antes vistos no país, algo que foi tema central na eleição para a presidência.

"Se o governo mexicano não pode garantir que a vontade do povo seja respeitada, então não temos uma democracia", disse Antonio Orozco Guadarrama, secretário-geral do Partido Revolucionário Democrático, de esquerda, em Guerrero, um dos estados mais pobres e violentos do México. "Isso coloca em perigo todo o nosso sistema democrático".

Faz tempo que a estratégia do governo para o combate aos grupos do crime organizado consiste em ir atrás dos chefões. Essa abordagem se baseia na ideia segundo a qual o corpo de uma organização criminosa acabaria definhando sem a cabeça.

Mas, em vez disso, a tática promoveu uma fragmentação dos grandes cartéis em grupos menores, mais violentos, que exercem seu poder no nível local. Anteriormente, os cartéis maiores tinham como foco a produção e o tráfico de drogas, mas esses grupos menores e mais voláteis se envolveram numa gama mais ampla de negócios ilícitos, como extorsão, sequestro, prostituição, jogatina ilegal e roubo de combustíveis.

Com seus negócios voltados para interesses mais locais, os novos grupos criminosos necessitam da conivência das autoridades locais.

"Para os cartéis mais antigos, interessados principalmente no tráfico de drogas para os Estados Unidos, não importava quem era o prefeito, desde que as autoridades não interferissem nos negócios", explicou Alejandro Hope, analista que mora na Cidade do México. "Mas, neste novo mundo de gangues locais, o controle das autoridades municipais é uma vantagem crucial".

Garantir sua influência nos mecanismos locais de governo e na política tornou-se fundamental para os grupos criminosos mais novos, de predomínio local, e isso fez com que buscassem controlar o processo eleitoral.

"Esses grupos não tentam apenas formar elos com os candidatos: buscam até nomeá-los", disse Eduardo Guerrero Gutiérrez, analista de segurança da Lantia Consultores, na Cidade do México.

Alguns candidatos foram obrigados a viajar em carros blindados cercados por guarda-costas e usar coletes à prova de balas em público. Em certas partes dos estados mais violentos, as ameaças inviabilizaram as campanhas.

Guerrero foi uma das regiões mais atingidas. Pelo menos 14 candidatos e possíveis candidatos foram assassinatos, muito mais do que em outros estados, de acordo com a Etellekt.

"Só os mais loucos se candidatam por aqui", contou Alejandro Martínez, funcionário do alto escalão do Partido de Ação Nacional (centro-direita) em Guerrero.

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