Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

Diretor da BlackRock pressiona por uma nova e ambiciosa meta climática para o mundo corporativo

Larry Fink está usando a grande influência de sua empresa para pressionar companhias a eliminarem as emissões de gases de efeito estufa até 2050

Andrew Ross Sorkin, The New York Times - Life-Style

20 de fevereiro de 2021 | 05h00

No mês de janeiro fez um ano que o diretor da BlackRock, Laurence D. Fink, escreveu uma carta para os diretores executivos das empresas do todo mundo com uma mensagem urgente: a mudança climática será “um fator determinante nas perspectivas das empresas a longo prazo”. Enfatizando seu ponto, ele acrescentou, “Estamos na iminência de uma reformulação fundamental das finanças”.

Vinda daquele que é provavelmente o mais poderoso investidor do mundo - a BlackRock controla aproximadamente US$ 9 trilhões, tornando-a, de longe, a maior firma do ramo - essa carta sacudiu com força sísmica as diretorias corporativas de todo o mundo. Nas semanas que se seguiram, a Microsoft anunciou um plano para que suas emissões de carbono fiquem abaixo de zero já em 2030. A Salesforce prometeu conservar ou restaurar 100 milhões de árvores ao longo da próxima década. E até a Delta Air Lines anunciou um esforço de US$ 1 bilhão para neutralizar suas emissões de carbono em dez anos.

Ainda assim, céticos argumentaram que o apoio de Fink ao movimento de mentalidade reformadora ESG - sigla em inglês para ambiental, social e governança - foi uma jogada de marketing, que as empresas apoiariam durante um período de expansão econômica, mas rejeitariam em uma crise. De acordo com esse raciocínio, se o mundo corporativo americano tivesse de escolher entre cortar programas de sustentabilidade ou dividendos de investidores, os programas de sustentabilidade seriam cortados primeiro.

Então, a pandemia de covid-19 chegou, e algo incomum aconteceu: o movimento ESG não ruiu, mas se acelerou. Particularmente, a ênfase na mudança climática ganhou um foco ainda maior dentro de empresas e entre investidores, que correram em massa para comprar ações de empresas sustentáveis - elevando os valores de empresas como a Tesla e dobrando a quantia investida em fundos mútuos orientados para a sustentabilidade. Isso alimentou a tese de Fink: investir no verde é lucrativo.

É por isso que a mais recente carta anual de Fink aos chefes das corporações chama a atenção novamente. E este ano, com o planejamento ainda mais ambicioso para os negócios em que a BlackRock está investindo, a mensagem poderá ter um impacto ainda maior.

Fink está agora conclamando todas as empresas a “divulgar um plano a respeito de como seus negócios serão compatíveis com uma economia em que as emissões de carbono serão zeradas”, que ele define como: conter o aquecimento global para, no máximo, 2ºC acima das médias pré-industriais e eliminar as emissões de gases-estufa até 2050.

“Esperamos que vocês informem como esse esse plano está incorporado em sua estratégia a longo prazo e como é avaliado por suas diretorias”, escreveu ele.

Quando Fink diz algo que soa como uma solicitação, na verdade, a coisa vai muito além disso. O tamanho da BlackRock lhe confere uma enorme influência. Fink pode buscar excluir diretores de corporações se acreditar que não estão atendendo ao seu chamado e é capaz de derrubar o valor de ações de empresas pertencentes aos fundos administrados ativamente pela BlackRock. No ano passado, a BlackRock votou contra 69 empresas e contra 64 diretores por razões relacionadas ao clima, e colocou 191 empresas “em observação”.

É evidente que a BlackRock não é capaz de vender ações de empresas em índices passivos, como aqueles que acompanham o índice S&P 500 (que continuam representando uma grande parte dos ativos sob sua administração). Cada vez mais, porém, a BlackRock está criando fundos de índice orientados por sustentabilidade, atentos à seleção das empresas a serem incluídas ou excluídas deles.

Em relação a isso, Fink afirmou na carta que sua empresa planejou ajustar seu processo de investimento para os fundos que administra ativamente, adotando o que ele chama de “modelo de escrutínio intensificado” em relação a risco climático que inclui “sinalizar títulos para potencial saída”.

Ele também disse que a BlackRock planejou publicar “uma métrica de alinhamento de temperatura para nossas ações públicas e nossos fundos de obrigações, com dados suficientes disponíveis”, e que sua empresa criará novos produtos “com metas explícitas de alinhamento de temperatura, incluindo produtos alinhados com o caminho das emissões neutras”.

Isso poderia surtir o mesmo efeito em investidores que a quantidade de calorias tem em um cardápio de lanchonete, funcionando como incentivo a escolhas mais bem informadas. No futuro, grandes fundos públicos de pensão e outros investidores poderiam criar, a partir de firmas como a BlackRock, índices próprios customizados com base nesse tipo de dados. Em janeiro, o fundo de pensão da cidade de Nova York afirmou que iria se desfazer de US$ 4 bilhões em ativos ligados a combustíveis fósseis em seus portfólios.

Esse tipo de ação não sacrificará o desempenho dos investimentos, afirmou Fink. Fundos sustentáveis tiveram desempenho acima do mercado no ano passado, ressaltou ele, especialmente durante os piores momentos da crise causada pela pandemia de coronavírus.

“Quanto mais as suas empresas são vistas se envolvendo com a transição ambiental e as oportunidades que isso traz, mais o mercado recompensará suas empresas com maiores valorizações”, escreveu ele na carta aos diretores executivos.

O pedido de Fink por mais transparência em relação aos riscos climáticos não ocorre de maneira isolada. No ano passado, conforme aponta sua carta, União Europeia, China, Japão e Coreia do Sul se comprometeram com um futuro de emissões iguais a zero. Além disso, com a posse de Joe Biden, sua ordem executiva para os Estados Unidos voltarem ao Acordo de Paris e seu plano sobre uma iniciativa climática que inclui banir novas extrações de petróleo e gás natural em terras federais, parece que governos poderiam proximamente reforçar o tema das empresas revelarem dados de risco climático relacionados às suas atividades.

“Peço que as empresas ajam rapidamente com essa divulgação, em vez de esperar que agências reguladoras imponham exigências para isso”, escreveu Fink a respeito de as empresas revelarem seus planos na direção das emissões iguais a zero.

E esse esforço não é apenas para empresas com capital aberto na bolsa.

“Se quisermos que essas informações sejam verdadeiramente efetivas - se quisermos ver uma verdadeira mudança social - elas devem ser reveladas também por grandes corporações de capital fechado”, acrescentou ele. “Acreditamos que emissores de dívidas públicas também deveriam informar como estão lidando com os riscos relacionados ao clima.”

Várias organizações já tentam criar um padrão uniforme para divulgação de informações relativas ao clima. Um grupo chamado Task Force on Climate-Related Financial Disclosures [Força-tarefa para Informações Financeiras Relacionadas ao Clima] está disputando com o Sustainability Accounting Standards Board (Conselho de Padrões Contábeis de Sustentabilidade) pelo seu estabelecimento como padrão global, enquanto um grupo que integra o Fórum Econômico Mundial, liderado pelo diretor do Bank of America, Brian Moynihan, anunciou seu próprio padrão de transparência relativa a ESG. Sabiamente, Fink afirma que deve haver um padrão único, e deu seu apoio à Task Force.

Muitas das rivais da BlackRock sugerem que as cartas de Fink são simplesmente marketing bem feito, destinado a isolar a empresa de maior escrutínio. Talvez elas tenham esse efeito.

Muito mais profundamente, porém, as cartas de Fink têm ajudado consistentemente a mudar o assunto das conversas nas diretorias das corporações. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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