Andrea Mantovani para The New York Times
Andrea Mantovani para The New York Times

Crise de mobilidade deu início a movimento na França

Protestos obrigaram Emmanuel Macron a recuar nos impostos sobre combustível

Michael Kimmelman, The New York Times

31 Dezembro 2018 | 06h00

SENLIS, FRANÇA - Após mais de um mês de furiosos protestos contra o governo em toda a França, é fácil esquecer que tudo teve início com um imposto sobre a gasolina. Alguns centavos sobre o preço do litro cobrado na bomba. Uma medida para combater a mudança climática, de acordo com o presidente Emmanuel Mácron. É claro que milhões de trabalhadores que dependem de seus carros enxergaram as coisas de maneira diferente.

A mobilidade é uma história da globalização e seus males. Mobilidade significa mais do que trens, aviões e automóveis. Inclui também a mobilidade social e econômica - ser pobre demais para comprar um carro, ser rico o bastante para transferir seu dinheiro para fora do país. Tudo isso está intimamente ligado. As semanas de protestos dos Coletes Amarelos deixaram isso claro.

Muitos desses manifestantes, em sua maioria brancos de classe média e trabalhadora que mal conseguem sobreviver com seus salários e pensões, são aquilo que o autor Christophe Guilluy chamou de “França periférica". O termo é uma referência a um estado de existência e às milhares de pequenas cidades e distritos rurais e urbanos fora dos subúrbios de grandes centros como Paris, Bordeaux, Lion e Lille.

“Com as pequenas empresas dessas cidades agonizando, as pessoas se veem obrigadas a buscar emprego em outros lugares, dependendo de shoppings até mesmo para as compras mais simples", disse o sociólogo francês Alexis Spire. “Eles precisam de carros para sobreviver, porque os trens e ônibus regionais não os atendem mais. Quando começamos a nos aprofundar no fenômeno dos Coletes Amarelos, vemos que o levante tem muito a ver com a mobilidade.”

Especialistas vem estabelecendo paralelos entre os Coletes Amarelos e as mazelas sociais expostas pela eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e o plano britânico de abandonar a União Europeia. Mas há também uma tendência maior se desenvolvendo na França, relacionada à evolução das cidades, ao impacto dos carros, e à geografia de classe e raça - tendências cujas raízes remontam aos anos do pós-guerra.

Em 1947, o livro “Paris and the French Desert” [Paris e o deserto francês], do geógrafo Jean-François Gravier, ajudou a inspirar Charles de Gaulle a reorganizar o país - descentralizando os recursos, redistribuindo a indústria, promovendo cidades de importância regional e criando cidades ligadas por ferrovias financiadas pelo poder público. A França moderna e descentralizada difundiu uma promessa de prosperidade e mobilidade. Durante décadas, a promessa foi mantida. Até o dia em que foi quebrada.

Enquanto várias cidades maiores prosperavam com a globalização, os governos regionais da França, suportando um fardo mais pesado, se viram presos num ciclo vicioso. O capital desapareceu com as fábricas e os empregos. A receita encolheu, a dívida se acumulou e a infraestrutura entrou em decadência.

Entre os serviços mais afetados estava o de ferrovias regionais, administrado pela empresa ferroviária francesa SNCF, mais preocupada em investir em trens de alta velocidade para as cidades maiores e prósperas, e endividada em 56 bilhões de dólares. Com a atrofia do serviço, as pessoas precisam de seus carros.

O imposto da gasolina “expôs uma profunda fratura cultural", disse Olivier Galland, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica. Numa manhã recente, visitei uma rotatória movimentada perto de Senlis, na região de Oise, norte do país, onde duas dúzias de coletes amarelos estavam reunidos em torno de um barril em chamas. Os motoristas que passavam os saudavam com as buzinas.

Não é por acaso que o movimento emprestou seu nome dos coletes fosforescentes que os motoristas franceses são obrigados a manter em seus carros. Como o imposto sobre o combustível, os coletes são um fardo imposto aos motoristas pelo governo e, para uma população que se sente ignorada, são também uma ferramenta ideal para chamar a atenção para si. “O governo nos obriga a pagar por eles do próprio bolso", disse Valérie Lemaire, manifestante. “Nós só pagamos, pagamos e pagamos.”

Oise é a França periférica. Inclui Senlis, uma bela e próspera comunidade-dormitório. Mas é também uma área afetada pela desindustrialização e a falta de um sistema de transporte adequado. Atravessando a estrada em frente ao acampamento dos coletes amarelos há um novo armazém da Amazon, que oferece empregos de logística e gestão de estoque. Esta era uma região de fábricas, de salários mais altos. 

O aeroporto Charles de Gaulle, de Paris - a menos de uma hora de carro ao sul - é o principal empregador da cidade atualmente. Creil, a 15 minutos de Senlis, é uma cidade pobre de 35 mil habitantes com muitos edifícios vazios no centro e projetos públicos de habitação que ocupam quarteirões. É ali que moram muitos seguranças do aeroporto e responsáveis pelo manuseio das malas. Não há linha de trem diretamente para o aeroporto, e os ônibus são raros. Assim, as pessoas recorrem aos carros. Evitar as estradas regionais, mais lentas, sai caro, pois o governo francês cedeu o controle dos pedágios a uma empresa privada anos atrás.

Da rotatória, vê-se um pedágio. Os Coletes Amarelos o invadiram em novembro - permitindo que os carros passassem sem pagar. “Pagamos pela construção das estradas com nossos impostos", disse Christophe Bartel, manifestante de 47 anos. “Agora esperam que paguemos uma fortuna a empresas privadas para podermos usar nossas estradas? É um escândalo. Estamos fartos.”

Claude Letranchant, 59 anos, rabiscou uma mensagem no seu colete amarelo: “A ecologia é apenas uma desculpa", referindo-se à argumentação ambiental para a aplicação do imposto sobre o combustível. “Sou um grande defensor do meio ambiente", disse Letranchant. “Todos aqui são.” Ele indicou os demais manifestantes com um gesto. “A declaração de Macron a respeito do imposto sobre o combustível foi meramente política", insistiu Letranchant.

Não há dúvida que Macron fez de si um alvo fácil para a frustração dos manifestantes. Todos acompanharam quando ele cortou impostos para empresas e para os mais ricos. Viram as empresas aéreas serem isentadas da cobrança do imposto de combustível, apesar de sua pegada de carbono desproporcional. Viram-se vinculados à promessa de um presidente alienado de respeitar os parâmetros de endividamento da União Europeia.

É também impossível separar a fúria diante do imposto sobre o combustível do custo dos imóveis, que aumentou muito em cidades como Paris, expulsando os trabalhadores para áreas onde a moradia é mais barata, mas o transporte público é muito pior. Como disse Guilluy: “Uma cidade como Paris se orgulha de ser uma sociedade aberta, mas, para essas pessoas, a situação se assemelha mais a um castelo medieval, um lugar fechado para os menos abastados, que se sentem invisíveis". / Pierre Desorgues contribuiu com a reportagem.

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