Meridith Kohut / The New York Times
Meridith Kohut / The New York Times

As esperanças estão se esvaindo na crise haitiana

Semanas de tumultos, somados à corrupção crescente e à disfunção da economia, provocaram aumentos vertiginosos dos preços, desintegração dos serviços públicos e sensação crescente de insegurança

Kirk Semple, The New York Times

23 de outubro de 2019 | 06h00

LÉOGÂNE, HAITI – O pequeno hospital estava às voltas com o problema do fornecimento de oxigênio, suficiente apenas por um dia, e precisava decidir a quem ministrá-lo: a adultos que se recuperavam de derrames ou aos recém-nascidos na ala neonatal. A crise política do Haiti gerou este horrível dilema - um dos inúmeros dramas de uma nação à beira do colapso.

O confronto entre o presidente Jovenel Moïse e um incipiente movimento de oposição que exige a sua saída levou a violentas manifestações com barricadas nas ruas de todo o país, criando uma emergência generalizada.

Imobilizados pela paralisia nacional, os funcionários do Hospital Sainte Croix foram obrigados a escolher quem deveria morrer e quem poderia viver. Felizmente, na última hora apareceu um caminhão carregado com 40 novos cilindros de oxigênio. O Arquidiácono Abiade Lozama, da Igreja Episcopal do Haiti, dona do Hospital, disse que "a cada dia, as coisas se tornam mais difíceis”.

Embora o país inteiro seja refém há anos de ciclos de crises políticas e econômicas,  muitos haitianos afirmam que a crise atual é pior do que todas as outras pelas quais já passaram. A vida que já era extremamente penosa aqui, piorou .

Semanas de tumultos no Haiti, somados a uma corrupção crescente e à disfunção da economia, provocaram aumentos vertiginosos dos preços, desintegração dos serviços públicos e a uma sensação crescente de insegurança. Nas últimas semanas, pelo menos 30 pessoas foram mortas nas manifestações, 15 delas pela polícia, segundo a ONU. “Não há mais nenhuma esperança neste país”, lamentou Stamène  Molière, de 27 anos, secretária desempregada, em Les Cayes. “Não há mais vida”.

Pobreza crônica

A escassez de gasolina se agrava dia a dia. Os hospitais reduziram os serviços ou fecharam. Os transportes públicos pararam. Empresas fecharam. A maioria das escolas está fechada desde o início de setembro, consequentemente milhões de crianças estão ociosas. As demissões em massa agravam a pobreza crônica. Muitos haitianos que dispunham de recursos fugiram, enquanto a maioria que permanece simplesmente tenta excogitar onde buscar sua próxima refeição.

A crise atual assinala o ápice de mais de um ano de violentos protestos, e o produto, em parte, dos problemas políticos que tomaram conta da nação desde que o empresário Moïse assumiu a presidência, em fevereiro de 2017, depois de uma eleição prejudicada por atrasos, acusações de fraude e um número de eleitores extremamente baixo.

A revolta causada pelas acusações de que o governo teria se apropriado de bilhões de dólares destinados a projetos  de desenvolvimento multiplicou o ímpeto dos protestos. Os líderes da oposição pediram a renúncia de Moïse. As manifestações se intensificaram no início de setembro, e pararam a capital Port-au-Prince. Moïse mantém uma atitude  desafiadora, afirmando que seria “irresponsável” renunciar.

Sem transportes públicos, Alexis Fritzner, de 41 anos, um segurança que ganha US$ 4 por dia, caminha 16 quilômetros na ida e na volta para trabalhar em uma fábrica em Port-au-Prince. Ele não recebe há mais de um mês, no entanto continua indo ao trabalho com medo de ser demitido. “Não há outras opções”, afirmou.

Les Cayes, a cidade mais populosa  do sul do Haiti, está sem comunicação com a capital. Ela sofreu um blecaute total por quase dois meses. A companhia de força e luz voltou a cortar a eletricidade no início deste mês, embora paulatinamente.

O arquidiácono Lozama, de 39 anos, que supervisiona uma paróquia em Les Cayes, disse que os manifestantes impedem que ele realize os serviços religiosos. “Não pudemos abrir as portas para que não queimassem a igreja”, disse. E os manifestantes de uma barricada tomaram um caminhão carregado de alimentos que o clérigo pretendia entregar a uma instituição de caridade. “Não há a quem recorrer”, lamentou. “Ninguém manda mais”.

Em uma recente visita a La Savane, um dos bairros mais miseráveis de Les Cayes, um jovem abriu a camisa e exibiu um ferimento à bala no ombro. Outro mostrou onde uma bala o atingiu na perna. Os dois acusaram a polícia.

Venise Jules, 55, faxineira de uma escola e mãe de Stamène Molière, a secretária, disse que toda a sua família votou em Moïse. “Ele disse que tudo mudaria”, afirmou. “Teríamos comida na mesa, e eletricidade 24 horas por dia; teríamos empregos para os nossos filhos e os salários aumentariam”.

Venise, três dos seus filhos e um primo moram em uma casa feita de pedra e barro. Eles precisam  buscar água em baldes de uma torneira pública, a várias quadras de distância. Cozinham com carvão – quando têm alguma coisa para cozinhar. “Não pus nada no fogo hoje”, ela disse. Venise está sem trabalho há semanas. O seu desespero a levou a pensar em suicídio.

Recentemente, ela estava sentada com Stamène, que começou a chorar silenciosamente. Ao vê-la em lágrimas, Venise começou a chorara também. “Não temos fome só de pão e água”, lastimou. “Temos fome de desenvolvimento no Haiti”. / HAROLD ISAAC E MERIDITH KOHUT CONTRIBUÍRAM PARA A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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