TYLER HICKS/The New York Times
TYLER HICKS/The New York Times

Crise humanitária no Iêmen piora em meio a impasse brutal

A guerra invisível da Arábia Saudita contra o Iêmen

Declan Walsh, The New York Times

28 de outubro de 2018 | 06h00

Um barulhento veículo de combate cruza os portões de um condomínio à beira da praia na costa do Mar Vermelho, no Iêmen, um complexo luxuoso, dotado de um candelabro de 6 metros e uma piscina coberta, atualmente utilizado como um movimentado hospital de campanha. Jovens combatentes pulam da caçamba e erguem um companheiro ferido, com o rosto coberto de sangue, e o levam à ala de emergência.

Um estilhaço de bomba tinha se alojado em seu olho direito. O combatente gemia de dor. "Por favor, Hameed", ele chama um colega de combate, com uma expressão de pânico. “Sinto a cabeça pesada."

A guerra liderada pela Arábia Saudita no Iêmen está em curso há mais de três anos, matando milhares de civis e criando o que a Organização das Nações Unidas qualifica como a pior crise humanitária do mundo. Mas foi necessária a crise em torno do aparente assassinato do dissidente Jamal Khashoggi em um consulado saudita em 2 de outubro para que o mundo reparasse na situação.

O jovem príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, investigado em razão do caso de Khashoggi, voltou a ser confrontado com sua implacável atuação na guerra do Iêmen - que representa ainda outro fiasco da política externa saudita e aplica uma catástrofe ao país mais pobre do mundo árabe.

Fora do Iêmen, a guerra vem sendo amplamente ignorada.

Os sauditas vetaram a presença de jornalistas no norte do Iêmen, cenário das piores atrocidades causadas pelos intensos ataques aéreos e de uma profunda crise de fome. O conflito é praticamente desconhecido pelos americanos, cujas Forças Armadas têm apoiado a atuação da coalizão liderada pela Arábia Saudita com informações, bombas e combustível, o que leva a acusações de cumplicidade dos Estados Unidos em possíveis crimes de guerra.

Desde junho, a guerra está centrada no Porto de Hudaydah, na costa do Mar Vermelho. Realizamos uma rara visita este mês ao campo de batalha nos acessos à cidade. Lá, vimos de perto a cara da guerra do lado dos iemenitas que estão combatendo e morrendo nela.

Em 2015, o príncipe Mohammed enviou aviões de combate para bombardear rebeldes houthi que tinham tomado o controle do oeste do Iêmen e que ele considerava representantes do Irã, o rival regional da Arábia Saudita.

Originalmente um movimento de guerrilha xiita do noroeste do Iêmen, os houthis chegaram ao poder em meio à turbulência que se seguiu à Primavera Árabe, de 2011. Depois de conquistar a capital, Sanaa, em 2014, eles assumiram o controle das três maiores cidades do Iêmen. O Irã auxiliou em seu avanço fornecendo equipamento militar, incluindo mísseis.

Desde 2015, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos lideraram uma aliança militar em uma guerra destinada a expulsar os houthis e reinstituir um governo com reconhecimento internacional no Iêmen. 

Os prognósticos iniciais de uma rápida vitória deram lugar, porém, a um sangrento impasse, enquanto a guerra impinge uma catastrófica pena aos iemenitas, incluindo uma crise de fome generalizada e a pior epidemia de cólera da história.

Em Hudaydah, a guerra entrou em um ritmo inconstante. Os combates chegam ao auge ao amanhecer e no fim da tarde, quando combatentes de ambos os lados disparam morteiros na linha do front. Minutos depois, caminhonetes freiam bruscamente diante do hospital de campanha, descarregando combatentes feridos - homens cobertos de poeira e sangue, cravejados de estilhaços ou abatidos por disparos de atiradores. Os civis vêm logo atrás: mães atingidas pelos ataques de morteiro, crianças gravemente desnutridas, idosos que perderam pernas em explosões de minas.    

               

Financiado pelo Crescente Vermelho dos Emirados Árabes Unidos, o hospital em Durayhimy tem um peculiar ambiente de caos controlado. Combatentes com fuzis pendurados nos ombros lotam a sala de emergência, demonstrando inquietação entre os médicos que trabalham para salvar as vidas de seus companheiros feridos. 

O médico plantonista Hazza Abdullah, de 34 anos, afirmou que apoiou a promessa de mudança em 2011, quando a Primavera Árabe varreu o Iêmen e a região. “Pensei que seria como a Revolução Francesa, que abriria portas”, disse. “Em vez disso, estamos enfrentando o inferno.”

O campo de batalha se espalha em forma de arco num arenoso deserto de fazendas esvaziadas. Lá, nós vimos caminhonetes carregadas de combatentes acelerando no deserto, desviando de fogo de atiradores e morteiros inimigos. Mais próximo à linha do front, combatentes vestidos com túnicas se agachavam atrás de barreiras de areia. Motores de aviões de combate zumbiam acima. Duas vacas atingidas no fogo cruzado apodreciam sobre a poeira.

Nos juntamos a um grupo de combatentes jihadistas para almoçar em seu alojamento, próximo à linha do frente. Lançadores de morteiros ficavam do lado de fora. Dentro, os combatentes se serviam de generosas porções de arroz e frango, liderados por um animado comandante com uma bandagem na testa, onde ele tinha sido atingido pelo disparo de um atirador de elite.

Com a tentativa de conquistar o porto de Hudaydah, a coalizão espera privar os houthis de milhões de dólares ao mês em impostos e forçá-los a se sentar na mesa de negociação. Mas Hudaydah também é a porta de entrada para uma nação faminta: três quartos das 28 milhões de pessoas do Iêmen dependem de alguma forma de ajuda humanitária, e a maior parte dos alimentos, remédios e materiais destinados à população civil passa pelo porto.

Sob intensa pressão internacional, a coalizão prometeu a representantes de governos ocidentais que manteria o combate fora da cidade e do porto. Agora, ambos os lados estão entrincheirados em posições nos limites da cidade.

Um front secundário se estende por cerca de 130 quilômetros em direção ao sul, onde os combates ocorrem em vilarejos remotos.

A ONU afirma que esse front secundário é a região mais mortífera para civis. Pelo menos 500 mil pessoas fugiram de suas casas, muitas delas forçadas a se alojar em precários campos de refugiados em cidades como Mokha, um pequeno porto que já foi famoso por suas exportações de café, e Khokha, próxima de lá.

Khokha se agita com o ar de lugar sem lei. Os combatentes perambulam no centro da cidade. A rua principal está congestionada por comboios militares a caminho do front. Refugiados, soldados e espiões houthi se misturam no mercado da cidade.

A ONU e a maioria das agências de ajuda humanitária do Ocidente classificaram a região como insegura para trabalhar. Uma exceção notável é a atuação dos Médicos Sem Fronteiras, que recentemente inauguraram um hospital em Mokha.

Para a maioria dos refugiados, a principal preocupação é a próxima refeição. No lixão municipal de Mokha, Thabet Bagash procurava por garrafas de vidro e latas de alumínio. Antes de os combatentes o expulsarem de casa, ele era fazendeiro. Agora, ele contou, isso era tudo que lhe restava. Se enchesse uma sacola de latas, ele talvez conseguisse 1,40 dólar - o suficiente para alimentar seus cinco filhos por alguns dias.

A apenas 130 quilômetros do lixão, dois salões no andar de cima do hospital de campanha bem poderiam parecer outro planeta. Em um deles, o Crescente Vermelho dos Emirados Árabes Unidos instalou uma nova e reluzente central de operações; no outro, uma UTI com seis leitos.

O equipamento médico, porém, está intocado. As autoridades não conseguiram encontrar equipes médicas para trabalhar ali - nem do Iêmen, nem dos Emirados Árabes Unidos.

Isso parece emblemático da maneira como os Emirados Árabes Unidos travam guerra: o país paga salários para os combatentes e os equipa com foguetes e veículos blindados que custam milhões de dólares. Mas seus generais direcionam o combate a partir da região relativamente segura de Aden, a maior cidade do sul do Iêmen, onde a maior parte dos estimados 5 mil soldados estrangeiros está sediada. Aviões e embarcações de combate dos Emirados Árabes Unidos destroem alvos em Hudaydah. Navios da marinha saudita também patrulham a costa de Hudaydah.

Mas, no front, é difícil encontrar soldados dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita. As bases da coalizão ao longo da estrada que beira a costa são vigiadas por recrutas sudaneses, muitos deles vindos de Darfur. No hospital de campanha, os mortos e feridos que vimos eram iemenitas.

Quando os amigos de Mohammed Kulaib o levaram para o hospital, já era tarde demais para ele. O rapaz de 20 anos tinha sido atingido por um disparo no peito. Após uma breve tentativa de ressuscitar o combatente, um médico o declarou morto.

O irmão de Kulaib, Yahya, vigiava o corpo na sala de emergência. Os irmãos eram parte da Resistência Tihama, cujos combatentes vêm da costa - uma das mais de 12 milícias iemenitas que lutam sob a bandeira da coalizão. Depois que os médicos saíram, Yahya Kulaib se debruçou sobre o irmão morto. Ele beijou sua testa, cobriu seu rosto com um cobertor cinza e depois amarrou gentilmente sua mortalha.

Apesar dos mais de 18 mil ataques aéreos da coalizão desde 2015, as linhas de frente continuam praticamente nas mesmas posições. No entorno de Hadaydah, os houthis instalaram minas terrestres em vastas áreas, em uma escala comparável somente ao que o Estado Islâmico fez na Síria e no Iraque, segundo a ONG Conflict Armament Research.

Os esforços da ONU para intermediar negociações de paz falharam. Ambos os lados consideram que têm mais a ganhar com a guerra, afirmou Gregory D. Johnsen, pesquisador da Arabia Foundation. "Anos de ataques aéreos não foram capazes de desalojar os houthis, e os líderes deles se sentem seguros agora", afirmou Johnsen. "Eles avaliam que podem esperar até que os sauditas se cansem."

Enquanto isso não acontece, parece provável que mais irmãos terão de enterrar irmãos antes que o conflito chegue ao fim.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.