Devin Yalkin para The New York Times
Devin Yalkin para The New York Times

Crise migratória inspira novo livro da mexicana Valeria Luiselli

'Lost Children Archive' explora a fúria da autora em relação à política de imigração dos EUA, onde vive há mais de 30 anos

Concepción De León, The New York Times

22 de fevereiro de 2019 | 06h00

Alguns dias antes do Natal, um grupo de aproximadamente 20 pessoas se reuniu na sala da romancista mexicana Valeria Luiselli enquanto alunos do centro educacional Still Waters in a Storm, de Nova York, se preparavam para apresentar um musical original adaptado a partir da obra de Miguel de Cervantes, Don Quixote.

As crianças trabalharam com o fundador do centro, Stephen Haff, para traduzir o livro do espanhol e compor canções reinterpretando a história com um coro de crianças imigrantes. Valeria, 35, estava ao lado da filha, Maia, 9. A autora e a filha choraram quando as crianças cantaram versos como "A inocência precisa de um lar".

As experiências de crianças solicitantes de asilo vindas da América Latina já preocupam Valeria há muitos anos, servindo como tema central de seu mais recente livro a respeito de uma família que atravessa os Estados Unidos viajando. Lost Children Archive é seu quinto romance, e o primeiro a ser escrito em inglês.

Quando começou a escrever Lost Children Archive, em 2014, ela teve dificuldade em usar a obra "como um megafone para toda a minha raiva política". Ela trabalhou em tribunais como intérprete voluntária para crianças refugiadas da América Latina e conhecia bem a crise de imigração.

A autora pôs de lado o romance e escreveu Tell Me How it Ends: An Essay in 40 Questions, uma meditação a respeito das histórias e circunstâncias que levaram as crianças aos EUA. O formato seguia o questionário que o tribunal pedia a ela que usasse ao entrevistar as crianças, e o livro esteve entre os finalistas do prêmio National Book Critics Circle Award in Criticism em 2017. 

Depois disso, ela disse que conseguiu voltar ao romance e oferecer "questões mais abertas, fins mais abertos em vez de posicionamentos políticos demasiadamente óbvios e estridentes em si".

"Sempre houve uma distinta aura de inteligência e brilhantismo em torno dela", disse Diego Rabasa, editor dos livros de Valeria pela Sexto Piso, selo independente da Cidade do México. "O que nos encantou foi a audácia de uma jovem autora que iniciava um caminho tão original".

Valeria caracterizou seu primeiro romance, Papeles Falsos, como um esforço para "escrever naturalmente no idioma materno". Ela sempre estudou em inglês e, como resultado, em se tratando do espanhol, afirma nunca ter tido o vocabulário das pessoas da sua idade. "Nada foi renovado com as gírias e o jeito de falar das ruas".

Ela deixou o México aos 2 anos de idade, quando o pai se mudou com a família para Wisconsin, a fim de concluir o doutorado. Dali, o trabalho do pai como diplomata os levou à Costa Rica, Coreia do Sul e África do Sul, onde chegaram em 1994, pouco após a eleição de Nelson Mandela. Nessa época, a mãe já tinha abandonado a família para se juntar ao movimento Zapatista no México.

 

"Venho de uma linhagem de mulheres matriarcais que sempre estiveram envolvidas com a política e a sociedade", contou, referindo-se também à avó, que trabalhava com povos indígenas em Puebla, México. Depois de frequentar o internato na Índia, ela decidiu voltar ao México e "se tornar mexicana", nas palavras dela. Aos 19 anos, matriculou-se na Universidade Nacional Autônoma do México para se formar em filosofia, e foi então que começou a escrever.

A romancista argentina Samanta Schweblin descreve a visão de Valeria como uma mistura entre as visões de mundo latino-americana e norte-americana. "As duas visões são simultaneamente nostálgicas, críticas, carinhosas e dolorosas", escreveu ela num e-mail recente.

"Valeria pertence a ambos os territórios e, assim, compreende seus sinais, mas, ao mesmo tempo, parece sempre entender a si mesma como estrangeira", disse Samanta.

Lost Children Archive foi em parte a resposta de Valeria ao ver a filha tentando interpretar a crise de imigração. Ela debate os assuntos com a filha "de uma forma que não seja assustadora - possibilitando que ela encontre o equilíbrio certo entre uma espécie de indignação e a clareza para imaginar mudanças possíveis".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.