Meridith Kohut para The New York Times
Meridith Kohut para The New York Times

Crise na fronteira dos EUA leva contrabandistas a subirem preços

Os imigrantes pagam até US$ 7 mil para serem transportados de Reynosa, no México, até McAllen, no Texas

Azam Ahmed, The New York Times

27 de janeiro de 2019 | 06h00

REYNOSA, MÉXICO - Com os traficantes de seres humanos atuando nas rodoviárias, nos abrigos para imigrantes e nas tortuosas ruas dessa cidade de fronteira mexicana, eles têm facilidade na busca por clientes como Julian Escobar Moreno.

O imigrante hondurenho chegou a Reynosa, México, com a intenção de pedir asilo nos Estados Unidos. Mas as novas políticas de imigração ao norte da fronteira o levaram às mãos dos cartéis de contrabandistas, cujos negócios estão prosperando.

"Sinceramente, não era meu plano fazer a travessia ilegalmente, mas parece que não tenho escolha", disse Moreno, 37 anos. O governo Trump adotou uma série de estratégias nos dois anos mais recentes para dissuadir os imigrantes. 

A tentativa mais recente é uma política que aceita apenas um pequeno número de solicitantes de asilo por dia, se tanto, nos postos de controle da fronteira. Agora, os imigrantes passam semanas ou meses aguardando do lado mexicano da fronteira antes de poderem apresentar suas solicitações.

Os atrasos estão levando muitos imigrantes a pensar numa opção mais rápida: contratar um contrabandista, a um custo cada vez mais alto, para ajudá-los a entrar ilegalmente nos EUA. "O que observamos é que ninguém mais cruza a fronteira", disse Hector Silva, diretor de um centro de imigrantes perto das margens do Rio Grande, que separa Reynosa de McAllen, no Texas. "Isso obriga as famílias desesperadas a tentar a via ilegal."

A decisão de suportar uma longa espera ou acelerar a jornada rumo aos EUA é tomada não apenas em Reynosa, onde o som de disparos já se tornou trilha sonora da cidade, mas em toda a fronteira dos EUA com o México, até Tijuana, onde uma crise em andamento envolve milhares de centro-americanos esperando para atravessar.

De acordo com os imigrantes e as autoridades locais, o preço cobrado pelos contrabandistas está aumentando com a procura pelos seus serviços. É fácil encontrar contrabandistas em Reynosa; as ruas estão repletas de agentes dos cartéis de contrabando, que oferecem abertamente o seu trabalho.

Os perigos de uma travessia ilegal não são suficientes para dissuadir os imigrantes. O cálculo tem como base uma verdade simples: aquilo que eles estão deixando para trás é pior do que pode haver pela frente.

"Não tenho escolha, não posso voltar para lá", disse Moreno a respeito do próprio país, Honduras. "Nosso governo é totalmente corrupto, e se os mexicanos ou americanos me deportarem, sou um homem morto."

Osman Noe Guillén, 28 anos, chegou a Reynosa com a companheira pouco depois de se casarem, tratando a viagem de ônibus desde Honduras como uma espécie de lua-de-mel. "Já sabemos qual é a situação no nosso país, mas não sabemos o que vai acontecer se atravessarmos a fronteira americana".

A fé cega e a necessidade econômica foram suficientes para Guillén e a mulher, Lilian Marlene Menéndez. Eles não sabiam o quanto Reynosa era deprimente e perigosa, mas sabiam que era o ponto de travessia mais próximo de Honduras e, portanto, o mais barato de se alcançar.

Os dois já tinham ouvido a virulenta retórica contra os imigrantes vinda dos EUA e sabiam das deportações e longas esperas na fronteira, mas não se importavam com nada disso. "O desespero nos leva a cometer loucuras", disse Guillén. "Acho que nada conseguiria me deter. Certamente não um muro."

O casal disse aceitar o risco de seguir viagem. Os contrabandistas, ou polleros, são conhecidos por matar ou abandonar imigrantes que atrasam o pagamento, extorquindo seus parentes, que podem hipotecar imóveis e juntar mais dinheiro.

O casal recebeu a oferta de uma travessia por US$ 7 mil cada, que os levaria simplesmente até a margem texana do rio. O valor parece alto: recentemente, muitos centro-americanos atravessaram pagando US$ 5,5 mil cada. Não faz muito tempo, o valor praticado era US$ 4 mil.

A prefeita de Reynosa, Maki Esther Ortiz Dominguez, destacou que sua cidade já era uma das mais perigosas do México. Ela se disse preocupada com a possibilidade de uma piora na já deteriorada segurança em Reynosa. "A qualquer momento, essa política pode levar à eclosão de uma onda de crimes na cidade", disse a prefeita Ortiz Dominguez.

Os mexicanos também recorrem aos contrabandistas, mas, para eles, o custo é mais baixo - o valor cobrado parece depender da gravidade da situação no país de origem de um imigrante. Num dia recente, num gabinete de imigração em Reynosa, um grupo de mexicanos aguardava processamento depois de terem sido deportados dos EUA.

"Para as autoridades de imigração, é apenas um emprego", disse Melvin Gómez, 18 anos, do Estado de Chiapas. "Para os mexicanos e centro-americanos, a imigração é um sonho." Na véspera, Gómez tinha tentado cruzar a fronteira pela quarta vez. "Temos um objetivo na vida, e isso nos ajuda a seguir em frente", afirmou.

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