Filippo Monteforte/Agence France-Presse-Getty Images
Filippo Monteforte/Agence France-Presse-Getty Images

Crise na Itália agrava risco de uma recessão profunda na Europa

Os populistas italianos são considerados culpados por espalharem a incerteza, já que adotaram uma política de gastos tida como irresponsável

Jack Ewing e Jason Horowitz, The New York Times

12 de fevereiro de 2019 | 06h00

A Itália entrou oficialmente em recessão, e a Europa se encontra essencialmente em um impasse econômico, intensificando os temores de que o mundo esteja à beira de uma desaceleração de grandes proporções.

O péssimo desempenho da economia italiana, divulgado no dia 31 de janeiro pelas agências oficiais de estatística, provavelmente agravará as relações entre a Comissão Europeia e o governo populista da Itália, que adotou uma política de gastos amplamente considerada como irresponsável. O continente já  está às voltas com o Brexit.

Ao mesmo tempo, a economia da China reduziu o seu ritmo, em parte em razão da guerra comercial do presidente Donald Trump. O relatório permitiu ter uma ideia de quanto China e Europa estão interligadas, e quão vulnerável esta situação deixa a zona do euro.

Na Itália, o ônus da dívida é um dos maiores do mundo. Uma crise prolongada aumentaria o risco de uma moratória, com repercussões globais. No passado, o Banco Central Europeu já socorreu a Europa, e a Itália em particular, mas atualmente tem menos possibilidade de fazê-lo. 

O banco está reduzindo gradativamente suas compras de títulos do governo, medida de estímulo que contribuiu para garantir que houvesse compradores da dívida italiana. "Temos um impulso econômico mais fraco e ao mesmo tempo o BCE está saindo do mercado", afirmou Katharina Utermöhl, economista da seguradora alemã Allianz. "Isto significa que há menos espaço para erros de estratégia."

Giuseppe Conte, o primeiro-ministro italiano, não chegou a tranquilizar os seus parceiros europeus quando afirmou que o revés econômico nada tem a ver com o seu governo. "Não estou minimamente preocupado", afirmou Conte, e definiu a recessão como "temporária".

Ele atribuiu à guerra de tarifas entre os Estados Unidos e a China o fato de ter prejudicado a Alemanha, o parceiro comercial mais importante da Itália, afirmando que com isto "todos nós acabaremos perdedores".

A economia italiana recuou 0,2% no quarto trimestre de 2018 em comparação com o terceiro, informou o Istat, a agência italiana de estatísticas. Foi o segundo trimestre de uma série de declínios da produção econômica. Esta é a terceira recessão da Itália desde 2008.

O crescimento na zona do euro foi de apenas 0,2% no quarto trimestre, em comparação com o terceiro, segundo a agência de estatísticas da União Europeia. Este patamar se equipara ao do trimestre anterior, e, dada a sua debilidade, poderia ter sido o pior, não fosse pela Espanha e França.

De fato, a economia da Espanha cresceu a um ritmo inesperadamente forte, subindo 0,7% no quarto trimestre, em comparação ao terceiro. E na França, onde o governo luta com os protestos da população em razão das dificuldades econômicas, o crescimento foi de 0,3%.

Os economistas concordam com Conte em um ponto: os problemas da China pesam para a Europa. Durante os últimos dez anos, a Europa aproveitou o impulso da China para modernizar sua infraestrutura. A China se equivale aos Estados Unidos como cliente de maquinário pesado da Alemanha, como guindastes, máquinas têxteis ou equipamento para siderúrgicas, e para companhias como a Volkswagen, o país se tornou uma prioridade.

Os críticos do governo italiano atribuem o mau desempenho do país à sua política econômica. Já os economistas afirmam que a aliança populista semeou grandes incertezas, e levou boa parte dos italianos a gastar menos. O declínio dos gastos com o consumo foi um fator preponderante no recuo da economia.

Depois de uma prolongada disputa com Bruxelas, no ano passado, o governo da Itália aumentou os gastos com programas mais amplos para o bem-estar e com aposentadorias generosas. O governo, somando o seu primeiro orçamento, assegurou a Europa de que o seu crescimento seria maior do que o estimado pelos especialistas, mas bloqueou projetos de infraestrutura que poderiam estimular a economia.

Segundo alguns, os problemas econômicos talvez sejam a única maneira para afugentar os maus presságios lançados pelos populistas italianos. Mas outros advertiram que a economia problemática contribuiu para criar condições que alimentaram a ascensão de partidos extremistas.

O governo italiano não perdeu tempo e culpou os seus antecessores. "Os dados apresentados pelo Istat  hoje mostram uma coisa fundamental, que os que estavam no governo antes de nós mentiram", afirmou Luigi Di Maio, ministro do Desenvolvimento Econômico da Itália. "Eles nunca nos tiraram da crise." Conte foi igualmente claro: "Precisamos nos concentrar no relançamento da nossa economia e isto acontecerá, com certeza, em 2019", ele disse.

 

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