Finbarr O’Reilly para The New York Times
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Crise no sul do Saara se torna a guerra eterna da França

Mais de 10 mil africanos ocidentais morreram, mais de um milhão tiveram que deixar seus lares, e forças da África Ocidental e da França sofreram baixas

Ruth MaClean, The New York Times

03 de abril de 2020 | 06h00

FLORESTA AWAGATE, MALI — Durante dois dias, dezenas de veículos armados trazendo 180 membros da Legião Estrangeira cruzaram a savana da África Ocidental para alcançar um suposto esconderijo de militantes islâmicos. Finalmente, viram um suspeito de turbante e chinelo, carregando uma AK-47, que saiu correndo imediatamente.

Os soldados encontraram apenas a arma, as botas e o cinto de munição dele sob uma cerca de espinhos. “Um resultado um pouco modesto", disse o coronel Colonel Nicolas Meunier, oficial comandante do grupo. Quando a França enviou suas forças ao Mali, ex-colônia francesa, depois que islamistas armados assumiram o controle das cidades do norte do país, sua missão deveria durar semanas. Isso foi há sete anos.

Desde então, a ameaça terrorista se espalhou para as terras ao sul do Saara, região conhecida como Sahel, e a luta da França teve que acompanhar essa expansão. Mais de 10 mil africanos ocidentais morreram, mais de um milhão tiveram que deixar seus lares, e forças da África Ocidental e da França sofreram baixas.

Ainda assim, a batalha continua. O Estado Islâmico do Grande Saara, grupo que mantém laços com o Estado Islâmico, tem realizado ataques na região fronteiriça de Mali, Níger e Burkina Faso. Nos quatro meses mais recentes, os militantes atacaram quatro importantes entrepostos militares no Mali e no Níger, matando 300 soldados.

A França se vê agora encalhada no Sahel, mais ou menos como ocorreu com os Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque — investindo anos de esforços e bilhões de dólares sem nenhum desfecho no horizonte. Antes de uma reunião de cúpula emergencial com presidentes da África Ocidental em janeiro, o presidente francês Emmanuel Macron ameaçou trazer suas tropas de volta para casa. Posteriormente, prometeu mobilizar outros 600 soldados para se juntarem aos 4,5 mil já na região.

Também se comprometeu a trabalhar mais proximamente com os exércitos dos países africanos para prepará-los para rechaçar ataques. Mas a tarefa é imensa. Os aliados são divididos por idioma, cultura e nível de experiência. Em um acampamento militar francês nos arredores da cidade antiga de Gao, 15 soldados malineses eram instruídos por aviadores franceses a transmitir orientações corretas pelo rádio. A missão dos malineses era guiar um suposto piloto de caça ao suposto reduto dos terroristas.

A maioria nunca tinha visto uma bússola antes, e o grupo errou repetidas vezes ao passar as orientações necessárias. Recentemente, a União Africana disse que enviaria três mil soldados ao Sahel, e a França vem tentando recrutar novos aliados; Estônia e República Checa concordaram em enviar suas forças.

Mas o governo Trump pensa em retirar as tropas americanas e fechar uma nova base aérea de US$ 110 milhões no Níger. Oficiais do exército francês no Mali e no Níger se disseram preocupados com a perda dos US$ 45 milhões anuais em transporte, reabastecimento e drones da contribuição americana à missão francesa, que custa um bilhão de dólares ao ano.

Mas o general Pascal Facon, comandante da missão francesa, disse que os exércitos europeus e africanos poderiam “facilmente” vencer o Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS). Diferentemente do Estado Islâmico no auge do seu poder na Síria e no Iraque, o EIGS não controla territórios e não tem raízes nas comunidades locais, disse “Não devemos subestimá-los. Mas tampouco devemos dar-lhes demasiada importância".

As forças francesas chegaram em resposta a um pedido do governo do Mali, mas pouco interagem com os civis. Soldados franceses circularam uma família de mulheres nômades que armavam ou desarmavam sua cabana. A família estava chegando ou partindo? Por que se deslocava?

Eles não podiam perguntar. Não falavam a mesma língua. Um militante poderia matar a família se conversassem com eles. Mais de 720 jihadistas foram mortos, além de 44 soldados franceses. Ocorreram protestos contra a França no Mali. Não se sabe ao certo quando a França vai considerar sua missão cumprida.

“Assim como os programas franceses de TV e a música pop estão 15 atrás dos EUA, as operações francesas de combate ao terrorismo imitam as americanas de 15 anos atrás", disse Hannah Armstrong, analista do International Crisis Group. “No Sahel, os americanos já perceberam que não se pode vencer essa guerra.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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