Todd Spoth para The New York Times
Todd Spoth para The New York Times

Crise põe em risco 'máquina de dinheiro' da Venezuela nos EUA

As imensas dívidas do país podem levar à perda do controle da refinaria Citgo, hipotecada para captação de recursos

Clifford Krauss, The New York Times

15 de outubro de 2018 | 06h00

LAKE CHARLES, LOUISIANA - O canal do Calcasieu River é um paraíso para os pescadores de trutas pintadas. E é também uma passagem vital para o petróleo venezuelano. Petroleiros carregados de óleo bruto venezuelano navegam até a refinaria da Citgo, enquanto outros que transportam combustíveis processados na refinaria local descem para o Golfo do México para a entrega à Venezuela.

O trânsito nos dois sentidos torna a refinaria a tábua de salvação para o governo do presidente Nicolás Maduro. Este papel agora está sendo ameaçado. Subsidiária da companhia Petróleos de Venezuela controlada pelo governo, a Citgo foi hipotecada para captar recursos.

A produção de sua controladora, conhecida como PDVSA, está seriamente comprometida. Ela luta para, nos próximos meses, fazer frente a pagamentos de um total de mais de US$ 1 bilhão devidos por seus títulos e outras obrigações, como a compensação pela propriedade que estatizou. As sanções impostas pelos Estados Unidos dificultam tremendamente sua capacidade de tomar empréstimos.

Se a PDVSA deixar de pagar, a Citgo, que é sua garantia, vai se tornar uma presa fácil. Ela ficaria vulnerável a uma aquisição (takeover) pelos credores, pois há outras companhias petrolíferas ou investidores de private equity que estão de olho na oportunidade de abocanhar uma participação.

"A perda da Citgo seria o golpe de misericórdia para a PDVSA", disse Gustavo Coronel, ex-integrante do conselho de direção da controladora. "O impacto psicológico para a PDVSA e para o regime de Maduro seria uma catástrofe".

Também representaria uma reviravolta crucial para uma marca cuja identidade americana é muito anterior à sua relação com a Venezuela. De fato, seu nome icônico está em 5.300 postos de gasolina e domina o campo de beisebol de Fenway Park, em Boston.

Embora tenha sido adquirida pela PDVSA há 30 anos, a Citgo gosta de se projetar como uma companhia americana. Fundada como Cities Service há mais de um século em Oklahoma, ela tem 6 mil funcionários e empreiteiras em tempo integral nos Estados Unidos.

Sua gigantesca refinaria em Lake Charles e outras no Texas e Illinois produzem cerca de 4% dos produtos derivados de petróleo dos EUA. Mas a Citgo é ainda mais fundamental para a Venezuela. Ela importa diariamente 175 mil barris de petróleo bruto venezuelano - cerca um em cada cinco barris que o país exporta no mundo inteiro, proporcionando ao governo os dólares de que precisa desesperadamente.

"A Citgo é a máquina de fazer moedas fortes para a Venezuela", disse Ramón Loureiro da empresa de consultoria KBC Advanced Technologies.

Diversos diretores executivos da Citgo, que envia diariamente 29 mil barris de combustível para a Venezuela, foram presos desde o fim do ano passado e estão à espera de um processo no qual terão de responder por acusações de corrupção. O visto americano de Asdrúbal Chávez, diretor-executivo da Citgo e primo do ex-presidente Hugo Chávez, foi revogado e ele é obrigado a dirigir as operações por videoconferência.

Há ainda a ameaça representada pela dívida da PDVSA. Este mês, a Venezuela precisa pagar mais de US$ 840 milhões de dólares a detentores de títulos da PDVSA com vencimento em 2020. Uma moratória levaria a uma execução da garantia dos títulos, 50,1% das ações da companhia da Citgo Holdings, uma das duas controladoras da Citgo. Logo, os credores poderão exigir que os pagamentos sejam acelerados. A petrolífera russa Rosneft, que detém os outros 49,9% da Citgo Holdings como garantia de um empréstimo à PDVSA, também poderá pedir o pagamento, embora seja improvável que Washington o permita.

Em novembro, a companhia terá de conseguir US$ 500 milhões para um primeiro pagamento à ConocoPhillips, porque os árbitros decidiram por um pagamento de US$ 2 bilhões pela estatização das instalações da Conoco.

Além disso, um juiz federal autorizou a Crystallex, uma mineradora canadense agora extinta, a confiscar ações da PDVSA Holdings, a outra controladora que é formalmente a dona da Citgo, como pagamento por um prêmio de US$ 1,4 bilhão pelo confisco por parte do governo de uma mina na Venezuela.

Ao todo, foram confiscados pelo governo ativos no valor de US$ 17 bilhões de companhias estrangeiras de petróleo, mineração e indústrias desde que Hugo Chávez tomou o poder, nos anos 1990.

Analistas jurídicos e do setor de energia afirmam que os tribunais podem leiloar ações da Citgo a outras petrolíferas americanas e usar os rendimentos para pagar os reembolsos exigidos. Os lucros da refinaria são sólidos, e uma companhia como a Valero poderia tentar uma aquisição.

Segundo executivos, a Citgo ainda ganha dinheiro e está em dia com o pagamento de seus títulos. Os trabalhadores da Citgo nos EUA afirmam que o tumulto não os distrai de suas funções.

"Nós cuidamos de ferver o óleo. E enquanto o fervermos e ganharmos dinheiro, esta companhia sobreviverá", disse o supervisor de manutenção Craig Barber.

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