Zinyange Auntony para The New York Times
Zinyange Auntony para The New York Times

Crise no Zimbábue alimenta fúria em novo gênero musical

Zimdancehall, um parente distante do reggae, virou 'arma cultural' de opositores do governo local

Patrick Kingsley, The New York Times

14 de setembro de 2019 | 06h00

HARARE, ZIMBÁBUE - Antes mesmo de Winky D ter pisado no palco, uma multidão arremessava uma chuva de lixo, forçando o cantor a escapar. Era véspera de Natal, e o show tinha acabado antes mesmo de começar. Os agressores nunca foram pegos, mas dois outros artistas disseram que eles tinham chegado em carros pertencentes ao partido do presidente Emmerson Mnangagwa. O ataque foi visto como uma tentativa de censurar e punir um artista cujo single mais recente tinha se tornado um hino dos opositores de Mnangagwa.

O Zimbábue desce ladeira abaixo desde a queda de Robert Mugabe, que foi substituído por Mnangagwa em um golpe ocorrido em novembro de 2017 e morreu em 6 de setembro, aos 95 anos. A história desse declínio pode ser contada por políticos, ativistas defensores de direitos humanos e economistas. Mas ela também pode ser narrada pelas letras do Zimdancehall, um parente distante do reggae, e por meio das experiências de cantores como Winky D, que o tornaram o som predominante nas ruas.

Os artistas de Zimdancehall têm cantado há muito tempo a respeito das dificuldades que os jovens enfrentam. Suas canções relatam violência, pobreza, apagões de eletricidade, racionamentos de água e aumentos nos preços da comida. Mas alguns deles passaram a expressar um descontentamento velado com o governo de Mnangagwa, parte de uma desilusão generalizada com a transição pós-Mugabe.

“A gente sente como o Zimbábue está, com todas as contradições, quando escuta essas canções”, afirmou Tanaka Chidora, professor de literatura da Universidade do Zimbábue. Após o governo da minoria branca terminar, em 1980, o Zimbábue foi governado 37 anos por Mugabe. Uma vez um ícone para muitos africanos, ele se tornou cada vez mais despótico, perseguindo a minoria Ndebele, arrancando terras de proprietários brancos e levando a economia à ruína.

Sob Mnangagwa, um ex-protegido de Mugabe, o Zimbábue se saiu um pouco melhor. Em agosto de 2018, os militares dispararam contra opositores, matando seis pessoas e pondo fim à esperança de que ele poderia ser um antídoto ao autoritarismo de Mugabe. Essa sensação de obscurantismo se refletiu no Zimdancehall.

“Tudo que eu sempre quis foi liberdade”, cantou Poptain, um astro em ascensão, em sua canção Freedom (Liberdade), lançada em setembro de 2018. “Em vez disso, ganhamos 'desgraça gratuita’ (free doom).” Em janeiro, o exército lançou um onda de repressão violenta que deixou 17 manifestantes mortos, 16 estuprados, 26 sequestrados e mais de 900 presos, de acordo com grupos de defesa dos direitos humanos. Em fevereiro, uma canção de Zimdancehall de Tocky Vibes, Zvitori Nani, ou É melhor, mencionava os eventos.

“Agora estou xingando os soldados”, cantou ele em xona, uma das duas principais línguas faladas no Zimbábue. “Eles espancam a gente diariamente, dizendo que são ordens dos chefes.” Os zimbabuanos ficaram cada vez mais furiosos com apagões diários, cortes no abastecimento de água e escassez de combustíveis - e também pelas restrições aos seus direitos. Em julho, sua fúria foi refletida por Lady Squanda, uma das principais vozes femininas do Zimdancehall.

“Estamos cansados, para nós já basta”, cantou ela na canção Kuchaya Mapoto ou Batendo lata. “Estamos cansados deste governo, precisamos de um novo." Apesar de o Zimdancehall falar sobre o momento político atual, o gênero musical emergiu de um contexto anterior. 

Enquanto Mugabe se tornava cada vez mais um autocrata no início dos anos 2000, seu governo proibiu as estações de rádio de transmitir a maior parte da música estrangeira. Para preencher esse vazio, as rádios favoreciam frequentemente músicos zimbabuanos cujo trabalho derivasse de gêneros estrangeiros. Com o tempo, esses artistas locais começaram a se ramificar, os DJs ficaram mais dispostos a tocar mais trabalhos experimentais, e o público, mais aberto a ouvir.

“Isso criou uma geração antenada na vibe local”, afirmou Wallace Chirumiko, que, como Winky D, foi um dos primeiros artistas a infundir gêneros estrangeiros com sabores locais. O Zimdancehall apareceu inicialmente como uma derivação do Dancehall jamaicano. “O R&B não tem relação com a vida que levamos nos guetos”, afirmou Stephen Kudzanai Mamhare, um astro de Zimdancehall mais conhecido por seu nome artístico, Enzo Ishall. “Mas Winky D fala da vida que nós conhecemos.”

Tamanho é o controle do governo, porém, que até esses artistas cuja música parece crítica ao governo estão receosos de rotulá-la dessa maneira. Em entrevistas separadas, Tocky Vibes e Poptain negaram que suas canções tenham como foco o governo. Winky D negou que suas canções tenham qualquer conteúdo político.

“Acho que ele está assustado”, afirmou Sandra Gazi, que se apresenta como Lady Squanda. Ela foi a única a admitir a natureza política de seu trabalho. “Há artistas que mandam indiretas, mas acho que está mais do que na hora de falarmos abertamente”, afirmou ela. “Precisamos de um novo governo”, acrescentou Gazi. “Não aguentamos mais este.” Jeffrey Moyo e Tendai Marima colaboraram com reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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