Jovelle Tamayo/The New York Times
Jovelle Tamayo/The New York Times

Ilustrando a experiência da mulheres americanas de origem mista através da arte

'Minha missão é contar histórias de negros que precisam lutar para ser vistos e ouvidos', diz a artista negra e mexicano-americana Cristina Martínez

Sandra E. Garcia, The New York Times - Life/Style

18 de outubro de 2020 | 05h00

Cristina Martínez pinta as mulheres como se fossem flores. Em suas representações em tons brilhantes, a cabeça paira sobre o corpo e se inclina, como uma flor pesada demais para o caule. Muitas vezes, elas usam vestidos vibrantes com manchas de tinta que imitam lantejoulas; a cor da pele delas é de terracota molhada, semelhante à tonalidade das mulheres negras que criaram a artista.

"Às vezes, você floresce, às vezes murcha, às vezes tem de colocar um pouco de água em si mesmo. O ano de 2020 tem sido demais para todo mundo", disse Martinez, de 33 anos, em uma entrevista por telefone. Como muitos outros artistas, Martinez enfrentou a pandemia do novo coronavírus e as ondas de agitação social deste ano do melhor jeito que ela conhece: captando toda a vulnerabilidade que o momento expôs e colocando-a em suas telas.

Ela tem um objetivo muito específico: iluminar a experiência de origem mista da mulher americana. Em outras palavras, Martinez, que é negra e mexicano-americana, espera que suas imagens de mulheres – com diferentes tons de pele negra, representando intermináveis camadas de identidades e de culturas – façam com que seu público, que inclui mais de cem mil seguidores no Instagram, sinta essas mulheres.

Ou se torne mais consciente da vida das mulheres ao seu redor. "Sei o que é sentir que não sou suficientemente mexicana para meu lado mexicano ou negra o bastante para os negros, mas não vou escolher", afirmou Martinez. Os americanos de origem mista tem sido historicamente alvo de difamação nos Estados Unidos.

Em 1915, durante o fim da onda de imigração que levou 15 milhões de pessoas ao país, o ex-presidente Theodore Roosevelt disse em um discurso que não havia espaço no país para americanos de origem mista, porque identidades mistas indicavam uma lealdade perigosa a solo estrangeiro. (O presidente na época, Woodrow Wilson, concordou, declarando em 1919 que "qualquer homem que carregue uma origem mista com ele, carrega uma adaga e está pronto para cravá-la nos órgãos vitais desta República".)

Em 2015, Bobby Jindal, então governador da Luisiana e candidato à Presidência, deu voz ao mesmo sentimento em um anúncio de televisão que criticava de modo implícito os imigrantes, dizendo: "Estou cansado de americanos de origem mista." Mas a maioria dos americanos, por definição, é de origem mista. Aqueles que são incapazes de esconder sua alteridade são lembrados disso todos os dias. Martinez quer que sua arte abrace essa realidade.

Ela faz parte de um grupo de artistas latinos que está usando sua diversidade para criar arte baseada nos fatos da atualidade, informou Gabriela Urtiaga, curadora-chefe do Museu de Arte Latino-Americana em Long Beach, na Califórnia. "A arte é necessária para criar uma sociedade diversa, e Cristina representa essa necessidade. O poder de seu trabalho está na linguagem que ela usa, combinando as raízes do trabalho abstrato e também a arte muralista com uma mistura de juventude e de design", comentou Urtiaga. Ao abandonar a escola de arte, Martinez encontrou um público receptivo e animado por meio das redes sociais.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Commission piece by me & Al-Baseer Holly for @noigsmoove & his ❤️. 2 sides. 36x48 on canvas.

Uma publicação compartilhada por Cristina Martinez (@sew_trill) em

"O que adoro no Instagram é que posso ter um momento muito íntimo com minha arte. Mas, quando decido compartilhá-la com o mundo, imediatamente leio como ela faz os outros se sentirem", revelou. Sua popularidade nas redes sociais a levou a projetos com grandes marcas, incluindo Vaseline e Nike.

Ela criou trabalhos de arte para as cantoras Ciara, H.E.R. e Jojo. E tem sido prolífica durante a pandemia: no meio da quarentena, Martinez fez 15 pinturas em seu estúdio em Seattle. Depois que George Floyd foi assassinado sob custódia policial, a artista arrecadou US$ 20 mil para o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) com a venda de uma reprodução que ela chamou de "BLM Keep Blossoming", que tem a intenção de servir como lembrete para "que negros continuam florescendo", de acordo com sua legenda no Instagram.

Ela pintou um mural no 79° andar do World Trade Center 3, de mulheres com tez, altura e textura de cabelo variadas, em frente a um fundo azul-escuro pervinca. Os pescoços são sustentados por caules de flores Kelly Green. Em uma entrevista, Martinez disse que as crises que envolveram o país este ano a levaram a refletir, especialmente sobre como elas se sobrepuseram para os americanos de origem mista.

O novo coronavírus afetou desproporcionalmente os 60 milhões de hispânicos e latinos que vivem nos Estados Unidos, de acordo com um relatório da empresa de consultoria McKinsey & Co. Os hispânicos e os latinos têm três vezes mais probabilidade do que os brancos de contrair covid-19, encontram mais dificuldades quando procuram por tratamento e têm registrado uma taxa de desemprego mais elevada durante a pandemia, em comparação com os afro-americanos e os brancos.

"Isso definitivamente influencia meu trabalho e faço tudo que posso. Minha missão é contar histórias de negros que precisam lutar para ser vistos e ouvidos", afirmou a artista, acrescentando que já viu isso em ambos os lados de sua família. Martinez contou que, à medida que seu público vem crescendo, ela também tem vendido mais da sua arte aos brancos.

E isso torna sua missão de criar arte sobre e para negros ainda mais pertinente. "Ter um público branco me permite saber que, mesmo que ele não se identifique com as histórias que estou contando, existe um nível de compaixão ou uma vontade de entender. Essa é minha contribuição. Não posso mudar o mundo, mas posso começar a mudar por meio da minha arte".

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