Ksenia Ivanova para The New York Times
Ksenia Ivanova para The New York Times

Críticas a ex-líder russo atrai visitantes a museu em sua homenagem

O menosprezo a Boris Iéltsin atraiu mais de 700 mil visitantes, ao longo dos últimos três anos, ao centro que leva seu nome

Andrew Higgins, The New York Times

14 de fevereiro de 2019 | 06h00

YEKATERINBURG, RÚSSIA - O presidente da Rússia, Vladimir V. Putin, estigmatizou estes anos como um período de caos, de crimes e de "pobreza total". Agências de notícias controladas pelo Kremlin criticam asperamente o que chamam de "os loucos anos 1990" como uma época de humilhação pessoal e vergonhosa debilidade nacional.

Entretanto, todos os abusos beneficiaram de maneira inesperada o Centro Presidencial Boris Iéltsin, um belo santuário na fronteira com a Sibéria, dedicado ao difamado antecessor de Putin e aos turbulentos anos durante os quais ele esteve no poder - do colapso da União Soviética em 1991, até o final de 1999.

"Estou feliz por criticarem constantemente os anos 1990", disse Alexandr Drozdov, diretor-executivo de uma fundação privada que supervisiona o centro Iéltsin, um museu e o complexo de arquivos dedicado ao primeiro presidente eleito da Rússia, e, segundo as pesquisas de opinião, em grande parte abominado pela população. "Eu digo, 'continuem criticando, por favor não parem'".

O menosprezo que visava Iéltsin e sua era contribuíram para emprestar um grande apelo ao complexo, e para atrair mais de 700 mil visitantes desde que foi inaugurado, há quase três anos. O local se tornou, talvez, o posto avançado mais conhecido da Rússia e com certeza o mais ricamente equipado da sua história alternativa. 

O complexo - situado nas proximidades de um lago em Yekaterinburg, cidade industrial onde Iéltsin viveu grande parte da sua vida e onde o czar Nicolau II e sua família foram assassinados pelos bolcheviques - é uma vitrine de como a Rússia mudou para melhor com Putin. O lugar resplandece, é moderno, com requintes de alta tecnologia.

Mas no fundo, o complexo é um réquiem para muitas coisas que se perderam desde que Iéltsin deixou o governo, no dia 31 de dezembro de 1999, e entregou o poder ao seu sucessor eleito, Putin, com as palavras "cuide da Rússia".

Segundo Drozdov, Iéltsin "ficaria muito decepcionado" se vivesse para ver aonde Putin levou o país. "Ele choraria".

Uma exposição mostra bonecos de um programa satírico da televisão, que nos anos 1990 alfinetava Iéltsin e seus assessores. O programa foi cancelado por Putin, que ficou ofendido por causa do boneco gordo e meio anão que o retratava. Outrora privada, a emissora de TV que transmitia o programa semanal, a NTV, agora é controlada pelo Estado.

Em geral, os liberais voltados para o Ocidente consideram Iéltsin um herói corajoso, embora cheio de falhas, que em agosto de 1991 conclamou à resistência contra um putsch da linha-dura do Partido Comunista, quebrou a União Soviética, introduziu o capitalismo e deu origem à Rússia como nação livre e democrática. Mas os nacionalistas e os esquerdistas lembram-se dele ou como um bufão cheio de vodca, ou, na pior das hipóteses, como um traidor que trabalhava para o Ocidente. Eles querem que o complexo seja fechado, ou pelo menos transformado para dar lugar ao que o crítico Ilya Belous acha que deveria ser "um museu dos crimes de Iéltsin".

"A equipe de relações públicas de Putin reduziu tudo à contraposição da imagem de um jovem e dinâmico Putin à do velho Iéltsin alcoolizado", disse Yevgeny V. Roizman, crítico que, no verão, demitiu-se do cargo de prefeito de Yekaterinburg em protesto contra a abolição das eleições para prefeito da cidade.

"Muitas pessoas não sabem o que aconteceu nos anos 1990", afirmou o ex-prefeito. "Eles culpam Iéltsin por ter destruído a União Soviética, mas ninguém a destruiu. A União Soviética desmoronou por conta própria, porque não podia mais ir adiante em termos ideológicos ou econômicos. Ela simplesmente desabou".

O objetivo do centro, de acordo com a diretora do museu, Dina Sorokina, não é limpar a imagem de Iéltsin, embora em grande parte ignore alguns dos aspectos mais odiosos de seu governo, principalmente o surgimento dos chamados oligarcas por meio de acordos de privatização corruptos. 

O silêncio a respeito dos oligarcas da Rússia talvez seja explicado pela lista de doadores que está na entrada. Ela inclui magnatas bilionários como Oleg Deripaska e Roman Abramovich, que ganharam fortunas nos anos 1990.

Em um discurso formal na inauguração do museu, Putin disse que o museu conta "a história honesta do que foi feito em um período difícil".

Como Drozdov lembra, o presidente percorreu os corredores da mostra que comemorava as liberdades perdidas "sem o menor sinal de emoção no seu rosto".

Iéltsin, que governou Yekaterinburg como líder do Partido Comunista nos anos 1970, morreu em 2007 aos 76 anos. Mas sua imagem ainda paira sobre a Rússia, e muitos russos cidadãos comuns o culpam pela morte do império soviético e por mergulhar o país na pobreza e na desordem. 

Andrei Pirashkov, um comunista de 23 anos que foi eleito no ano passado para a Câmara Municipal de Yekaterinburg, disse que não é fã de Iéltsin, mas frequentemente visita o centro por seus seminários interessantes e pelos debates públicos.

"Sou contrário a que se crie um culto da personalidade em torno de Iéltsin, mas a questão principal agora é Putin", disse Pirashkov.

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