Hannah Reyes Morales para The New York Times
Hannah Reyes Morales para The New York Times

Crocodilos de água salgada ameaçam cidade das Filipinas

Desde 2015, o pequeno vilarejo de Balabac registra anualmente ao menos um ataque fatal contra seres humanos

Aurora Almendral, The New York Times

06 de março de 2019 | 06h00

BALABAC, FILIPINAS - No dia em que Cornelio Bonite desapareceu, em novembro do ano passado, um crocodilo foi visto na água com um braço humano preso nos dentes.

"Foi como se ele o estivesse exibindo", disse Efren Portades, 67, guarda da cidade de Balabac, uma comunidade localizada em uma ilha alagadiça nas Filipinas, perto da fronteira marinha com a Malásia. Portades dirigiu as buscas de Bonite, um pescador de 33 anos.

No mês anterior, um crocodilo abocanhou a adolescente Parsi Diaz de 16 anos pela coxa, quando ela pulou na baía para nadar. Parsi escapou com vida. Um ano antes, uma garota de 12 anos foi atacada enquanto atravessava um rio. Meses antes, o tio da menina foi cortado ao meio. E muitos cachorros e cabras tornaram-se presas de crocodilos nas praias de Balabac.

Os crocodilos de água salgada antigamente vagavam pelas Filipinas, mas após um século de redução de sua população, em razão da pesca com dinamite e da caça, restaram apenas uns poucos em lugares espalhados. Agora, são uma espécie protegida. Mas seu número voltou a cair - enquanto os assentamentos humanos perto deles continuam crescendo.

Em Balabac, no entanto, os crocodilos são uma realidade da vida.

Desde 2015, todos os anos há pelo menos um ataque fatal na cidade, o que obriga à captura de outro "crocodilo problemático", segundo Jovic Fabello, de uma agência do governo da província de Palawan, à qual Balabac pertence.

Para piorar as coisas, os aldeões de Balabac e de outras aldeias têm arrancado ilegalmente cascas de árvores do mangue, que são vendidas também ilegalmente para compradores do exterior, para fazer tintas para couro. Isso destrói o habitat dos crocodilos, o que os leva a se aproximar cada vez mais de pequenas cidades e aldeias.

Salvador Guion, chefe da equipe de resgate dos crocodilos do Centro de Resgate e Conservação da Vida Selvagem de Palawan, foi convocado para capturar um crocodilo em Balabac. Os conservacionistas preferem deixá-los em liberdade no seu ambiente, e parte da tarefa de Guion é ensinar as pessoas a conviverem com estes animais e a vê-los como uma parte essencial da ecologia, e não como uma ameaça.

Os conservacionistas descobriram que a veneração cultural pelos crocodilos, praticada pelos Molbog, uma tribo muçulmana indígena da região, e outros grupos indígenas nas Filipinas, também encoraja a coexistência pacífica.

Guion não acredita que o crocodilo de Balabac tenha caçado Bonite. Ele acha que o animal talvez estivesse perto de seu barco e tenha se assustado com seus movimentos. "Os crocodilos também têm medo das pessoas", ele explicou.

A caça a um crocodilo pode durar semanas, mas Guion e sua equipe levaram apenas dois dias. O crocodilo que eles batizaram como Singko - com cerca de 5 metros de comprimento, 475 quilos e aproximadamente 50 anos de idade - poderia viver sua vida em uma área alagada. Cerca de duas semanas depois da captura de Singko, outro crocodilo entrou no território.

"Nossos crocodilos são bonzinhos", comentou Segundo Rapales, 75, olhando a água. "Basta que não sejam perturbados".

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