Gianni Cipriano para The New York Times
Gianni Cipriano para The New York Times

Cronista da máfia, Roberto Saviano volta-se para a ficção

Após escrever dois livros que renderam proteção policial 24 horas por dia e diversos endereços, autor lança o romance 'The Piranhas'

Ian Fisher, The New York Times

13 Setembro 2018 | 10h00

NÁPOLES - Roberto Saviano tem apenas 38 anos, mas, há mais de dez, sua vida tem sido assim: ele tem proteção policial 24 horas por dia, muda continuamente de domicílio e, quando volta a Nápoles, dorme na delegacia de polícia, porque é o único lugar seguro onde pode pernoitar em sua cidade natal.

Saviano ganhou uma longa lista de desafetos que lhe desejam o pior quando, no seu primeiro livro, “Gomorra”, de 2006, revelou os nomes dos mafiosos de Nápoles que acusa de terem acabado com a sua cidade. Foi desse modo que começou sua jornada para tornar-se o escritor italiano mais polêmico.

Recentemente, regressou a Nápoles para mostrar os lugares fundamentais que aparecem em seu novo livro, “The Piranhas”, da única maneira que lhe é permitida: no assento traseiro de um carro blindado, em meio ao estrépito das sirenes. Pelo menos uns vinte policiais de elite tomaram posições quando as viaturas da polícia pararam em uma praça onde ele faria uma breve caminhada.

De repente, surgido do nada, apareceu um segurança à paisana com uma submetralhadora. “Eu não estou nem vivo nem morto”, ele disse mais tarde quando o carro se dirigia para o sul pela autoestrada A1. “Eles não me mataram. Mas também não me deixam viver”.

O livro assinala um novo rumo literário de Saviano como seu primeiro romance convencional. “Gomorra”, adaptado para o cinema e transposto para uma série de TV, e um segundo livro de 2013, “ZeroZeroZero”, sobre o tráfico de cocaína, são obras de investigação contadas em um estilo romanceado, com algumas licenças.

O novo livro conta a história de uma gangue real de adolescentes que desafiaram a velha ordem e tentaram tomar conta da criminalidade em Nápoles. Embora se pareça com os seus outros livros por basear-se  em fatos reais, e tenha exigido uma profunda pesquisa, o autor usa nomes fictícios e narra até mesmo episódios reais e diálogos como ficção. Ao contrário dos seus outros dois livros, que deram os nomes verdadeiros dos envolvidos, em “The Piranhas” não faz isto.

“Optei por um romance porque queria ir mais a fundo nos personagens”, afirmou. “Queria ter a liberdade de imaginar o que eles pensavam”.

Alguns dos seus amigos, que temem pela segurança do escritor, sentem-se aliviados por ele finalmente ter escrito um romance “normal”. “Sua decisão de usar a ficção para revelar certas verdades é uma maneira de transmitir a sua mensagem sem todas as distrações que a cercam”, disse Ruth Ben-Ghiat, professora de História e Estudos Italianos na New York University.

No entanto, ele visita Nápoles em um momento, como o definiu, de “tensão”. Saviano criticou o novo governo populista da Itália e provocou a ira de Matteo Salvini, o vice-primeiro-ministro de direita que é contra os migrantes.

Em julho, postou no Twitter a fotografia de uma mulher com o filho mortos boiando no Mar Mediterrâneo, e perguntou “quanto prazer” Salvini deve sentir ao proibir o ingresso dos migrantes. “O ódio que o Sr. semeou irá derrubá-lo”, tuitou. Salvini ameaçou processá-lo e acabar com a escolta patrocinada pelo Estado. “É o meu carma”, comentou Saviano. “Eu passo de problema em problema”.

O título original italiano  - “La paranza dei bambini” - sugere que à noite os peixinhos são atraídos pela luz brilhante das redes usadas, em geral, para pegar peixes maiores. É o primeiro de dois romances; o segundo, “Fierce Kiss”, será traduzido para o inglês em 2020.

Ambos contam a história de uma gangue liderada por um colegial inteligente, mas totalmente insensível, Nicola Fiorillo. Ele acha que os antigos gângsteres que controlavam a droga que entra no centro de Nápoles se tornaram uns fracos e decide assumir o negócio.

Não se trata de uma “gangue de crianças”, mas de uma empreitada real de jovens delinquentes que não vieram da Camorra, o grupo criminoso que domina Nápoles. Ao contrário, são como as centenas de milhares de jovens italianos desempregados que não veem nenhuma esperança em seguir o caminho dos pais.

“Eles desprezam os pais,” afirmou. “Porque não conseguem pagar a prestação da casa”, e estão cheios de dívidas.

Embora o silêncio seja o código dos mafiosos da velha escola, estes jovens trocam continuamente mensagens entre si, postando suas façanhas no Facebook.

“A nova geração entende que se você não está na mídia social, você não existe”, disse Saviano. “Eles são como a Camorra 2.0”.

Mas não se trata apenas da Camorra. Como escreveu contra o governo, a corrupção, as negociatas entre políticos e mafiosos, e em favor dos migrantes, tornou-se ainda mais polêmico. Ele acusou Salvini de conduzir gradativamente a Itália para o autoritarismo, o que está se tornando uma crescente preocupação na Europa.

Na praça, alguns fãs conseguiram aproximar-se o bastante para tirar selfies com Saviano. “Posso cumprimentá-lo?” perguntou uma senhora local, Raffaela Ippolito, estendendo a mão.

“O que ele escreve é em parte verdade”, afirmou mais tarde. “Infelizmente, este é apenas o lado ruim de Nápoles. Há tantas coisas boas. Mas este é o seu trabalho”.

“Fierce Kiss”, seu romance seguinte, vende muito na Itália, e não desmentirá esta mulher. “O final não é feliz, como você pode imaginar”,observou Saviano.

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