Chip Somodevilla/Getty Images
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Prisão de ativista faz ecoar Era Castro

A detenção de José Daniel Ferrer García, em 1º de outubro, joga os holofotes sobre o país e o quanto o governo cubano vai contra os dissidentes do presidente Miguel Díaz-Canel

Frances Robles, The New York Times

12 de dezembro de 2019 | 06h00

MIAMI - O ativista José Daniel Ferrer García fez seu apelo desesperado com as próprias mãos. "Estou em greve de fome e sede", afirmou Ferrer, um dos dissidentes mais conhecidos de Cuba. Ele rabiscou em um pedaço de papel contrabandeado para fora da prisão. "Eles fizeram de tudo comigo."

Ferrer, de 49 anos, está preso desde 1º de outubro pelo que ativistas de direitos humanos dizem ser um ataque baseado em acusações falsas. Em seu bilhete de pedido de socorro, ele disse ter sido arrastado, algemado pelas mãos e pés e deixado de cueca por duas semanas para ser mordido por mosquitos e exposto ao frio da manhã. "Minha vida está em grande perigo", alertou.

A detenção de Ferrer renova os holofotes sobre Cuba e o quanto ela vai contra os dissidentes do presidente Miguel Díaz-Canel. Dezenove meses depois de assumir a presidência em meio a esperanças de reforma em Cuba e no exterior, Díaz-Canel lidera um governo que tem uma semelhança impressionante com a dinastia Castro que o precedeu, dizem os críticos. "Não pensemos que o poder mudou de mãos", disse Javier Larrondo, do Prisoners Defenders, grupo de defesa na Espanha que acompanha o caso de Ferrer. "O poder está nas mesmas mãos."

Em um sinal de quão seriamente está reagindo à condenação internacional, o governo cubano publicou este mês um vídeo que pretende mostrar Ferrer batendo a cabeça em uma mesa enquanto estava sob custódia, sugerindo que suas feridas foram autoinfligidas. Mas sua família e apoiadores apontaram indícios de manipulação no vídeo apresentado pelo governo. Eles argumentam que o homem sem camisa que bate no próprio rosto não é Ferrer.

Desde que assumiu o cargo, Díaz-Canel tentou, sem sucesso, melhorar as condições de vida em meio à escassez de gasolina e às sanções dos Estados Unidos. Embora Cuba tenha expandido o acesso à internet, permitindo que cubanos, com o novo serviço de celular com tecnologia 3G, publiquem queixas ousadas nas redes sociais, o caso de Ferrer passou a representar o que pode acontecer quando eles reclamam demais.

Greve de fome de 25 dias

Ferrer estava preso por quase dois meses quando sua família foi notificada da acusação formal contra ele. O anúncio ocorreu após críticas por sua detenção nos Estados Unidos e no Parlamento Europeu.

Nelva Ortega disse que Ferrer, seu marido, foi espancado e perdeu muito peso durante a greve de fome de 25 dias, que já chegou ao fim. Como organizador da comunidade, o ativista ajudou a coletar milhares de assinaturas para o Projeto Varela, referendo que exigia maior liberdade política, em 2002. Ele foi preso durante a repressão de dissidência conhecida como Primavera Negra em 2003 e cumpriu oito anos de prisão.

"José Daniel Ferrer sabia ler e entender as ruas de Cuba", destacou José Miguel Vivanco, diretor da divisão das Américas da organização internacional não-governamental Human Rights Watch. "Minha percepção é que essa é precisamente a razão pela qual eles temem esse cara mais do que qualquer outra pessoa."

A Human Rights diz que Cuba tem cerca de 100 presos políticos e que o número de detenções por mês caiu quase pela metade depois que Díaz-Canel assumiu o cargo em abril de 2018. Mas esse declínio, disse Vivanco, reflete em grande parte o fato de que existem menos dissidentes porque dezenas foram para o exílio.

Carlos Alzugaray, ex-diplomata e acadêmico cubano em Havana, contestou que a repressão contra os críticos do governo seja um problema. "Ninguém está preso em Cuba por causa de suas opiniões, não importa o que as pessoas pensem", argumentou Alzugaray. “Suceder a Fidel e a Raúl não é fácil. Quando você é o guardião de um legado, tem um problema: há expectativa de mudança e também há expectativa de continuidade." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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