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Tony Cenicola/The New York Times
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Site de culinária Epicurious abandona receitas com carne bovina

Medida foi tomada por preocupações com mudanças climáticas; 'Pensamos nesta decisão não como anti-carne, mas sim pró-planeta'

Derrick Bryson Taylor e Christina Morales / The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 05h00

Será que um império da culinária poderia silenciosamente parar de fazer receitas com carne bovina e não avisar ninguém?

Essa parece ser a façanha realizada pelo Epicurious, o famoso banco de receitas on-line que cozinheiros amadores têm usado para aprimorar suas habilidades há um quarto de século. Seus editores revelaram aos leitores em abril que não só não teriam mais novas receitas contendo carne bovina, mas que também fazia mais de um ano que as estavam eliminando.

"Sabemos que algumas pessoas podem supor que essa decisão sinaliza algum tipo de vingança contra os bois – ou contra as pessoas que os comem. Mas ela não foi tomada porque odiamos hambúrgueres (não odiamos!)", escreveram Maggie Hoffman, editora sênior, e David Tamarkin, ex-diretor digital, em um artigo publicado em 26 de abril. "A mudança diz respeito apenas à sustentabilidade, a não dar chance a um dos piores infratores climáticos do mundo. Pensamos nessa decisão não como anticarne, mas sim pró-planeta", argumentaram.

A mudança significa que não há novas receitas de filé ou estrogonofe, de um clássico carpaccio ou de um bolo de carne na página inicial. Nem de peito, costela, picanha, fraldinha ou qualquer outro corte primário no feed do Instagram do site. Prepare-se para incluir cogumelos no cheesesteak, seitan no molho francês, tofu no guisado e frango no lo mein. Mas não espere novidades nas costelinhas refogadas no chili. O futuro dos hambúrgueres, pelo menos aqui, parece ser o de peru, o de feijão e à base de plantas.

As receitas de carne bovina existentes permanecerão disponíveis, incluindo o suculento Steak Diane no Instagram, uma lista de 73 maneiras de fazer um jantar usando filé "110% mais bovino" e um "steakburger" em sua lista das 50 receitas mais populares de todos os tempos.

Os dias da carne, porém, terminaram oficialmente. A notícia não foi bem recebida nas vastas planícies e nos profundos territórios da Internet, onde as pessoas compartilham fotos da sua comida e julgam as dietas umas das outras. Os amantes dos animais disseram que a política não foi longe o suficiente. "Se você está realmente preocupado com o bem-estar dos animais, deveria parar de publicar receitas que incluem frango (que impõe muito mais sofrimento por quilo de carne que a carne bovina)", observou um crítico no Twitter. Outros argumentaram que seria pior para o clima: "Você está louco? Se o gado for retirado das fazendas, a terra será vendida e usada para habitação. Nem um pouco pró-planeta", respondeu uma pessoa.

O Instituto da Carne dos Estados Unidos, associação comercial, foi comparativamente contido. "A verdadeira questão deveria ser como a exclusão da comida favorita dos Estados Unidos afeta o Epicurious. Talvez o menor tráfego de dados na internet economize um pouco de eletricidade", rebateu Sarah Little, porta-voz do grupo.

Ainda assim, multidões de cozinheiros amadores elogiaram a mudança. "Realmente, tenho adorado a diversidade das receitas desde o ano passado (especialmente porque venho cozinhando ainda mais em casa)", comentou um usuário do Facebook.

A medida também foi aplaudida pela organização Peta, ou Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais, que a considerou um primeiro passo "fantástico". "Para realmente combater o desmatamento, a emissão de gases de efeito estufa e a seca, é preciso tirar toda a carne e os laticínios da mesa", defendeu o grupo em um comunicado.

Estava notoriamente ausente da conversa qualquer indignação ousada dos melhores chefs e cozinheiros experientes nas mídias sociais. Será que os Estados Unidos, cujos fazendeiros acionaram a Suprema Corte contra o slogan "Carne: é o que tem para o jantar", realmente superaram seu caso de amor com a carne bovina?

"Essa é a tendência que considera a carne um alimento obsoleto. O Epicurious é apenas um site, mas o importante é a repetição constante", afirmou Nina Teicholz, diretora executiva da The Nutrition Coalition e defensora de dietas com baixo teor de carboidratos e alto teor de gordura.

Há mais de 300 mil receitas no Epicurious, muitas com substituição por vegetais ou outras carnes. As receitas publicadas no lugar de pratos à base de carne bovina chamaram a atenção dos leitores, de acordo com o site. "Os números de tráfego e engajamento não mentem: quando recebem uma alternativa à carne bovina, os cozinheiros americanos ficam com fome", relatou a empresa.

A empresa Bon Appétit, que, assim como o Epicurious, faz parte do conglomerado de mídia Condé Nast, não respondeu imediatamente a perguntas relativas à adoção de alterações semelhantes.

Maile Carpenter, editora-chefe da revista Food Network, outro canal de culinária proeminente, divulgou em um comunicado que não mudou o desenvolvimento das receitas com relação à carne bovina. "Para nós, é uma questão de equilíbrio. Nosso objetivo é fornecer variedade de conteúdo para que os leitores possam fazer escolhas próprias", afirmou, descrevendo uma edição planejada de verão que apresentaria um hambúrguer na capa com receitas de hambúrguer vegetariano e pratos com camarão, peixe e frango acompanhados por legumes.

O Epicurious informou que a decisão de divulgar a mudança estava ligada a um recente aumento no consumo de carne bovina, embora o consumo geral desse produto esteja em um nível menor do que há 30 anos. "A conversa sobre culinária sustentável claramente precisa fazer mais barulho; essa política é nossa contribuição para isso", declarou a marca.

O comunicado também apontou dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, que informam que quase 15% da emissão global de gases de efeito estufa vêm da pecuária. O gado representa cerca de 65% das emissões da pecuária.

O americano médio consome quase cem quilos de carne – bovina, suína, de aves e de cordeiro – por ano, de acordo com dados de 2016 da Organização para a Cooperação Econômica e Organização para a Alimentação e a Agricultura.

Segundo um estudo de 2019, se os Estados Unidos reduzissem em um quarto o consumo de carne bovina, suína e de aves e as substituíssem por proteína vegetal, o país evitaria cerca de 82 milhões de toneladas de emissão de gases de efeito estufa por ano, redução de pouco mais de 1%.

Estudos também sugeriram que consumir menos carne pode trazer benefícios para a saúde e que o consumo de carne bovina e carne processada está relacionado a doenças cardíacas, câncer e outras enfermidades. No entanto, essa orientação pode estar desaparecendo. Um relatório de 2019 sugeriu que tal informação não tem boas provas científicas, com pesquisadores dizendo que se há benefícios para a saúde em comer menos carne bovina e de porco, eles são pequenos.

Teicholz frisou que a carne bovina, especialmente a carne moída, é uma das proteínas disponíveis mais baratas, é caloricamente eficaz e contém nutrientes que não podem ser absorvidos pelos substitutos da carne.

O site Epicurious comunicou que sua "agenda" não seria alterada – "inspirar os cozinheiros amadores a ser melhores, mais inteligentes e mais felizes na cozinha" –, mas que agora acredita em cozinhar pensando no planeta. "Se não fizermos isso, acabaremos sem planeta.

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